Quando a Costa do Marfim conquistou o seu único título da Copa Africana de Nações, a popular CAN, ainda era um moleque, nem tinha completado 14 primaveras. Yaya Touré, com apenas 8 anos de idade, deve ter corrido para a rua imediatamente (no mais tardar, o fez no dia seguinte), para bater uma bolinha e narrar aos gritos os seus próprios lances, adotando o nome de algum de seus novos heróis, um hábito que aposto ser universal. A trajetória vitoriosa da de 1992 inevitavelmente inspirou os sonhos desses dois meninos, que viriam a marcar seus nomes no futebol mundial.

Talvez tenha servido como um incentivo fundamental para que ambos insistissem na incerta carreira de jogador (embora para um jovem africano, normalmente, isso não seja uma escolha, mas sim uma necessidade) e acreditassem que o seu potencial poderia levá-los além do que os seus ídolos foram. Mais dinheiro, não há dúvida de que eles ganharam. Mais respeito e reconhecimento entre os fãs e profissionais do esporte mais praticado do mundo, idem. Foram à Copa do Mundo, algo que aquela geração não conseguiu. Mas pode ficar faltando justamente o título africano, ao qual foram tantas vezes considerados como os grandes favoritos.

Se não chegou a ser eleito o melhor do planeta como o liberiano George Weah, ou a encantar em um mundial como o lendário Roger Milla, Drogba merece ser considerado o africano de maior sucesso no futebol (relevando o fato de que o português Eusébio nasceu em Moçambique). O artilheiro começou a chamar a atenção em 2003, quando defendia o Olympique de Marselha, que seria vice-campeão da Copa da UEFA no ano seguinte. Desde que chegou ao Chelsea, sempre esteve entre os melhores do planeta em sua posição. Com muitos gols, ajudou o clube londrino a voltar a conquistar o título inglês depois de 50 anos e ainda repetiu a dose em duas oportunidades.

Ironicamente, a glória maior de Didier veio justamente na temporada em que pode ter perdido o posto de melhor jogador do país. Enquanto o centroavante se mostrou fundamental na conquista da Liga dos Campeões da Europa pelos Blues, Yaya Touré voava em campo pelo Manchester City, seja atuando como volante, seja participando como meia de criação. Seguramente, esteve entre os dez melhores do mundo em 2012. Para muitos dos que acompanham atentamente a Premier League, foi o melhor jogador do torneio. Nada mau para quem até bem pouco tempo atrás era apenas um coadjuvante de luxo no melhor Barcelona da história.

Desventuras em série

Falando nisso, não faltaram a Drogba e Touré coadjuvantes para lá de decentes nas últimas edições da CAN. Como exemplo, podemos citar Eboué, Salomon Kalou, Kolo Touré (irmão de Yaya), Zokora, Romaric e, mais recentemente, Gervinho e Bony. De nada adiantou. A trilha de decepções começou em 2006, ano em que os elefantes disputariam sua primeira Copa do Mundo. Os marfinenses chegaram à sua segunda final do torneio africano, mas caíram nos pênaltis, frente ao Egito. Dois anos depois, nova eliminação pelos pés dos faraós, dessa vez com uma goleada acachapante por 4×1, na semifinal.

Em 2010, a queda veio mais cedo, nas quartas de final, em um jogo que foi até a prorrogação e terminou com festa argelina. O filme de 2006 se repetiu em 2012, com nova derrota na final, também nos pênaltis. Dessa vez, quem levou a melhor foi a seleção de Zâmbia, em um confronto onde a Costa do Marfim chegou com amplo favoritismo. No fracasso de ontem, nova queda nas quartas, perdendo agora para a Nigéria. Talvez tenha doído até menos do que de costume, dado que os elefantes devem estar já meio anestesiados de tantas porradas seguidas. O golpe do nocaute tende a trazer mais resignação do que dor.

Os seguidos fiascos na CAN mancham a história da melhor geração de jogadores marfinenses, isso é inegável. O perigo é que sirva para menosprezar os seus feitos, ainda que eles tenham ficado abaixo das expectativas despertadas por eles próprios. Como citado mais acima, a Costa do Marfim teve a oportunidade de disputar duas Copas do Mundo. Para a de 2006, chegou já respeitada, mas caiu no grupo da morte. Não vendeu barato as derrotas para Argentina e Holanda e ainda conquistou os três pontos contra Sérvia e Montenegro. Em 2010, chegou a ser temida, mas não superou Brasil e Portugal de Cristiano Ronaldo, que se classificaram às oitavas.

Nas duas ocasiões, se não colocaram em prática todas as suas capacidades, os elefantes saíram de cabeça erguida, por mais que tenham desapontado a todos pela falta de surpresas. O que talvez explique a excessiva tranquilidade com que encararam os seus rivais nos últimos torneios continentais, o que levou a algumas vitórias sossegadas, muitas outras pragmáticas e às tais derrotas inesperadas. Outra possível explicação para os “apagões” dos talentosos marfinenses seja o estágio atual do futebol africano, onde a força física e os esquemas táticos pouco inspirados acabam encarcerando a malemolência de outrora e nivelando por baixo a disputa.

Mas o sonho acabou?

Em 2015, o Marrocos sediará a próxima edição da CAN. Drogba terá 36 anos, talvez não se faça presente, mas ainda parece ter alguma lenha para queimar. Yaya Touré terá 31 e o sentimento de urgência de conquistas só aumentará para ele. Gervinho, que terá 27, e Bony, que chegará aos 25, podem amadurecer um pouco mais e ocuparem bem o papel de referência ofensiva. A esperança em repetir o feito de 1992 ainda existirá, mas pintada em cores bem mais opacas do que nos últimos anos. Há de se cogitar que, com o peso do favoritismo diminuído, os marfinenses possam causar mais estrago, mesmo com uma equipe envelhecida.

Os biólogos garantem que os “cemitérios de elefantes” não passam de uma lenda. Não existe essa de que os animais, pressentindo a morte, se dirigiriam a locais que serviriam como um santuário em seus últimos dias. Na verdade, os elefantes idosos, por ficarem mais lentos, naturalmente se desgarraram de suas manadas. Por terem dentes mais frágeis, procuram regiões pantanosas, com abundância de água e folhagem amolecida. E por lá acabam ficando, até o fim da vida. Os elefantes do futebol contam com uma geração que se encontra justamente nessa fase. Precisam lutar pela sobrevivência de seu talento e não se entregar à morbidez gerada por fracassos acumulados.