Fazia apenas quatro anos que Adriano Gabiru marcara aquele gol histórico contra o Barcelona. O Internacional estava de volta ao Mundial e tentaria mais uma vez derrubar os europeus. Mas não chegou a ter a chance. Foi surpreendido ao invés de surpreender. A derrota por 2 a 0 para o Mazembe nas semifinais e a comemoração do goleiro Kidiaba, que completam 10 anos nesta segunda-feira, entraram para o folclore, mas foram mais do que apenas uma . Não que não tenha sido inesperado, o Inter era mais forte, mas aquele resultado acabou antecipando duas tendências.

A primeira é que o Colorado foi o primeiro sul-americano eliminado na do Mundial, mas não seria o último. Houve vitórias apertadas anteriormente, dentro desse formato que estreou em 2005, como a do próprio Colorado sobre o Al-Ahly. No fim, porém, sempre se dava um jeito de passar.

O primeiro tempo nem indicou tanta dificuldade. Rafael Sobis havia exigido um milagre de Kidiaba, logo aos 10 minutos, e Índio levou muito perigo com uma cabeçada que atravessou a área. Tinga também teve uma boa situação na bola aérea. Renan levou apenas um susto ao ter que defender a batida de Kabangu da entrada da área em dois tempos.

O clima começou a mudar no começo da etapa final quando Kabangu dominou a bola, pela esquerda, deixou cair e mandou um bonito chute no ângulo de Renan para abrir o placar. O Internacional reagiu. Celso Roth colocou Giuliano e Damião, foi para cima e criou chances. Giuliano teve a mais clara de todas, muito bem defendida por Kidiaba.

Desesperado para tentar o empate, o Colorado deixou espaços na defesa. E aos 40 minutos, o Mazembe decretou o que parecia impensável: Kaluyituka recebeu pela esquerda no contra-ataque, mano a mano com Guiñazu. Pedalou, abriu à perna direita e soltou um preciso chute rasteiro no canto de Renan.

Na época, dava para ter analisado como um jogo isolado, um dia ruim aos sul-americanos. O Mazembe acertou dois chutes de alta dificuldade e o seu goleiro fez ótimas defesas. No entanto, nas nove edições do Mundial desde então, os sul-americanos ficaram fora da decisão outras três vezes.

O Internacional nem precisou esperar muito tempo para ter companhia. Em 2013, o Atlético foi derrotado pelo Raja Casablanca, representante do país sede, por um placar até mais . Os marroquinos também abriram o marcador no começo do segundo tempo, em um contra-ataque. Ronaldinho empatou com uma brilhante cobrança de , mas outro contra-golpe gerou um pênalti cometido por Rever. Mouchine Moutouali colocou o time da casa novamente à frente e, nos acréscimos, Vianney Madibé fechou o placar em 3 a 1 a favor do Raja.

Outros três anos depois, o Atlético foi deposto pelo Kashima Antlers. Foi um jogo em que os colombianos dominaram, pouco mais de duas semanas depois da queda do avião da Chapecoense que seria sua adversária na final da Copa Sul-Americana. O gol de pênalti de Shoma Doi, aos 33 minutos do primeiro tempo, deixou o campeão sul-americano mais nervoso. Parou de criar chances, ficou vulnerável no contra-ataque, teve falha de Armani e perdeu por 3 a 0.

Falando em Armani, em 2018, o River Plate passou por toda aquela epopeia que foi a final da Libertadores contra o Boca Juniors, decidida no Santiago Bernabéu, e em menos de dez dias estava em campo contra o Al Ain, outro representante do país sede, agora dos Emirados Árabes. Entrou um pouco desligado, talvez por toda a carga emocional das semanas anteriores, e levou o gol de Marcus Berg, aos três minutos.

Nem demorou muito para virar, com dois de Borré, mas Caio igualou o marcador no começo da etapa final, Pity Martínez perdeu um pênalti e nada separou os times até o fim da prorrogação. Da marca do cal, os nove primeiros cobradores acertaram, Enzo Pérez parou no goleiro Khalid, e o Al Ain passou para apanhar do Real Madrid na final.

Além das derrotas sul-americanas que viriam a seguir, aquela vitória do Mazembe também foi o prenúncio de um período de ouro da história do clube congolês, um dos maiores da África. Com cinco títulos continentais, empatado com o Zamalek, fica atrás apenas do Al Ahly, com nove.

Após um período de seca, o “Todo Poderoso” renasceu em 1997 quando começou a receber o apoio do empresário local Moïse Katumbi. O título africano que o qualificou ao Mundial de 2010 foi o segundo seguido. No ano anterior, o Mazembe havia sido eliminado ainda nas quartas de final pelo Pohang Steelers.

Os anos seguintes seriam o de maior sucesso do clube desde o fim da década de sessenta. Dominou o futebol do Congo com sete títulos da liga nacional até 2019, inaugurou estádio novo e um centro de treinamentos moderno. Nos cinco anos seguintes à vitória sobre o Internacional, chegou duas vezes à semifinal e conquistou novamente o caneco em 2015. De volta ao Mundial, perdeu nas quartas de final, para o Sanfrecce Hiroshima.

Ainda teria sucesso duas vezes na Copa das Confederações da , um torneio secundário entre clubes da África, e um título da Supercopa, apenas ratificando que, por mais que não fosse favorito contra o Internacional, estava no começo de um grande momento da sua história. E, de qualquer maneira, não seria o único clube de fora do eixo América do Sul-Europa a conseguir cavar uma vaguinha na decisão do Mundial.

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