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Corrupção e má gestão: Camarões não tem perspectivas

O futebol de Camarões vive um longo período de declínio. Maus resultados (já são duas edições consecutivas sem emplacar uma participação na Copa Africana de Nações), jogadores recusando-se a vestir a camisa da seleção, treinadores com filosofias fracassadas, enfim, são muitos os fatores que contribuem para este momento delicado. No entanto, todos esses aspectos mascaram o principal motivo da crise: os problemas administrativos. Corrupção, negligência, falta de investimento… O futebol camaronês está nas mãos de pessoas que crescem às suas custas ao invés de fazê-lo crescer.

A personificação deste “modelo” de administradores é o presidente da Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot), Iya Mohammed. O “todo poderoso” do futebol do país é um dos poucos membros da Fecafoot que não são empresários. Iya trabalha como diretor executivo da Sodecoton (Sociedade de Desenvolvimento do Algodão), uma organização paraestatal do norte de Camarões com forte atuação. Na última semana, pipocou a denúncia de que o mandatário foi o responsável pelo sumiço de quase nove bilhões de francos CFA (moeda do país) da Sodecoton entre 2005 e 2009.

Iya Mohammed acumula o cargo de presidente da Fecafoot desde 1998, na qual sua gestão, apesar de duradoura, é considerada um fracasso em todos os aspectos. A federação entrará em processo de eleições presidenciais nas próximas semanas e a grande incógnita é a apresentação da candidatura de Iya diante de tantas denúncias – potenciais candidatos ao cargo têm até o dia 30 de abril para se declarar. Especula-se no país que o dirigente desista de concorrer nessas eleições e apoie como o seu sucessor o secretário-geral da Fecafoot, Tombi a Roko, funcionário público e seu fiel escudeiro.

O certo é que Iya já não goza de tanto prestígio com os políticos camaroneses, entrando inclusive em “guerra” com os mesmos. Tudo porque o Ministério do Esporte de Camarões exigiu a suspensão das eleições presidenciais para uma espécie de “auditoria” na federação (o que costumeiramente não é aceito pela Fifa). A Fecafoot, no entanto, simplesmente ignorou o aviso e considerou a instrução “nula e sem efeito”.

Grandes personalidades do futebol camaronês, como Samuel Eto’o e Roger Milla, são basicamente opositores dos dirigentes que atualmente ocupam os cargos executivos da Fecafoot – e que enriqueceram às custas do dinheiro que circula na federação. Eto’o, que já ameaçou mais de uma vez abandonar a seleção de Camarões, é inimigo declarado de Iya Mohammed e declarou recentemente que já foi ameaçado de morte por dirigentes locais. Ex-diretor geral da Fecafoot, Jean-Lambert disse certa vez que o futebol camaronês é vítima de traição, fraude, corrupção, impunidade por parte de seus líderes, falsificação de documentos oficiais e indiferença das autoridades.

Desde 1996, Camarões só perdeu uma edição de Copa do Mundo em 2006. Isso está muito, mas muito longe de significar que tudo no futebol do país anda às mil maravilhas. O possível fim do ciclo de Iya Mohammed é por si só bastante animador, mas sabe-se que um homem com tanta influência não vai “largar o osso” com facilidade. Substituí-lo por um aliado não vai melhorar em nada a situação do futebol camaronês, que precisa de uma reformulação, de sangue novo na sua gestão (o que, infelizmente, vale para quase todos os países africanos). Reerguer o futebol da terra dos “Leões Indomáveis” nas atuais condições é absolutamente inimaginável.

Curtas

– O governo da África do Sul foi advertido pela Fifa a respeito de um inquérito judicial do escândalo de manipulação de resultados no futebol do país. A entidade alega que o assunto deve ser conduzido pela Associação Sul-Africana de Futebol (Safa), já que as federações não podem sofrer interferências governamentais – ainda que, especialmente na África, isso aconteça de forma quase explícita.

– Vários amistosos pré-Copa de 2010 realizados pela África do Sul, que sediou o Mundial, foram colocados sob suspeita de manipulação. A polêmica resultou na suspensão (cancelada meses depois) de vários dirigentes da Safa, incluindo o presidente da associação, Kirsten Nematandani.

– A Líbia está novamente autorizada pela CAF a mandar seus jogos no próprio país. A Confederação havia vetado partidas internacionais em território líbio desde 2011 por razões de segurança, mas agora decidiu suspender a punição.

– O Zamalek segue impossível no Campeonato Egípcio. No jogo mais aguardado da 8ª rodada, a equipe da capital derrotou o bom time do Ismaily por 2 a 0 e agora soma 24 pontos em 24 possíveis (100% de aproveitamento) no Grupo B. O promissor meia Mohammed Ibrahim, com um gol e uma assistência, teve atuação impecável. O Al Ahly, por sua vez, bateu o El Gouna por 2 a 0 e é vice-líder do Grupo A.

– Outro líder 100% é o Kabuscorp, que derrotou o Interclube por 1 a 0, chegou aos 15 pontos e está folgado na ponta do Campeonato Angolano. Em Gana, o Medeama derrotou o Aduana Stars por 3 a 1 e abriu quatro pontos de vantagem na liderança da Premier League local.

– O Kaizer Chiefs venceu o Bloemfontein Celtic fora de casa por 3 a 0 e abriu sete pontos de vantagem na liderança do Campeonato Sul-Africano. Com um jogo a menos, o vice-líder e arquirrival Orlando Pirates só empatou em casa com o Pretoria University sem gols.

– Com gols de Afful, Chamessdine Dhaouadi e Belaïli, o Espérance bateu o Club Africain por 3 a 1 e lidera o Grupo A do Campeonato Tunisiano, com 28 pontos. Na Nigéria, passadas cinco rodadas, o Kano Pillars soma 12 pontos e é o primeiro colocado. A equipe derrotou fora de casa o ABS por 3 a 2 no último domingo.

– Lars Olof Mattsson não é mais o técnico de Serra Leoa. Após dois anos no cargo (isso mesmo, um treinador consegue se sustentar por dois anos no comando de uma seleção africana!), ele decidiu pedir demissão por conta de divergências com a federação e o Ministério do Esporte do país, sobretudo por conta da falta de preparação para os jogos e das mudanças impostas pelos dirigentes nas convocações.

– Uma das maiores promessas do futebol nigeriano, o meia Gabriel Reuben, do Kano Pillars, vai jogar no futebol escocês. Ele assinou por três anos com o Kilmarnock, que também contratou outro jogador do Pillars: o defensor Papa Idris. Ambos já defenderam a seleção nigeriana – Reuben esteve inclusive no elenco campeão da CAN neste ano.

– Dois jogos das eliminatórias africanas para a Copa que não foram citados na última coluna: na terça-feira passada, o Egito venceu o Zimbábue por 2 a 1 e a Argélia derrotou Benin por 3 a 1. O Egito está muito próximo de assegurar sua vaga no mata-mata, enquanto os argelinos brigam ponto a ponto com Mali pela classificação no Grupo H.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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