África

Até que ponto é aceitável naturalizar jogadores?

A naturalização desenfreada de jogadores de futebol é um tema que gera muita controvérsia. Trata-se de um assunto que merece ser tratado de forma individualizada, mas não se pode negar que atualmente presenciamos uma “descaracterização” das seleções, que cada vez mais incorporam atletas que não possuem qualquer vínculo com o país que representam. Enquanto a Fifa faz vista grossa para o tema, muitas equipes tem burlado as regras da entidade de forma descarada. E talvez nenhuma seleção exemplifique tão bem esse artifício como a de Guiné-Equatorial.

No último compromisso oficial dos guineenses, a equipe derrotou Cabo Verde por 4 a 3 e manteve viva a (remotíssima) chance de classificação para a próxima Copa do Mundo. No entanto, o mais impressionante é que dos 22 jogadores convocados para este duelo, simplesmente nenhum nasceu em Guiné-Equatorial e apenas três deles possuem ascendência guineense – os espanhóis Rui, Randy e Nsue. De acordo com o artigo 17 do estatuto da Fifa, para um jogador adquirir uma nova nacionalidade, ele deve cumprir ao menos uma de três condições: ter nascido ou possuir ascendentes no país em questão ou viver continuamente no território em questão por pelo menos cinco anos depois de atingir a maioridade.

Com exceção do supracitado trio espanhol, nenhum dos outros convocados atende qualquer um desses requisitos. Entre os 19 estrangeiros convocados por Guiné-Equatorial, nove são brasileiros, três são colombianos, dois são marfinenses e um nigeriano, um ganês, um cabo-verdiano e um liberiano completam a lista. O critério para a convocação destes jogadores é absolutamente obscuro. Em geral, trata-se de indicações de empresários diretamente ao conselheiro do Ministro dos Esportes, Ruslán Obiang Nsue, principal mandatário do futebol local.

E como esses jogadores são persuadidos a jogarem por Guiné-Equatorial? Basicamente por dinheiro. A oportunidade de representar uma seleção, que dificilmente seria “concedida” pelos seus países de origem, é outro fator decisivo. Entre os brasileiros da equipe, todos eles atuam em clubes pequenos do nosso país. O goleiro Danilo, do Alecrim (conhecido por defender um pênalti de Drogba na CAN 2012), revelou ao BOL Notícias que nunca havia pisado em Guiné-Equatorial antes de ser convidado para jogar pela seleção e que recebe um valor fixo dos dirigentes locais para disputar jogos.

Nesta mesma entrevista, o meia Judson, do São Bernardo, também “naturalizado”, afirmou que nunca tinha ouvido falar de Guiné-Equatorial e chega a se referir ao local como “aquele país lá”, tamanha a inexistência de qualquer afetividade com a nação. Vale lembrar que, até pouco tempo, a seleção guineense era comandada por um brasileiro (Gílson Paulo), que recentemente deu lugar ao espanhol Andoni Goikoetxea. A presença de um compatriota no comando era outro elemento que estimulava a confiança dos brasileiros a atuarem pela seleção.

As artimanhas para despistar essas falcatruas são assustadoras. Segundo o blog Nzalang Mundial, a melhor referência (imparcial) do futebol de Guiné-Equatorial, a imprensa do país realiza modificações no nome dos estrangeiros para insinuar que estes são, de fato, guineenses. Um exemplo é o do atacante Ricardinho, também do São Bernardo, que teve seu nome citado como Ricardo Mba Isao, quando na verdade é Ricardo Martins Pereira.

A Fifa recentemente ameaçou punir Guiné-Equatorial com perda de pontos devido à irregularidade na naturalização de um jogador (tudo indica que seja Emilio Nsue, com passagem pelas seleções de base da Espanha), mas parece ignorar outros casos ainda mais absurdos. A entidade máxima do futebol continua se esquivando do problema, atribuindo a responsabilidade de fiscalizar a naturalização dos jogadores às federações – como se as próprias não fossem as maiores culpadas pelas fraudes. Enquanto isso, sem qualquer resistência, seleções como Guiné-Equatorial buscam se fortalecer a qualquer custo por meios ilegais. Mais um capítulo sujo do futebol.

Curtas

– Os jogos de ida da última fase qualificatória da Liga dos Campeões Africana reservaram muitas surpresas. Os grandes favoritos ao título, Al Ahly, Espérance e Mazembe, não venceram. O Ahly empatou sem gols com o Bizertin na Tunísia, mesmo resultado do Espérance contra o JSM Béjaïa na Argélia. Quem se complicou mais ainda foi o Mazembe, derrotado por 3 a 1 para o Orlando Pirates.

– Espérance e Ahly não devem ter dificuldades para confirmar a classificação na volta. O Pirates, por sua vez, quer acabar com a sina de fracasso dos sul-africanos na LC, mas o Mazembe é um dos times mais fortes da África jogando em seus domínios. Nos outros jogos, destaque para o Saint-George, da Etiópia, arrancando um empate contra o Zamalek no Egito (1 a 1), e a vitória do Coton Sport sobre o Stade Malien por 3 a 0.

– O supracitado Bizertin, que empatou com o Al Ahly, é pivô de uma enorme polêmica na Tunísia. O clube não aceita sua eliminação na Ligue 1 para o Club Africain. Tudo porque as duas equipes terminaram o Grupo A da liga com 29 pontos, e mesmo com o Bizertin levando vantagem no saldo de gols e no confronto direto, a federação decidiu eliminar o time por conta de manipulação de resultado.

– O Bizertin não aceitou a punição e ameaçou suspender todas as suas atividades esportivas, mas recuou dias antes do jogo contra o Ahly. O clube alega favorecimento dos mandatários locais ao Club Africain e exige revisão imediata da decisão. Os torcedores do Bizertin, irritados com a polêmica, se envolveram em um confronto com a polícia de Bizerte, atirando pedras e atacando bancos e lojas. Os policiais usaram gás lacrimogêneo em resposta.

– Após voltar a receber jogos internacionais, a Líbia tem mais um motivo para ficar esperançosa: o governo local está disposto a investir mais de 300 mil dólares na construção de 11 estádios para a Copa Africana de Nações em 2017, a ser sediada pelos líbios. Através do esporte, a intenção é mostrar que a vida no país voltou ao normal após um período turbulento de guerra civil.

– Desde o golpe de Estado que pôs fim ao regime de François Bozizé, a situação na República Centro-Africana é caótica. O futebol, claro, não está alheio a isso. No maior hospital da capital Bangui, as bolas de futebol ajudam a distrair as crianças do clima de insegurança do país. Já a seleção local corre o risco de mandar seu jogo contra a África do Sul, em jogo válido pelas eliminatórias da Copa, longe de casa.

– A África já tem seus quatro representantes no próximo Mundial Sub-17 definidos. Marrocos, Tunísia, Nigéria e Costa do Marfim classificaram-se para o torneio a ser sediado pelos Emirados Árabes e que inicia em outubro. A disputa pelo título do Africano Sub-17, no entanto, segue em jogo. Nas semifinais, o anfitrião Marrocos encara a Costa do Marfim e a Nigéria encara a Tunísia.

– Apenas nove gols em oito jogos de ida da segunda fase eliminatória da Copa da Confederação Africana. Foram quatro empates sem gols (entre eles, ENPPI x SuperSport United e Al-Ahly Shendi x Ismaily), e a vitória mais expressiva foi do CS Sfaxien, da Tunísia, que bateu o Diables Noirs (Congo) por 3 a 1. A surpresa foi a derrota do Wydad Casablanca para o Liga Muçulmana, da Moçambique, por 2 a 0.

– Invicto e com sete vitórias em oito jogos, o Kabuscorp segue isolado na liderança do Campeonato Angolano. No último fim de semana, o ex-time de Rivaldo bateu o Primeiro de Agosto fora de casa por 1 a 0, gol marcado por Adawa. A equipe soma 22 pontos, sete a mais que o vice-líder. O atual campeão, Recreativo do Libolo, é o lanterna – todavia, com um jogo a menos.

– De virada e com dois gols de Bernard Parker, o Kaizer Chiefs venceu o Swallows por 3 a 1 e abriu seis pontos de vantagem na liderança do Campeonato Sul-Africano. Em Gana, faltando oito rodadas para o fim, o Medeama derrotou o Ashanti Gold por 1 a 0 e lidera o campeonato nacional com 42 pontos, três a mais que o Berekum Chelsea.

– O Raja Casablanca derrotou o Maghreb Fès por 2 a 1 e abriu oito pontos de vantagem para o vice-líder FAR Rabat no Campeonato Marroquino, porém com dois jogos a mais. No Sudão, com os dois grandes clubes do país já eliminados na Liga dos Campeões (Al Hilal e Al Merreikh), a disputa promete ser acirrada pelo título nacional. O Al Hilal lidera com 16 pontos, dois a mais que o Merreikh, em oito jogos.

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