Cadê o espetáculo?

Quatro anos depois, o maior clássico do futebol africano, Al Ahly e Zamalek, voltou a ser disputado em uma edição de Liga dos Campeões. Além da tradicional atmosfera em torno do dérbi, o duelo opunha dois ambientes: o Ahly, agora comandado por Hossam El Badry, vinha embalado após a vitória sobre o Mazembe na rodada inicial e contava com a presença de Fathi, Aboutrika e Meteab, que defenderão o Egito nos Jogos Olímpicos. Do outro lado, um conturbado Zamalek, com o técnico Hassan Shehata na corda bamba e desfalcado de seus jogadores-chave: Shikabala, por indisciplina, e Zaki, por lesão – além de Mido, vendido para o futebol inglês.
O duelo foi muito fraco tecnicamente, como bem disse o técnico da seleção egípcia, Bob Bradley. Valeu o poder de decisão do Al Ahly, que venceu com um gol do craque Aboutrika, que se isolou como o maior artilheiro da história do clássico com 11 gols. Mas a particularidade deste confronto esteve nas arquibancadas. Pela primeira vez na história do dérbi centenário, o confronto não recebeu nenhum espectador. Sim, os jogos dos clubes egípcios como mandantes em competições continentais continuam sendo com portões fechados. Ainda que o país tenha elegido um novo presidente e as tensões estejam acalmando, o Ministério do Interior do Egito ainda não está convencido de que os estádios possuem segurança para a entrada de torcedores.
Mas o que está por trás desta decisão é, como sempre, o temor pela “politicagem” das arquibancadas. Não é segredo pra ninguém que os Ultras dos clubes locais têm papel ativo nas revoltas políticas, e uma partida de tamanho alcance poderia ser um prato cheio para uma série de protestos dos torcedores. O meia Mohamed Barakat, do Al Ahly, declarou que apesar da vitória, este foi o pior dérbi de todos os tempos. “O dérbi perdeu sua excitação e entusiasmo por conta da ausência dos torcedores”, disse o jogador de 35 anos.
Não bastasse o cancelamento da última temporada, o Campeonato Egípcio 2012-13 também está comprometido: o Ministério do Interior rejeitou o pedido da Federação Egípcia de Futebol (EFA) para que a competição inicie no dia 24 de agosto. As exigências dos governantes são completamente inviáveis em curto prazo: entre as principais, destacam-se a instalação de portões eletrônicos, câmeras de segurança dentro e fora dos estádios e scanners corporais, como os de aeroportos.
No entanto, mesmo sem o sinal verde do Ministério do Interior, a EFA já estipulou novas datas para o início da temporada, que começaria no dia 26 de agosto, com a Supercopa. Já no dia 7 de setembro seria dada a largada para o Campeonato Egípcio, a princípio com as partidas ainda sendo disputadas com portões fechados – pelo menos no primeiro turno.
Os esforços agora estão concentrados na busca por empresas especiais de segurança que atuem em conjunto com as forças militares dentro e fora dos estádios. O presidente do país, Mohamed Morsi, deve aprovar a decisão em breve. Se por um lado esta medida deve acalmar um pouco mais o prejuízo dos clubes, que sofrem para manter suas folhas de pagamento, por outra, não preenchem o grande vazio do futebol local nestes cinco meses de atividade: a presença de torcedores nos estádios, os responsáveis pelo espetáculo e que fazem do futebol um esporte fascinante.
Curtas
– Após vitórias sobre as equipes sub-23 da Espanha e da Suíça, a seleção olímpica do Senegal foi derrotada pela Coreia do Sul por 3 a 0 no último amistoso preparatório antes dos Jogos de Londres. Os Leões da Teranga estreiam no dia 26, contra a anfitriã Grã-Betanha.
– Uma notícia que gera polêmica no continente é a suposta decisão de Denis Lavagne, técnico da seleção camaronesa, de não devolver a braçadeira de capitão a Samuel Eto’o quando este retornar de suspensão. No entanto, fontes da Fecafoot (Federação Camaronesa de Futebol) garantem que apenas o Ministério dos Esportes possui tal autonomia.
– Na semana retrasada, o Sudão do Sul fez sua primeira partida como afiliado à Fifa e empatou com a seleção sub-20 de Uganda em 2 a 2. O duelo marcou a estreia de Zoran Dordevic no comando e teve significado mais do que especial: foi disputado dias depois da comemoração do primeiro ano de independência do país.
– Kuweidir Muftah, presidente da Federação Líbia de Futebol, renunciou ao cargo na última quarta-feira. Ele declarou que estava desgastado por conta da pressão que lhe era submetida e optou pela sua saída.
– O sorteio da fase de grupos da Copa da Confederação Africana entrou para a história: pela primeira vez em todos os tempos, três equipes do mesmo país integrarão uma mesma chave. Al-Merreikh, Al-Hilal e Al-Ahli Shendi representam o Sudão no Grupo A, que ainda conta com o Inter Luanda, de Angola.
– No Grupo B, o Wydad Casablanca, que na temporada passada foi vice-campeão da Liga dos Campeões Africana, encara dois times malineses: Stade Malien e Djoliba. Completa o grupo o surpreendente AC Léopard, do Congo, que eliminou nada menos que o atual campeão do torneio, o Maghreb de Fes.
– Melhor jogador do último Campeonato Marfinense, o meia Bobley Anderson Allègne, do AFAD Djékanou, foi contratado pelo Wydad Casablanca. O jovem de 20 anos assinou por cinco temporadas e é notabilizado pela técnica e pelo bom passe.
– Em amistoso disputado na última terça-feira, o Raja Casablanca bateu o Athletic Bilbao, de Marcelo Bielsa, por 3 a 1. Metouali, Karrouchy e Iajour marcaram os gols do time marroquino, que não está disputando nenhuma competição continental na temporada.
– Dois clubes sul-africanos enfrentaram o Manchester United em amistosos de pré-temporada. O primeiro foi o AmaZulu, derrotado por 1 a 0, gol de Macheda. No segundo, o Ajax Cape Town por pouco não aprontou uma zebra: van Graan abriu o placar, porém nos acréscimos, Bebe empatou.
– A Tunísia sagrou-se campeã da Copa das Nações Árabes Sub-17. A equipe derrotou o Iraque na grande decisão por 3 a 0 e conquistou um título inédito de forma invicta. Na disputa do terceiro lugar, vitória do Marrocos sobre Iêmen por 1 a 0.
– Não obstante, a “dobradinha” dos tunisianos veio pouco tempo depois: eles também ficaram com o caneco da Copa das Nações Árabes Sub-20. Em torneio disputado na Jordânia, a Tunísia aplicou 4 a 2 na Arábia Saudita na final. A Líbia goleou a Argélia por 4 a 0 e ficou com o 3º lugar.



