África

Ataque à delegação de Togo não surpreende

Não é preconceito. Ainda hoje, a África conversa boa parte de sua imagem selvagem, personalizada não só em suas savanas e animais, mas, de forma ainda mais preponderante, em seus confrontos internos. Considerando isso, a questão que fica é por que se insiste em sediar eventos da magnitude de uma Copa Africana de Nações numa região que, sabidamente, abriga um conflito político que resiste há vários anos e está longe de ser resolvido.

A emboscada que a delegação do Togo sofreu enquanto deixava o seu campo de treinamento no Congo e se dirigia para Cabinda, em Angola, não surpreende. Semanas atrás, o mesmo grupo terrorista atacou guardas que vigiavam a fronteira angolana. Não seria esse um aviso suficientemente forte de que, não o país, mas talvez o local não fosse seguro para receber as seleções?

A organização da CAN preferiu ignorar o sinal e manter não só Togo, mas também Costa do Marfim, Burkina Faso e Gana na região. Uma atitude irresponsável e que resultou num incidente que acarretou na morte do motorista que conduzia os Gaviões em sua viagem e feriu, com gravidade ainda desconhecida, três atletas do país. Entre eles, o goleiro Kodjovi Obilale, do Pontivy-FRA, e o zagueiro Serge Akakpo, do Vaslui-ROM.

Essa não é a primeira vez que dirigentes africanos arriscam e colocam a vida de outras pessoas a perigo. No segundo semestre do ano passado, a Nigéria recebeu o Mundial Sub-17 sob ameaça terrorista. Ainda assim, preferiu seguir adiante com o campeonato, esnobando as consequências que um possível ataque do movimento separatista de Niger Delta representaria aos membros das seleções.

2009 e 2010 foram anos reservados pela Fifa para que a África pudesse mostrar aos demais continentes a sua força. A resposta até aqui não tem sido das mais animadoras e só colaborou para o argumento, que costuma ser comum em outros meios, de que a região ainda não está preparada para organizar eventos de grande porte. A CAN corre o risco de ser cancelada. Não seria exagero dizer que essa é a decisão mais acertada a se tomar, mesmo que bastante improvável.

Guia da Copa Africana de Nações – Parte 2

Enquanto a posição oficial dos organizadores não é conhecida, veja a segunda parte do guia da competição. A primeira pode ser conferida aqui.

Grupo C

Egito

O fim de uma era? Essa é a sensação que se tem no Egito. Com uma média de idade de 27,6 anos, a equipe é a mais velha da Copa Africana de Nações e chegará ao campeonato sem algumas de suas principais estrelas – caso de Mohamed Aboutrika, Mohamed Barakat (ambos contundidos), Mido, Amr Zaki e Mohamed Hommos (opção técnica). O treinador Hassan Shehata, bicampeão africano com o país, foi bastante criticado especialmente pela exclusão de Mido, que, no amistoso recente contra Mali, aparentava estar fora de forma. Sem o atacante, o técnico terá como principal desafio montar uma linha de frente que apresente a mesma dinâmica de 2008. Emad Moteab, do Al Ahly, deverá ser a referência, com Mohamed Zidan vindo de trás, em velocidade. A preferência por um só atacante provou-se fracassada na preparação, assim como o teste com o 4-4-2. Mais um obstáculo para os egípcios, apontados pelos marfinenses como os principais candidatos ao título.

Treinador: Hassan Shehata
Destaque: Mohamed Zidan (atacante, Borussia Dortmund-ALE)
Promessa: Ahmed Al-Muhammadi (lateral-direito, ENNPI)
Escala Portsmouth: baixa
Como se classificou: 2º lugar no grupo C das Eliminatórias
Participações na CAN: 22 (1957, 1959, 1962, 1963, 1970, 1974, 1976, 1980, 1984, 1986, 1988, 1990, 1992, 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006, 2008 e 2010)
Melhor resultado: campeão em 1957, 1959, 1986, 1998, 2006 e 2008

Nigéria

É triste, mas a Nigéria é hoje um time sem qualquer criatividade em seu meio-de-campo. Até por isso, o técnico Shaibu Amodu cogita escalar a equipe no 4-3-3 ou até no 4-2-4. Durante as Eliminatórias, o responsável pela armação foi John Obi Mikel, um jogador supervalorizado e que ainda não conseguiu corresponder as expectativas que cercam seu futebol desde a chegada ao Chelsea. Esse não é o único obstáculo de Amodu na Copa Africana de Nações. O treinador, fortemente contestado no país, terá que contornar também a falta de ritmo que atormenta a sua defesa, toda ela fora de forma. O elenco, que terá o incentivo de US$ 30 mil dólares para cada atleta em caso de avanço para as quartas de final, apresenta uma curiosidade: seus três goleiros atuam no futebol israelense.

Treinador: Shaibu Amodu
Destaque: John Obi Mikel (volante, Chelsea-ING)
Promessa: Sani Kaita (meia, Kuban-RUS)
Escala Portsmouth: alta
Como se classificou: 1º lugar no grupo B das Eliminatórias
Participações na CAN: 16 (1963, 1976, 1978, 1980, 1982, 1984, 1988, 1990, 1992, 1994, 2000, 2002, 2004, 2006, 2008 e 2010)
Melhor resultado: campeão em 1980 e 1994

Moçambique

Moçambique volta a cruzar o caminho da Nigéria. Nas Eliminatórias, fizeram jogo duro contra as Super Águias e seguraram um empate dentro de casa. Em Angola, partem mais uma vez como franco-atiradores. Retornando à competição depois de 12 anos, os Mambas não gozam de grande experiência em seu elenco e apostam suas fichas no técnico holandês Mart Nooij, desde 2007 no comando da equipe. O prestígio do treinador no país é tamanho que a renovação de seu contrato já vem sendo conversada. Atento às ruas raízes, Nooij deve escalar o time no 4-3-3, com o capitão Tico-Tico como principal referência na frente e o habilidoso Domingues vindo de trás. Dario Khan, defensor do Al-Kharitiyah-CAT, é outro pilar da seleção moçambicana.

Treinador: Mart Nooij
Destaque: Tico-Tico (atacante, Jomo Cosmos-AFS)
Promessa: Simão Júnior (volante, Panathinaikos-GRE)
Escala Portsmouth: baixa
Como se classificou: 3º lugar no grupo B das Eliminatórias
Participações na CAN: 4 (1986, 1996, 1998 e 2010)
Melhor resultado: primeira fase em 1986, 1996 e 1998

Benin

Há oito anos, Benin ocupava o 158º lugar no ranking da Fifa. Hoje, a equipe se encontra em 59º, à frente de seleções como Marrocos, África do Sul e Senegal. Os números isolados podem até não dizer muito, mas, de certa forma, e não se pode ignorar isso, servem para mostrar como a imagem do país mudou no continente durante esse período. De saco de pancadas a possível surpresa nas competições. Essa é a atual reputação dos Esquilos, que, na Copa Africana de Nações, confiam no talento do trio ofensivo formado por Stéphane Sessegnon, Razak Omotoyossi e Mickaël Pote para conquistar sua primeira vitória na história da competição. Nos gramados angolanos, o treinador Michel Dussuyer terá o desfalque de Johnathan Tinhan, do Grenoble, que rejeitou a convocação.

Treinador: Michel Dussuyer
Destaque: Stéphane Sessegnon (meia, Paris Saint-Germain-FRA)
Promessa: Mohamed Aoudou (atacante, Évian-FRA)
Escala Portsmouth: baixa
Como se classificou: 2º lugar no grupo D das Eliminatórias
Participações na CAN: 3 (2004, 2008 e 2010)
Melhor resultado: primeira fase em 2004 e 2008

Grupo D

Camarões

O futebol mecânico, que conduziu a equipe à final da última Copa Africana de Nações, segue regendo os movimentos dos jogadores em campo. Não chega a ser uma catástrofe, claro, já que foi, dessa forma, que a seleção surpreendeu a todos em Gana. Ainda assim, é frustrante. Com bastante marcação no meio-campo e apostando em Samuel Eto'o, o técnico Paul Le Guen assumiu Camarões, recuperou o prestígio do país, que corria o risco de não se classificar para o Mundial, e o classificou para a África do Sul. Em Angola, os Leões Indomáveis apresentarão uma base interessante, com Kameni no gol, Geremi e N'koulou na defesa, Makoun, Song, Mbia e Emana no meio-campo e Eto'o no ataque. A grande ausência será Sébastien Bassong, do Tottenham. Le Guen prefere adotar um tom cauteloso e afirma que a equipe corre por fora no campeonato.

Treinador: Paul Le Guen
Destaque: Samuel Eto'o (atacante, Barcelona-ESP)
Promessa: Nicolas N'koulou (zagueiro, Monaco-FRA)
Escala Portsmouth: alta
Como se classificou: 1º lugar no grupo A das Eliminatórias
Participações na CAN: 16 (1970, 1972, 1982, 1984, 1986, 1988, 1990, 1992, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006, 2008 e 2010)
Melhor resultado: campeão em 1984, 1988, 2000 e 2002

Gabão

Em conjunto com Guiné Equatorial, o Gabão receberá a Copa Africana de Nações em 2012. É fundamental para a equipe, portanto, se preparar para fazer um bom papel diante de seus torcedores. A boa campanha realizada nas Eliminatórias, em que chegou a sonhar com a vaga para o Mundial num grupo que ainda tinha Camarões, é um bom indicativo de que o país está no caminho certo. Falta experiência aos atletas, que possuem no atacante Daniel Cousin, do Hull City-ING, o seu principal nome. O goleiro Didier Ovorno, do Le Mans, é outro pilar do time comandado pelo técnico Alain Giresse, ex-Paris Saint-Germain.

Treinador: Alain Giresse
Destaque: Daniel Cousin (atacante, Hull City-ING)
Promessa: Pierre-Emerick Aubameyang (atacante, Lille-FRA)
Escala Portsmouth: média
Como se classificou: 2º lugar no grupo A das Eliminatórias
Participações na CAN: 4 (1994, 1996, 2000 e 2010)
Melhor resultado: quartas de final em 1996

Zâmbia

Um dos países com mais participações na Copa Africana de Nações, Zâmbia não consegue superar a fase de grupos desde 1996. Será com esse objetivo em mente que a equipe viajará para Angola. Em seu comando, estará o francês Hervé Renard, que rompeu com uma prática costumeira do país, que, nesta década, vinha trocando de treinador com uma facilidade enorme. Um dos grandes desafios do ex-zagueiro no campeonato será fazer com que os Chipolopolo comecem a marcar gols. Na fase final das Eliminatórias, foram apenas quatro em dez partidas. Alternativas para romper com essa marca não faltam. Nomes como Christopher Katongo, Clifford Mulenga, Rainford Kalaba, Felix Katongo e Jacob Mulenga já provaram o seu valor pelo continente.

Treinador: Hervé Renard
Destaque: Christopher Katongo (meia, Arminia Bielefeld-ALE)
Promessa: Emmanuel Mbola (Pyunik-ARM)
Escala Portsmouth: baixa
Como se classificou: 3º lugar no grupo C das Eliminatórias
Participações na CAN: 14 (1974, 1978, 1982, 1986, 1990, 1992, 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2006, 2008 e 2010)
Melhor resultado: vice-campeã em 1974 e 1994

Tunísia

A forma como a Tunísia perdeu a vaga na Copa do Mundo para a Nigéria abalou o país. O técnico Humberto Coelho deixou o seu cargo, a federação esteve sob a ameaça de ser dissolvida e atletas experientes foram deixados de lado. Sob esse clima de tensão, as Águias de Cartago partem para Angola em busca do orgulho perdido. Faouzi Benzarti, escolhido como novo treinador depois que os torcedores realizaram um movimento em defesa de seu nome, não contará com a sua principal estrela no campeonato. O meia-atacante Yassine Chikhaoui, do Zurich, ainda se recupera de uma contusão. Sem ele, Benzarti aposta em nomes como Ousemma Darragi e Chaouki Ben Saada no meio-campo e Issam Jomaa e Amine Chermiti no ataque. Entre os torcedores, a maior preocupação reside no fato de que a competição talvez não seja transmitida para os tunisianos.

Treinador: Faouzi Benzarti
Destaque: Karim Haggui (zagueiro, Hannover 96-ALE)
Promessa: Ousemma Darragi (meia, Espérance-TUN)
Escala Portsmouth: baixa
Como se classificou: 2º lugar no grupo B das Eliminatórias
Participações na CAN: 14 (1962, 1963, 1965, 1978, 1982, 1994, 1996, 1998, 2000, 2002, 2004, 2006, 2008 e 2010)
Melhor resultado: campeão em 2004

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