ÁfricaCopa Africana de Nações

Águias surpreendentes

Antes do início da Copa Africana, Goran Stevanovic, treinador de Gana, apontou três seleções a serem batidas pelos Estrelas Negras na competição: os favoritos Senegal e Costa do Marfim, e para surpresa de muitos, Máli. O último palpite soava um tanto forçado – mais parecia uma tentativa de não menosprezar um de seus adversários na fase de grupos –, mas de qualquer forma, o sérvio mostrou que tinha alguma razão. Mesmo sem contar com estrelas como Mahamadou Diarra, Mohamed Sissoko e principalmente Frédéric Kanouté, os malineses tem estado acima das expectativas, apostando numa equipe jovem (13 dos 23 jogadores possuem menos de 25 anos), e que pela quinta vez em sete participações do país no torneio, alcançam as semifinais da CAN.

Ao contrário do Sudão, que conta com todos os jogadores da seleção atuando no país e oferece condições de vida razoáveis, Máli é um dos países mais pobres do continente (quase metade da população vive abaixo da linha da pobreza) e conta com apenas dois jogadores do selecionado de Alain Giresse atuando no futebol local: Soumbeila Diakité e Almamy Sogoba, ambos goleiros.

Atualmente, o país tem vivido muitas tensões sociais e políticas, sobretudo pela revolta dos rebeldes tuaregues do MNLA (Movimento Nacional de Libertação de Azawad), que se levantou em armas no início do ano exigindo a autodeterminação da região de Azawad, combatendo as autoridades da capital Bamaco. Desde então, mais de cem pessoas morreram e muitas outras buscaram refúgio em países como Níger, Argélia e Mauritânia.

Ainda que a maioria dos jogadores viva longe de casa, obviamente o grupo se envolve com essas questões. Seydou Keita, que chegou a se afastar da seleção por 20 meses, já se manifestou publicamente pedindo paz no país e declarou que os atletas se recusaram a receber uma bonificação extra pela classificação para as quartas-de-final da CAN. Por mais que pareça clichê, o espírito de superação tem sido o grande diferencial desta seleção. O técnico Alain Giresse, que num passado não muito distante iniciou o processo de renovação de Gabão, tem tido o mesmo sucesso à frente dos malineses.

No aspecto técnico, Máli certamente é a pior semifinalista da CAN, mas conta com uma equipe equilibrada e acostumada a encarar grandes equipes – o que pode ser um problema para a Costa do Marfim. Giresse monta sua equipe numa espécie de 4-3-2-1, que acaba sobrecarregando o papel de Keita no time – ainda que o meia do Barcelona tenha tido apenas uma exibição convincente em todo o torneio, contra Botsuana, pela última rodada da fase de grupos. No ataque, Modibo Maiga tem criado boas alternativas para a equipe, mesmo que tenha melhor rendimento apenas na companhia do reserva Cheick Diabate.

A defesa também é bastante sólida, sobretudo na presença do bom zagueiro Cédric Kanté. Ele e Keita, os mais experientes do time (e os únicos que superam a casa dos 30 anos), têm sido os grandes responsáveis pelo suporte aos jovens. Máli parece ter chegado ao seu limite nesta CAN, e independente do que aconteça, se despedirá com a sensação de dever cumprido. Com uma equipe sem vaidades e cheia de potencial, certamente encheu de orgulho uma população que encontra no futebol um dos poucos motivos para sorrir.

CAN em segundo plano

Assim como em 2010, a disputa da Copa Africana acaba ofuscada por uma tragédia. Na edição passada, o ataque contra a seleção de Togo em Cabinda. Neste ano, a tragédia em Port Said, que vitimou 74 pessoas após o duelo entre Al Masry e Al Ahly pelo Campeonato Egípcio. Todas as evidências apontam para um massacre planejado, que envolve uma série de questões políticas (incluindo a suspensão do ‘estado de emergência’ no país). A passividade da polícia diante da invasão de campo e a ausência do governador e do chefe de segurança de Port Said no estádio, incomum para um jogo de tamanha importância, praticamente não deixam dúvidas.

O ataque aos Ultras do Al Ahly gerou reações inclusive da torcida rival, a do Zamalek, que deixou pra trás todas as diferenças e se uniu à massa dos ‘Diabos Vermelhos’, pedindo justiça e acusando o antigo regime de ser o mentor do massacre. O campeonato foi paralisado por tempo indeterminado e o futebol egípcio volta a viver um momento de incertezas. O norte-americano Bob Bradley, recém-contratado para assumir a seleção do Egito, declarou que segue comprometido com seu novo trabalho – ainda que a participação dos faraós nas eliminatórias para a Copa seja incerta. Em contrapartida, jogadores como Aboutrika e Meteab, que atuavam pelo Al Ahly e também defendiam a seleção, anunciaram suas aposentadorias após viverem de perto a tragédia.

Curtas

– Com as eliminações dos países-sede Gabão e Guiné-Equatorial, as arquibancadas nas partidas finais da CAN tendem a estar ainda mais vazias. Irresponsabilidade da Confederação Africana, que não adequou o preço dos ingressos às condições financeiras das populações locais – e agora “corrige” o erro distribuindo inúmeras entradas grátis para evitar um fracasso de público.

– Por falar em Gabão, o destino foi cruel com Pierre Aubameyang, craque da CAN até aqui e vilão da eliminação contra Máli, perdendo um pênalti decisivo. Guiné-Equatorial também demonstrou algum potencial, mostrando que pode brigar de igual pra igual por vaga na CAN 2013.

– Cai a soberania do Norte Africano no futebol do continente. Assim como em 1968, 1972, 1992, 1994 e 2002, os países árabes não emplacaram nenhum representante nas semifinais da CAN.

– Senegal passou vergonha na CAN, mas o retorno de suas estrelas ao futebol europeu foi em grande estilo. Sow marcou em sua estreia pelo Fenerbahçe, Papiss Cissé e Demba Ba garantiram a vitória do Newcastle e N’Doye deixou sua marca pelo Kobenhavn. Como explicar o fracasso em solo africano?

– Caminhamos para uma esperada final da CAN entre Costa do Marfim e Gana. Mas numa competição marcada por zebras e derrocadas de grandes seleções, não se pode descartar as chances de Máli e principalmente Zâmbia.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo