Como a Copa Africana lidou com o apartheid na África do Sul
Regime segregacionista esteve em vigor entre as décadas de 1940 e 1990, e resultou no banimento dos sul-africanos no âmbito esportivo
Competição mais tradicional do continente africano, a Copa Africana de Nações (CAN) começa neste domingo (21) a 35ª edição do torneio fundado em 1957. A África do Sul, classificada para a Copa do Mundo de 2026, disputará apenas pela décima vez. Isto porque, nos primeiros anos em que a CAN foi realizada, a seleção sul-africana esteve banida pelo Apartheid.
A política segregacionista da África do Sul, que esteve em vigor entre 1948 e 1994, separava as pessoas por raça e concedia privilégios à população considerada branca — africâner, termo que designa os descendentes de colonos europeus. Também negava direitos políticos, sociais e econômicos aos negros, maioria entre os sul-africanos.

Apartheid — termo que significa “separação” — foi instaurado pelo pastor protestante Daniel François Malan, do Partido Nacional, e mantido pelos governos seguintes. Essa política, além de categorizar os indivíduos por “cor”, foi responsável por segregar áreas residenciais, acesso à saúde e outros serviços básicos, impedindo o acesso à população negra.
Essa segregação também se dava no âmbito esportivo. Ainda na década de 1950, a África do Sul restringiu a viagem de atletas não brancos para competições internacionais — independentemente do esporte. Também criou regras para impedir times multirraciais nos esportes coletivos.
Banimento da África do Sul nos esportes
Membro fundador da Confederação Africana de Futebol (CAF) em 1956, a seleção sul-africana deveria disputar a edição inaugural da CAN, no ano seguinte. No entanto, com o regime sul-africano exigindo a convocação de um time composto apenas por atletas brancos, a África do Sul acabou excluída do torneio. Apenas Egito, Sudão e Etiópia disputaram a primeira edição, que teve o título dos egípcios.
A CAF decidiu, em 1958, pelo banimento da África do Sul, que permaneceu em vigor até 1992.
Em 1962, as Nações Unidas aprovaram uma resolução na qual condenava o Apartheid e pedia que os países-membros cortassem as relações diplomáticas com sul-africanos. Um ano antes, também foi banida do quadro da Fifa, em virtude das políticas segregacionistas do Apartheid.

A federação de futebol sul-africana chegou a negociar, junto à Fifa e ao então presidente Stanley Rous, uma equipe composta somente por atletas brancos e outra por negros nas Copas do Mundo de 1966 e 1970, respectivamente. Mas a proposta foi negada. Com isso, a suspensão permaneceu em vigor até que a África do Sul fosse expulsa em 1976.
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Retorno à Copa Africana de Nações
O fim do Apartheid se deu de forma gradual. Frederik Willem de Klerk, eleito presidente da África do Sul em 1989, colocou em vigor as primeiras medidas para o fim do regime, dada a pressão internacional e os protestos que aumentavam no país.
O líder Nelson Mandela, condenado à prisão perpétua, foi solto em 1990 e, nas eleições seguintes, se tornou o primeiro presidente negro a ser eleito na África do Sul. Também tornou legal o movimento negro Congresso Nacional Africano (CNA), que havia sido banido durante em regime.

O fim em definitivo das políticas segregacionistas, em 1992, fez com que o país fosse readmitido na CAF e na Fifa. Depois de 18 edições, a África do Sul estreou e sediou sua primeira CAN em 1996.
E quem poderia imaginar que os campeões seriam justamente os sul-africanos. Uma final com 80 mil torcedores e a presença ilustre de Pelé. A vitória por 2 a 0 sobre a Tunísia foi histórica dentro e fora de campo. É, até hoje, a única conquista da seleção na competição.
“Ouvir pessoas brancas dizerem ‘você é meu herói, você é meu ídolo’ me emocionou muito porque me lembro do que passamos durante todos aqueles anos. Aquela era a nova África do Sul”, disse o ex-jogador Lucas Radebe à “BBC”.
O retorno ao quadro de membros da Fifa também resultou, em 2010, no país se tornar o primeiro africano a sediar a Copa do Mundo, em 2010.



