África

Briga entre “irmãos”

Dinheiro não chega a ser um problema para os clubes egípcios. Muitos deles gozam de uma situação estável. Podem se dar ao luxo, por exemplo, de recusar propostas da Europa por seus jogadores. Passa por aí o fato de várias de suas estrelas construírem as carreiras dentro de casa. O fator cultural conta nisso, claro, mas o aspecto financeiro também possui a sua importância.

Ahmed Hassan foi um desses que ousou ir de encontro a essa comodidade. Partiu para a Europa ainda novo. Rodou por Turquia e Bélgica, sempre com sucesso. O tal do “desconhecido” que parece amedrontar a tanta gente nunca o intimidou. O meia sentia prazer em sair por aí, conhecendo outros lugares.

Mas tudo tem limite. Mesmo para um trotamundos para os padrões egípcios como Hassan. A Argélia é um destino que o jogador garante não fazer mais parte de seu roteiro para qualquer viagem – mesmo que para cumprir obrigações com o seu clube, o Al Ahly, ou a seleção.

É algo que, a princípio, parece remeter aos incidentes do fim do ano passado, quando egípcios e argelinos se enfrentaram algumas vezes pelas Eliminatórias, em confrontos pra lá de acalorados. Mas, bem, desde então, a coisa havia se assentado. Aquele mesmo conflito que parecia se encaminhar para fins diplomáticos foi apaziguado com atos que incluíram a visita do presidente dos Faraós ao colega vizinho na ocasião de morte de seu irmão.

Tudo aparentava estar muito bem para o jogo do último fim de semana, entre JS Kabylie e Al Ahly. Até porque, pouco tempo antes, o JSK havia visitado o Egito para encarar o Ismaili, por essa mesma Liga dos Campeões, e nada havia sido registrado.

Um ou outro temor, óbvio, existia. Não dá pra comparar a dimensão do Ahly e do Ismaili no país. Os primeiros são muito mais representativos dos egípcios como nação, um detalhe que poderia suscitar alguma espécie de rancor por parte dos argelinos. As autoridades, ainda assim, duvidavam. Sustentavam um discurso de irmandade. Apostavam que toda a campanha feita antes da visita dos Vermelhos surtiria efeito. Prometiam, inclusive, uma recepção de nota para Mohamed Aboutrika, craque adversário e que deixou do outro lado da fronteira uma imagem muito boa naqueles encontros que decidiam uma vaga na Copa do Mundo.
Pois bem, no futebol, assim como em outras partes da sociedade, o ser humano trata sempre de provar que pode fazer um pouquinho pior.

Desembarque do Al Ahly na Argélia, tudo muito bem, nenhuma animosidade digna de menção. Mas foi só colocar o ônibus na rua para fazer um treino no palco de jogo que surgiu a primeira confusão. O veículo do clube foi apedrejado por torcedores, deixando dois atletas feridos – o atacante Osama Hosni, com mais gravidade (teve um corte profundo próximo a um de seus olhos).

Passado o susto e um curativo ou outro feito, foi a vez de os dirigentes tomarem a cena para amenizar o fato e garantir que aquilo não havia passado de um ato isolado. Que, para a profunda tristeza dos cartolas, voltaria a se repetir ao fim da partida, com mais ataques aos egípcios.

Reflexo de alguma forma do clima que se acompanhou em campo, com o JS Kabylie vencendo por 1 a 0, abrindo quatro pontos na liderança do grupo, e o Ahly perdendo a cabeça após ter um gol anulado e partindo para cima dos policiais que faziam a segurança do jogo.
Foi a primeira derrota do clube na Argélia desde 1988. Uma experiência que certamente demorará a ser esquecida por Ahmed Hassan.

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Equipe Trivela

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