África

Corrida para 2010

No último fim de semana, foi disputada a primeira rodada da fase final das Eliminatórias africanas para a Copa do Mundo. Em jogo, além das cinco vagas para o Mundial, os 15 bilhetes para a próxima CAN, que também será disputada em 2010, em Angola. A briga para selar o passaporte para essas competições começou cheia de surpresas, mas marcada, sobretudo, pela tragédia que antecedeu a partida entre Costa do Marfim e Malaui, em Abidjan. O desastre será analisado mais adiante. Falemos agora desse início de caminhada até o Mundial.

Pelo grupo A, Togo e Camarões se encontraram em Accra, capital de Gana. Os togoleses estão impedidos de jogar em casa em virtude da suspensão imposta pela Fifa após os incidentes que marcaram o encontro com Mali, pela fase classificatória da última CAN, ainda em 2007. E mesmo atuando em campo neutro, os Gaviões fizeram bonito e, com um gol de Adebayor, recuperado de contusão, derrotaram os camaroneses. A vantagem poderia ter sido ainda maior caso o atacante do Arsenal tivesse conferido uma cobrança de pênalti no segundo tempo.

A forma com que os Leões Indomáveis foram dominados na partida revoltou dirigentes e torcedores locais. Um possível fracasso na tentativa de retornar ao Mundial já é até mesmo temido no país. Atual vice-campeão da Copa Africana de Nações, Camarões não mostrou qualquer organização no gramado, fato que gerou diversas críticas ao treinador Otto Pfister, também contestado por seu estilo pouco disciplinador. O português Artur Jorge, de perfil diferente, tem sido lembrado pela imprensa camaronesa como uma possível alternativa.

Na outra partida da chave, talvez a maior zebra dessa primeira rodada, com a vitória de Gabão sobre Marrocos fora de casa. Embora o momento dos marroquinos não seja dos melhores, a derrota certamente não fazia parte de seus planos. Com um dos gols marcados por Pierre-Emerick Aubameyang, filho da estrela gabonesa Pierre Aubame, as Panteras aumentaram a pressão sobre o treinador Roger Lemerre, questionado por jornalistas por conta de suas convocações e opções táticas.

No grupo B, a decepção ficou a cargo da Nigéria, que viajou para enfrentar Moçambique em sua estreia nessa fase e não foi além de um empate em 0 a 0. Resultado, aliás, comemorado por seus jogadores, que, durante a partida, sofreram um verdadeiro massacre. O atacante moçambicano Dario Montero teve nada menos do que dois gols anulados pelo árbitro do jogo. Atuando com quatro peças em sua linha de frente, esperava-se por um time nigeriano mais agressivo, porém, não foi isso que se viu.

E a conta, é claro, foi para o técnico Shaibu Amodu, que, para variar, já vem tendo a sua demissão pedida por inúmeras personalidades do esporte no país. Engraçado que, até o início do ano, o treinador vinha tendo seu trabalho elogiado. Bastaram dois empates para que o seu projeto passasse a ser colocado em questão. Uma pena que as coisas ainda sigam assim na Nigéria a atração por profissionais estrangeiros continue em alta. Berti Vogts deve ser mesmo melhor, com certeza…

Observando a tudo isso de longe – e, claro, adorando – está a Tunísia. Depois de conquistar três pontos valiosíssimos diante de Quênia, em Nairóbi, os tunisianos agora veem o favoritismo se aproximar da equipe. Lidar bem com isso será a tarefa do português Humberto Coelho. No confronto contra os quenianos, ele soube explorar bem o excesso de zelo dos donos da casa e fez do seu meio-de-campo a arma para não só deixar sua defesa protegida, como também sufocar os anfitriões em seu campo de jogo.

Mais um favorito a ficar abaixo das expectativas, o Egito empatou com a Zâmbia, em Cairo, pelo grupo C. O encontro foi cercado de grande expectativa, pois os Faraós vinham de um campo de treinamento em que haviam conseguido reunir praticamente todas as suas estrelas, o que, inclusive, acarretou em dúvidas na escalação. Atletas como Mohamed Aboutrika acabaram sendo relegados ao banco de reservas. Mas nem toda essa força foi suficiente para que os zambianos fossem batidos e, assim, como já ocorrera na última CAN, a igualdade prevaleceu no placar.

Do lado egípcio, a nota negativa ficou por conta da discussão em campo entre os companheiros de Wigan, Amr Zaki e Mido. Outro fato que, aliás, remete à Copa Africana de Nações, porém, nesse caso, à edição de 2006, em que, após ceder lugar para Zaki, Mido discutiu com o atual treinador Hassan Shehata diante das câmeras. Certas coisas nunca mudam, e o Egito segue em sua busca para voltar a um Mundial depois de 20 anos. No outro embate da chave, Ruanda e Argélia também empataram.

Pelo grupo D, Gana abriu dois pontos de vantagem na liderança ao ganhar de Benin por 1 a 0 e acompanhar o empate em 1 a 1 entre Sudão e Mali, em Omdurman. Por pouco, porém, as Estrelas Negras não jogaram a partida com a sua equipe de juniores, atual campeã africana da categoria. Isto porque, dias antes do jogo, uma discussão um tanto quanto acalorada entre elenco e dirigentes em torno dos valores de premiação aconteceu e ela, digamos, não foi tão amistosa. Em determinado momento da conversa, o ministro dos esportes chegou a ameaçar lançar a garotada sub-20 no lugar dos mais velhos.

Por fim, no grupo E, Costa do Marfim e Burkina Faso largaram com vitórias. Em Abdijan, os marfinenses receberam o Malaui e cumpriram com o seu dever de casa, enfiando 5 a 0 na equipe que certamente desempenhará o papel de fiel da balança na decisão das vagas. Os burquinenses, por sua vez, comprovaram o seu bom momento nessas Eliminatórias e bateram o bom time de Guiné por 4 a 2. Ao lado dos Elefantes, brigarão ponto a ponto pelo primeiro lugar da chave.

As seleções voltam a campo pela segunda rodada em junho.

Tragédia em Abidjan

Mais um desastre no futebol africano. Agora em Abidjan, Costa do Marfim, nos momentos que precederam o jogo entre a seleção da casa e Malaui, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. 19 pessoas faleceram e outras 132 ficaram feridas no tumulto que aconteceu na entrada do estádio Felix Houphouet-Boigny. Embora ainda não tenham sido divulgados os motivos do acidente, suas circunstâncias já são conhecidas, e não são diferentes daquelas que marcaram outras tragédias pelo continente. Ou seja, uma combinação entre falta de organização das autoridades, preparo dos responsáveis pela segurança e bom senso dos torcedores.

Houphouet-Boigny possui 34.600 lugares e mostrava-se claramente superlotado no momento da tragédia, mesmo tendo tido apenas 29.791 dos seus 31.616 ingressos vendidos. Como explicar, então, o incidente? Esse é o papel dos dirigentes, que não tomaram as devidas medidas para coibir a atuação de cambistas e policiais corruptos. Se tivessem, por exemplo, repetido estratégia semelhante a que fora adotada três anos atrás para o confronto contra Camarões nesse mesmo estádio, teriam possivelmente evitado tamanha confusão. Na ocasião, em virtude do apelo da partida, também válida pelas Eliminatórias, só foi permitida a circulação pelos arredores do palco de torcedores com bilhetes. Desta vez, não encararam o encontro com a mesma seriedade.

Foi feito até um apelo nas emissoras de televisão para que quem estivesse em casa não se dirigisse mais ao estádio, pois não existia mais espaço nas arquibancadas. Pedido que, a julgar pela quantidade de pessoas que forçou a entrada em Houphouet-Boigny – dizem que havia mais gente fora do que dentro, não foi atendido. E, assim, como resultado de toda essa conjuntura de fatos, tivemos mais uma tragédia no futebol africano. Há quem já esteja preocupado com o que possa ocorrer na África do Sul, em 2010, porém, os organizadores da Copa não veem motivos para isso, pois, acreditam que, na altura da competição, a maioria dos ingressos já terão sido vendidos. É esperar pra ver, e, mais do que nunca, tirar uma lição não só desse desastre, como de outros semelhantes que aconteceram pelo continente nos últimos anos. Confira a lista.

2008 – Libéria e Gâmbia, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo; oito mortes.

2007 – Zâmbia e RD Congo, pelas Eliminatórias para a Copa Africana de Nações; 12 mortes.

2004 – Togo e Mali, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo; quatro mortes.

2001 – Asante Kotoko e Hearts of Oak, pelo campeonato ganense; 123 mortes.

2001 – TP Mazembe e Lupopo, pelo campeonato congolês; sete mortes.

2001 – Orlando Pirates e Kaiser Chiefs, pelo campeonato sul-africano; 43 mortes.

2000 – Zimbábue e África do Sul, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo; 12 mortes.

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