África

Aposta de risco

Na última Copa do Mundo, um dos argumentos mais utilizados para explicar o fracasso das seleções africanas no torneio foi o fato de muitas delas serem dirigidas por treinadores estrangeiros. Das seis seleções que representaram o continente no torneio, apenas a Argélia foi comandada por um técnico africano – Rabah Saadane, demitido em setembro do ano passado. Não se trata de uma simples coincidência. Enquanto o “fenômeno” de treinadores estrangeiros na África cresceu absurdamente nos últimos anos, os argelinos ainda resistiam em sua tradição nacionalista. Bem, pelo menos até a última semana.

Mohamed Raouraoua, presidente da Federação Argelina de Futebol, nomeou Valid Halilhodzic como o novo técnico da seleção nacional. A FAF chegou a trabalhar com outras possibilidades, como Zico, Dunga, Raymond Domenech, Jurgen Klinsmann e Marcelo Lippi, porém decidiu apostar suas fichas no franco-bósnio, que assinou por três anos com uma cláusula que lhe dá direito a renunciar ao cargo a cada fim de temporada. No entanto, a decisão não foi do agrado de ‘nacionalistas’ importantes, como o primeiro-ministro Ahmed Ouyahia e até mesmo Rachid Mekhloufi, ex-jogador e treinador da seleção argelina em três oportunidades.

Explica-se: ao contrário da grande maioria das seleções do continente, a Argélia sempre foi caracterizada pela sua tradição de treinadores locais. Os últimos não-argelinos a se aventurarem sob o comando dos Fennecs na última década não deixaram saudades. Em 2003, o belga George Leekens renunciou ao cargo apenas quatro meses depois de assumi-lo, alegando problemas familiares. No ano seguinte, outro treinador belga, Robert Waseige, esteve sob o comando dos magrebinos, mas não conseguiu bons resultados e também sobreviveu apenas quatro meses no comando, quando perdeu de forma vexatória por 3 a 0 para o Gabão e foi demitido.

Talvez a única exceção tenha sido o francês Jean-Michel Cavalli, que apesar de sua despedida melancólica após a eliminação na fase de qualificação para a CAN 2008, ficou no cargo praticamente um ano e meio e levou a seleção argelina a um novo patamar. Antes mesmo de ser demitido, Cavalli chegou a declarar que, antes dele, a seleção do país era ‘nada ou pouca coisa’. Conceitos como a necessidade de renovação e um olhar especial para o Campeonato Argelino, absorvidos por Cavalli àquela época, necessitam ser resgatados por Halilhodzic.

O curioso é que a chegada do novo comandante da Argélia contraria um momento de inversão da tendência de treinadores estrangeiros nas seleções africanas. A Nigéria, que foi dirigida pelo sueco Lars Lagerback na Copa, hoje é comandada pelo nigeriano Shaibu Amodu. O mesmo vale para a Costa do Marfim, que apostou no sueco Sven-Goran Eriksson no Mundial e agora está sob a batuta do marfinense François Zahoui. Outro exemplo é a Tunísia, que desde março é comandada por Sami Trabelsi.

E o discurso de Halilhodzic em sua chegada foi bastante realista. A classificação para a Copa Africana de Nações do ano que vem é vista como improvável, mesmo porque a Argélia ocupa momentaneamente a lanterna de seu grupo e, ainda que vença seus dois últimos compromissos, dependeria de uma combinação de resultados para garantir vaga pelo índice técnico. Sendo assim, as ambições do treinador são a classificação para a CAN de 2013 e, principalmente, uma vaga na Copa do Mundo de 2014.

A princípio, a contratação de Halilhodzic parece um acerto. Além de ser um treinador habituado a lidar com pressão – dirigiu clubes com alta reputação nacional, como Lille, Paris Saint-Germain e Dinamo Zagreb -, também possui um bom histórico no continente africano. Sob o comando do Raja Casablanca, entre 1997 e 98, conquistou o Campeonato Marroquino e a Champions League continental. O franco-bósnio também comandou a seleção da Costa do Marfim por quase dois anos, quando foi demitido quatro meses antes do início da Copa de 2010 após a eliminação na CAN do mesmo ano – curiosamente, numa derrota para a Argélia. Aliás, este foi o único revés do treinador em 24 jogos no comando dos marfinenses, o que não foi suficiente para a manutenção no cargo por uma série de motivos.

Segundo o próprio Halilhodzic, sua passagem pela Costa do Marfim é algo que ainda está em sua mente (dadas as circunstâncias, de forma negativa, claro). E por experiência própria, sabe que em seu novo desafio terá de reafirmar sua competência a todo instante. A missão não é nada fácil. A seleção argelina encontra-se abalada psicologicamente, vive uma crise de resultados e diversos conflitos internos. Halilhodzic promete impor regras e se desfazer daqueles que não as aceitarem. Na base do profissionalismo e da vivência, o treinador tem tudo para reconstruir sua imagem no futebol africano.

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Equipe Trivela

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