Africa

Camarões vai mal em campo, mas o buraco é mais embaixo

Presente em cinco das últimas seis edições de Copa do Mundo, Camarões dificilmente virá ao Brasil para emplacar mais uma disputa. A fragilidade do time ficou novamente exposta no último fim de semana, na derrota para Togo por 2 a 0. Os “Leões Indomáveis” (cada vez mais “domáveis” no futebol africano) foram presa fácil para uma equipe que sequer contou com sua principal estrela, Adebayor. É bem verdade que os camaroneses também estiveram desfalcados de seu craque, Samuel Eto’o, mas tendo em vista que se trata de uma das maiores seleções do continente, a passividade do time é inadmissível.

Recentemente a seleção passou por uma polêmica – e inusitada – troca de comando. Após a demissão de Jean Paul Akono, a federação camaronesa “inovou” ao fazer um processo de recrutamento através de seu site oficial, onde foi noticiado que mais de cem treinadores se candidataram para o cargo. Nomes como Antoine Kombouaré e Raymond Domenech fizeram parte da “lista final” dos dirigentes, mas o escolhido para o comando foi o alemão Volker Finke, de 85 anos e sem nenhuma experiência anterior no futebol africano.

É justamente aí que mora a maior polêmica. Especula-se que a nomeação de Finke só tenha acontecido graças a uma intervenção da Puma, fornecedora de material esportivo da seleção camaronesa. O alemão teria exigido o menor salário dentre todos os que foram considerados para o cargo e concordou em morar no país.

A Puma, que possui relação bastante estreita com os dirigentes camaroneses, ainda teria se comprometido a pagar parte do salário do “seu” candidato. Ou seja, de acordo com a imprensa camaronesa, todo esse processo de seleção não passou de uma farsa: o novo comandante já havia sido escolhido há muito tempo. A presença de Finke nas arquibancadas do estádio de Yaoundé, onde Camarões venceu Togo por 2 a 1 em março, sustenta ainda mais essa tese.

Enquanto for administrada por dirigentes amadores e corruptos, a seleção continuará fadada ao fracasso. O sopro de mudança vem com as novas eleições da Fecafoot (Federação Camaronesa de Futebol) que, no entanto, já foram adiadas duas vezes. A nova data prevista é 19 de junho. Iya Mohammed, que preside a entidade por mais de uma década, ainda sofre acusações de corrupção e sua elegibilidade é questionada.

Diante deste cenário, um novo técnico dificilmente conseguirá fazer milagre. Mesmo dispondo de jogadores como N’Koulou, Song e Eto’o, o que se vê é uma equipe “engessada”, sem qualidade técnica. Muitos jogadores destoam do nível de exigência para representar uma das maiores seleções da África, muito pela entressafra que vive o futebol camaronês. Apesar de sua história e tradição, Camarões não é atualmente uma seleção de Copa do Mundo. E enquanto sua gestão não for reformulada, as perspectivas são ainda piores.

Outros destaques das eliminatórias

– Não seria exagero afirmar que Mohamed Salah é a maior joia do futebol africano na atualidade. O atacante egípcio de apenas 21 anos está gastando a bola e anotou um hat-trick na vitória sobre o Zimbábue por 4 a 2. O Egito está muito próximo de se classificar para o mata-mata das eliminatórias. E nas palavras de Bob Bradley, técnico da seleção, Salah é “o futuro do futebol egípcio”. Indiscutível.

– A Etiópia derrotou Botsuana fora de casa por 2 a 1 e pode se classificar por antecipação para o mata-mata das eliminatórias para a Copa. Para isso, basta uma vitória em casa na próxima rodada contra a África do Sul, que de quebra, acabaria com as chances dos últimos anfitriões do Mundial virem ao Brasil.

– Novamente repleta de jogadores estrangeiros sem qualquer ligação com o país, Guiné-Equatorial foi derrotada por Cabo Verde por 2 a 1 fora de casa. E a Fifa segue sem tomar nenhuma atitude para coibir essa prática de contratações disfarçadas de naturalizações, um crime para o futebol.

– Asamoah Gyan e Muntari entraram para a história como os primeiros jogadores a marcarem gols pela seleção ganesa em Copas do Mundo. E foram justamente eles que mantiveram vivas as chances dos “Estrelas Negras” virem ao Brasil em 2014. Com dois gols de Gyan e outro de Muntari, Gana derrotou o Sudão por 3 a 1, mas segue atrás de Zâmbia no Grupo D por um ponto.

– Uma seleção que vem praticando um futebol bastante agradável na África é a Argélia. Com a vitória sobre o Benin por 3 a 1 e o tropeço de Mali contra Ruanda (1 a 1), os argelinos assumiram a ponta isolada do Grupo H, com nove pontos, e seguem embalados na luta por uma vaga na Copa no Brasil. Slimani, autor de dois gols, é o artilheiro das eliminatórias com cinco tentos.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo