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Costa do Marfim passou por um drama digno de cinema para voltar a ser campeã da CAN

Um jejum de 23 anos e uma geração talentosa que nunca concluia o serviço. Somam-se a isso a lenda de uma maldição jogada por um bruxo, a aposentadoria recente da sua principal referência e uma disputa de pênaltis completamente maluca. O enredo da final da Copa Africana de Nações que finalmente consagrou a Costa do Marfim poderia ter sido escrito por um talentoso roteirista e teve de tudo. Menos futebol. Após 120 minutos de caneladas, as duas seleções mais fortes do continente decidiram seus destinos a partir da marca do cal, e por 9 a 8, os marfinenses saíram vitoriosos.

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Gana e Costa do Marfim precisavam desse título depois das decepções dos últimos anos, mesmo tendo na teoria os elencos mais qualificados da África. Para Gana, o jejum era ainda maior, desde 1982, ainda com Abedi Pelé. De 2006 para cá, caiu quatro vezes nas semifinais. A Costa do Marfim foi duas vezes vice-campeã. Chegava perto, mas sempre faltava um pouquinho para tocar o troféu. Para a atual edição, perdeu Didier Drogba, aposentado da seleção. Seu jogador mais decisivo.

Tanta coisa em jogo pode ter contribuído para o nervosismo das duas equipes. No primeiro tempo, Serey Die poderia muito bem ter sido expulso duas vezes. Asamoah Gyan também mereceu o seu cartão vermelho ao pisar um jogador adversário. O árbitro fez vista grossa. A Costa do Marfim foi tímida demais no ataque para um time com Gervinho, Yaya Touré e Bony. O novo atacante do Manchester City foi poucas vezes acionado. Não teve a chance de definir. Talvez o time tenha se preocupado demais em manter a defesa fechada, o principal gargalo do time nos últimos anos, e esqueceu de atacar como sabe. Acabou dando certo porque Gana, apesar de ter pressionado bastante, principalmente no começo do segundo tempo e na prorrogação, não conseguiu fazer o gol do título.

A decisão foi para os pênaltis e tudo pareceu demais com 1992, quando os dois times também decidiram a CAN dessa forma, e a Costa do Marfim saiu vencedora. Desse título, surgiu a lenda de que os marfinenses haviam contratado o trabalho de um bruxo para serem campeões e deram calote nele. O feiticeiro, portanto, amaldiçoou a seleção, que nunca mais venceria nada. Bom, mesmo quem não acredita nessas coisas colocou uma pulga atrás da orelha nas duas primeiras cobranças: Bony e Tallo erraram os seus chutes, e Gana abriu 2 a 0.

Parecia que os irmãos Ayew conseguiriam conquistar o título que o seu pai Abedi Pelé levou para o país três décadas atrás, mas ainda tinha muito jogo pela frente. Acquah e Acheampong erraram, Aurier e Doumbia converteram e voltamos à igualdade. Mais semelhanças com 1992, quando a disputa de pênaltis terminou 11 a 10 para a Costa do Marfim, começaram a aparecer à medida que os jogadores acertavam os seus pênaltis. Em um deles, Barry ficou no chão, machucado.

Se foram dores genuínas ou apenas uma tática para desestabilizar o adversário, não se sabe. No 8 a 8, chegou a hora dos goleiros baterem. Razak Brimah partiu para a bola e parou nas mãos de Barry, que mais uma vez rolou pelo chão com dores. Era particularmente preocupante para a Costa do Marfim porque o seu camisa 1 seria o responsável pelo pênalti do título. Conseguiu ficar de pé, caminhou devagar até a marca de cal e cobrou forte, no ângulo. Ignorando os avisos do seu corpo, disparou pelo gramado para comemorar como se não tivesse acabado de passar por quase duas horas e meia de muita tensão.

A final da Copa Africana de Nações pecou na qualidade técnica, mas não no drama. Guardou toda a sua emoção para os minutos finais e para a sempre excitante disputa de pênaltis. Barry foi o personagem principal da decisão, o protagonista que defendeu um pênalti para forçar as cobranças alternadas, outro contra o seu semelhante na seleção ganense e, mesmo aparentemente machucado, converteu o seu chute. Depois de 23 anos e uma maldição, o título não poderia vir fácil para a Costa do Marfim. E definitivamente não veio.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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