Ave, Enyeama. Ave, Saadane

Ainda dá para sonhar com a classificação. Mas vai ser difícil, eles sabem. A Argélia segurou bem a Inglaterra e teve recompensada a confiança do técnico Rabah Saadane em seu trabalho. A Nigéria, por sua vez, voltou a perder. E o pior: jogando bem, contando com ao menos um pontinho até o final da partida. Enyeama até tentou, entretanto, não deu. Ter Sani Kaita expulso foi demais para as pretensões do país.
Ainda há esperança
Não dá pra considerar muito o que eles falam, mas não custa lembrar: após o sorteio da Copa, o tablóide The Sun trouxe em sua capa o grupo da Inglaterra para o Mundial. England, Algeria, Slovenia e Yanks – neste último, uma pequena adaptação para se atingir o objetivo. Qual objetivo? Bem, se você ainda sacou, juntando-se as primeiras letras de cada um dos nomes dos países, forma-se a palavra “Easy” (fácil). Pois é, era essa a sensação dos ingleses antes do ponta-pé inicial na África do Sul.
Algo deve ter mudado de lá para cá. O empate com os Estados Unidos foi um baque. Mas dava para recuperar, acreditavam. E, a bem da verdade, tinham motivo para isso. Na segunda rodada, encaravam a Argélia, de atuação decepcionante na estreia e derrota para a Eslovênia. Ninguém esperava muito dos africanos, nem mesmo eles. Ao fim do primeiro jogo, o técnico Rabah Saadane já adotou um discurso de conformismo. Queria tirar do time qualquer expectativa de classificação.
Se ele não conseguiu, digamos, os jogadores fizeram suas partes nos dias seguintes. Três polêmicas eclodiram na concentração argelina. Primeiro, o episódio envolvendo o meia Yazid Mansouri. Deixado de fora contra os eslovenos, foi avisado por Saadane que também não seria escalado contra o English Team. Foi o suficiente para o jogador, que sustentou a braçadeira da equipe durante anos, voltar para o quarto, arrumar suas malas e se preparar para ir embora. Depois de muita discussão, acabou, ainda que a contragosto, sendo demovido da ideia.
O elenco ficou do seu lado. Menos um ponto para Saadane, que viria ainda a perder outro. No apronte para a partida contra a Inglaterra, os atletas se rebelaram contra a opção tática do técnico – o 4-5-1. Queriam algo mais ofensivo, sabiam que na estreia o ataque havia ficado devendo. Sem conversa.
Não satisfeitos com tanta confusão, direcionaram depois sua bronca para a imprensa francesa, a quem passaram a boicotar depois que o jornal Liberation fez fotos de mulheres nos ombros de jogadores. O capitão Antor Yahia foi sucinto ao se dirigir a eles: “vão cuidar de sua seleção”.
Estava, assim, formato todo um cenário que favorecia a Inglaterra, mas que, no fim das contas, mostrou que Saadane estava certo. Primeiro, ao seguir com Mansouri de fora e, segundo, com o esquema escolhido para a partida. Certamente, o treinador acompanhou o amistoso dos rivais egípcios contra os britânicos. Foi a mesma disposição que permitiu aos Faraós segurá-los durante boa parte daquele jogo. Capello parecia não lembrar disso e mais uma vez ficou na mão.
Faltou apenas um centroavante para as Raposas do Deserto. Matmour atuou durante todo o tempo isolado na frente, mesmo não sendo um jogador da posição. Karim Ziani, vindo de trás, se encarregava de avançar e dar o suporte. Foi bem, mas não o suficiente para garantir três pontos para os argelinos. Fica o alento de ter feito um bom jogo e de que, mais do que nunca, a esperança de classificação está viva.
Enyeama para presidente
Algo de estranho paira sobre essa Copa. Goleiros africanos e brasileiros em alta? Bem, isso nunca foi lá muito comum na história. Mas, sabe como é, acontece. A África do Sul está presenciando a esse fenômeno, personificado não na figura de Julio César, que, segundo Maradona, nem suou a camisa até aqui, mas com Vincent Enyeama, o arqueiro nigeriano.
Você pode não lembrar, mas ele já aprontou das suas por aí. Tinha 19 anos quando pintou bem pela primeira vez. E num Mundial. Pois é, acredite ou não, a Coreia do Sul e o Japão foram o primeiro cenário das intervenções divinas de Enyeama. Na ocasião, em um jogo contra Inglaterra, o goleiro foi responsável por uma das mais belas defesas do torneio. Do meio da rua, como se costuma dizer, Paul Scholes chutou e Enyeama voou para escorar a bola na trave e vê-la fugir de sua meta.
Desde 2002, foram oito anos de bons trabalhos por alguns países, e mais ultimamente em Israel. O reconhecimento entre seus compatriotas ele sempre teve, ainda que vez ou outra despertasse alguma dúvida em torno de suas credenciais. Mas se mantinha ali, com a camisa número 1 sempre às costas. Faltava algo que nessa Copa veio. Foram dois prêmios como melhor em campo.
Contra a Grécia, também merecedor, mesmo com a falha no gol de Tziolis. Triste sina a de Enyeama. Depois de parar Scholes, Messi, teria que sucumbir diante de Tziolis, Alexandros. Faz parte. Ele cumpriu o seu papel mais uma vez em campo. O time não ajudou muito, Obasi há de concordar depois do gol perdido – e que gol perdido, convenhamos, de fazer inveja a Thiago Gentil em seus tempos de juniores do Palmeiras.
Mas ainda mais decisivo para outro revés das Super Águias nem tão Super assim foi a expulsão de Sani Kaita. Algo controvertida, vá lá, mas que, dependendo do julgamento, pode-se aceitar. O jogador foi um dos acertos de Lars Lagerback em seus primeiros meses com a Nigéria. Ao lado de Lukman Haruna, formou uma boa parelha na estreia, contra a Argentina. Dava a dinâmica que o time tanto se ressentia no meio-campo. Sem a sua presença, os nigerianos sucumbiram e foram pressionados pela frágil Grécia, que de tanto insistir acabou levando a vitória. Uma pena. Por mais confusa que tenha sido a preparação da equipe, Enyeama e seus colegas mereciam melhor sorte.



