Decepcionante

No Egito, muita gente acreditava que, dessa vez, era possível, sim, que o Al Ahly chegasse à decisão do Mundial de Clubes e rompesse com a hegemonia de sul-americanos e europeus na competição. Este colunista que vos escreve também corroborava com esse pensamento, vale ressaltar. Os motivos que levaram tantas pessoas a crerem nessa possibilidade já foram expostos em outras oportunidades, cabendo dizer que essa edição do torneio, em especial, apresentava oponentes mais frágeis.
Porém, não era só isso. O Ahly foi uma equipe que, nos últimos meses, soube se reconstruir, deixando para trás a pecha de acabada e ressurgindo, se assim podemos dizer, das cinzas. Os jogadores, antes tidos como velhos demais, conduziram o clube, com o apoio do treinador Manuel José, a mais um título da Liga dos Campeões africana, desbancando, assim, aqueles que imaginavam que, após o fracasso diante do Étoile du Sahel, sua hegemonia no continente havia ficado para a história.
Foi com tamanha confiança que os Vermelhos desembarcaram no Japão. Contudo, sem a mesma badalação de 2005, apesar da crença da imprensa egípcia de que uma final com o Manchester United se desenhava neste Mundial. Tal clima de otimismo, em nenhum momento, abalou a preparação do time, que partiu para o jogo contra o Pachuca ciente de sua responsabilidade e da força adversária. A derrota para os mexicanos não tem qualquer ponto de ligação com uma possível desconcentração ao longo da partida.
Seria até normal que isso viesse a ocorrer, já que a equipe virou o intervalo do primeiro para o segundo tempo com 2 a 0 no placar. Mas a atitude positiva, logo no início de etapa complementar, de seguir pressionando, mostrou que não foi esse o caso. Ao contrário. O clube chegou até mesmo a marcar um gol nos minutos iniciais, muitíssimo mal anulado, e que se anotado corretamente, certamente fecharia o caixão dos Tuzos. Entretanto, a arbitragem teve outra interpretação e acabou punindo o Al Ahly, que, em seguida, sofreu o primeiro revés.
Daí em diante, não há o que questionar. Os mexicanos foram, de fato, melhores e merecedores da vitória. Inexplicavelmente, os comandados de Manuel José recuaram demais, aceitando, passivamente, a pressão de Chaco Giménez e companhia. Os contra-ataques, que funcionaram tão bem na etapa inicial, se provaram ineficientes, e não seria equivocado dizer que os egípcios se apequenaram. E nada disso tem a ver com a falta de experiência internacional dos jogadores do clube, como apontou o técnico português.
Os atletas já conviveram com esse tipo de situação em outros momentos e não souberam, na verdade, se desvencilhar da maior força mental do Pachuca, que, mesmo contando com um Bruno Marioni pouco inspirado em seu ataque, se mostrou avassalador no restante da partida. Talvez tenha pesado contra o Al Ahly a falta de profundidade de seu elenco, que, ao contrário do que se viu entre os mexicanos, não pôde proporcionar com as substituições uma saída para o que vinha se desenrolando em campo.
É nesse ponto que se pode criticar o treinador Manuel José, que, ao longo do ano, reforçou seu grupo com jogadores, que foram poucas vezes testados depois de suas chegadas. A imprensa egípcia, porém, preferiu culpá-lo por sua omissão durante o jogo, acreditando que ele poderia, sim, ter interferido de maneira mais positiva no andamento da partida. No fim das contas, os comentários acabaram se somando apenas como um mais um capítulo nessa eterna rixa entre os jornalistas locais e o técnico. Neste caso, com a balança favorecendo, nesse confronto, o segundo, já que a cobertura esportiva no país tem se notabilizado por sua postura flutuante, até mesmo conflituosa em determinados momentos. Eis mais um exemplo, inclusive. De herói a vilão em 120 minutos.
Não só ele, na verdade. Os leitores mais atentos certamente se recordarão dos elogios ao goleiro Abdul-Hamid que foram descritos nesta coluna após a vitória do Ahly na final da LC africana. Pois bem, pouco tempo se passou desde então e o arqueiro já voltou à sua condição de questionado no Egito. Isto porque, segundo os “especialistas”, ele teria falhado no segundo gol do Pachuca, em cobrança de falta de Giménez. De fato, aparentemente Abdul-Hamid se posicionou mal, não protegendo nenhum dos cantos da meta, porém, daí a querer culpá-lo pelo fracasso já é um pouco demais.
Fiquemos, a partir de agora, de olho nos desdobramentos de mais essa frustrante participação do clube no torneio.



