Como o novo filme da Netflix, Jadotville, te ajuda a entender um pouco o futebol africano

Se você está em busca de um bom filme de guerra, inédito, eis a dica. Durante este mês de outubro, a Netflix incluiu em sua lista ‘O cerco de Jadotville’. O longa de 108 minutos, produzido na Irlanda e distribuído pelo próprio serviço de streaming, conta uma história real (e, o mais legal, pouquíssimo conhecida) ocorrida durante a Crise do Congo, no início da década de 1960. Um batalhão irlandês é enviado pela ONU para proteger a cidade congolesa de Jadotville, riquíssima na exploração de minerais, incluindo alguns importantes para a indústria bélica – como o urânio, o cobalto e o cobre. Entretanto, o desenrolar dos fatos, em meio ao contexto da Guerra Fria, deixou os despreparados soldados sob a mira de mercenários contratados pelas mineradoras e abandonado por seus próprios superiores. Um filme bastante interessante pelo capítulo que ele apresenta, embora não seja exatamente uma superprodução.
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O fato é que, por linhas tortas, ‘O cerco de Jadotville’ também fala sobre futebol. De maneira indireta, mas fala. Afinal, a história se centra na região de Katanga, importante no desenvolvimento do futebol africano, tanto a partir do fim da década de 1960 quanto atualmente. A sucessão de imbróglios da Crise do Congo levou ao poder Joseph-Désiré Mobutu. O então comandante do exército, que não aparece no filme, mas teve participação ativa na deposição do primeiro-ministro Patrice Lumumba, tomaria o controle da futura República Democrática do Congo após um golpe de estado em 1965. E foi ele um dos estadistas africanos que mais explorou o futebol para propagandear seu regime.
Em Katanga, durante a década de 1960, surgiu a grande potência do futebol congolês. A reestruturação vivida naqueles anos levou à constituição do campeonato nacional em 1963. Três anos depois, o principal representante de Elizabethville (atual Lubumbashi, central no desenvolvimento do filme), a capital de Katanga, levantou a taça: o então chamado Englebert, futuro Mazembe. O clube tinha os seus investimentos ligados a uma indústria de pneus de origem belga. No entanto, de certa forma se estabeleceu como um símbolo de Katanga, que chegou a encabeçar um movimento de independência próprio naqueles anos.
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O primeiro auge do Englebert inclui o bicampeonato da Copa dos Campeões da África, em 1967 e 1968. Naquele momento, o dinheiro abundava no clube, capaz de trazer alguns dos melhores jogadores do país. Também em 1968, os alvinegros serviram de base à seleção do Congo-Kinshasa, que conquistou o título inédito da Copa Africana de Nações. A deixa para que Mobutu usasse o futebol como bandeira das “benfeitorias” de uma das ditaduras mais marcantes do continente.
Em 1974, o já chamado Mazembe voltaria a ter parte nas glórias da nação. O Zaire (novo nome adotado pelo país, em processo de reconhecimento da cultura local) reconquistou a CAN naquele ano, motivo pelo qual Mobutu enviou o avião presidencial para buscar os jogadores após a decisão, no Egito, com pompas de estado. Três meses depois, os Leopardos se tornavam os primeiros representantes da África Subsaariana em uma Copa do Mundo. Contudo, a campanha vexatória no Mundial da Alemanha tornou o elenco o mais novo inimigo da ditadura. Os atletas, que já eram pressionados por Mobutu e não receberam um centavo sequer pela participação do torneio, com o dinheiro da Fifa desviado pelo mandatário, passaram então a ser perseguidos pelo regime.
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O restabelecimento do Mazembe como uma potência nacional e continental só voltou a acontecer, de fato, a partir de 1997 – coincidentemente, o ano em que Mobutu faleceu e deixou o poder. Mais importante para o clube foi a ascensão de Moïse Katumbi como novo dono dos alvinegros. Nascido na região, o empresário começou a fazer fortuna na pesca, o mesmo ramo em que atuava seu pai. No entanto, logo depois partiu para o lucrativo negócio da mineração em Katanga. Fundou a maior mineradora do país e se tornou o homem mais rico do Zaire. Como dinheiro não era o problema, Katumbi cumpriu o seu sonho de juventude ao comprar o Mazembe, time que costumava acompanhar das arquibancadas.
A partir de 2000, os corvos conquistaram dez títulos nacionais e três continentais. E pela estrutura que o dirigente moldou, com estádio moderno e excelente centro de treinamentos, dá para se manter no topo por mais tempo. Nos últimos tempos, o Mazembe passou também a recrutar jogadores de diferentes países da África. Segundo o presidente, esta seria uma maneira de demonstrar a unidade africana através do futebol, acima das guerras tribais que marcaram a história do continente. E, nesta linha de pensamento, os alvinegros passaram a espalhar investimentos em categorias de base por outros países.
Katumbi, de certa forma, também se beneficiou do sucesso do Mazembe em sua vida pública. Em 2007, o empresário se tornou o governador da província de Katanga. Sua gestão, encerrada em dezembro de 2015, foi bem avaliada pelo alto investimento em educação e infra-estrutura. Ocupou justamente o cargo que, durante a Crise do Congo, foi de Moise Tshombe, um dos principais antagonistas de ‘O Cerco de Jadotville’. Mas essa história eu deixo para o filme te contar.



