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Agora ou nunca

Nas eliminatórias para a CAN 2012, a classificação de Cabo Verde para a fase final do torneio, que seria um feito inédito, bateu na trave. Os “Tubarões Azuis” precisavam de uma vitória por três gols de diferença sobre Zimbábue na última rodada, e após abrirem 2 a 0 nos primeiros 13 minutos, sofreram um gol na etapa final e não tiveram poder de reação. Uma vitória da Libéria sobre Mali também classificaria os cabo-verdianos, e quando todos no estádio souberam de um gol dos liberianos nos acréscimos, a classificação foi comemorada após o apito final. No entanto, ao contrário do que se acreditava, aquele era o gol de empate em 2 a 2, e não o da vitória da Libéria por 2 a 1.

Uma eliminação doída, de fato. Porém um ano depois, o sonho está ainda mais próximo de ser concretizado. No próximo dia 12 de outubro, em Yaoundé, Cabo Verde sabe muito bem do que precisa para se classificar pela primeira vez para a maior competição da África. No último sábado, diante de uma das maiores seleções do continente, Camarões, os cabo-verdianos conquistaram aquele que talvez seja o maior triunfo da história da seleção. Uma vitória convincente por 2 a 0, que poderia ser ainda mais elástica, não fossem as inúmeras oportunidades desperdiçadas. Parece exagero, mas não é.

A capital cabo-verdiana, Praia, que receberia o histórico duelo, amanheceu chuvosa e permaneceu assim durante a maior parte do dia. Para alguns, um bom presságio. Afinal, existe algum habitat melhor para Tubarões? Os maldosos dirão que também é o habitat dos camarões, mas vamos ao que interessa. Muitos podem diminuir o feito dos cabo-verdianos por conta da ausência de Samuel Eto’o do lado oposto, mas os donos da casa também estavam desfalcados de seu principal jogador: Ryan Mendes, do Lille, com uma lesão no joelho.

Mesmo sob forte chuva, o Estádio da Várzea, que possui gramado sintético, recebeu capacidade máxima: quase 10 mil pessoas empurraram os Tubarões Azuis, fazendo uma grande festa nas arquibancadas. A situação incomodou os camaroneses antes mesmo da bola rolar: a comissão técnica da seleção visitante exigiu que a “batucada” cabo-verdiana, que fazia bastante barulho atrás do banco de reservas de Camarões, fosse retirada do local. Em outras palavras, uma tremenda de uma bobagem.

Apesar da ausência de seu jogador mais talentoso, o volume de jogo da equipe durante os 90 minutos foi realmente assustador. Cabo Verde não tomou o menor conhecimento da história e da tradição de Camarões, no bom sentido, claro. Como vem sendo dito incessantemente nesta coluna, o time comandado por Lúcio Antunes é uma das gratas surpresas da competição. Após ser medalha de ouro nos Jogos da Lusofonia em 2009, o treinador foi contratado para o cargo em julho de 2010 e tem feito um ótimo trabalho.

Cabo Verde abriu o placar aos 22 minutos com o volante Ricardo, do Paços de Ferreira. Ele havia se retirado da seleção para focar na sua carreira no futebol português, mas seu retorno foi em grande estilo. A assistência foi do bom meia Héldon, do Marítimo, o melhor em campo. Djaniny, no segundo tempo, ampliou o marcador num frangaço de Kameni. No entanto, o atacante do Olhanense, que pertence ao Benfica, brincou de perder gols. Vozinha, goleiro que atua no futebol angolano, fez grandes defesas durante o jogo e foi imprescindível. Curiosamente, Cabo Verde poderia ter uma seleção tão estrelada quanto a de seu rival. Jogadores como Nani, Rolando e Gelson Fernandes, por exemplo, nasceram no arquipélago de 500 mil habitantes, mas hoje representam outros países.

Uma vaga na CAN 2013, além de premiar um povo apaixonado por futebol, também traria um ótimo retorno financeiro. Mas até o próximo dia 12, os cabo-verdianos não podem se deixar levar pelo deslumbramento. Afinal, do outro lado, mesmo aos trancos e barrancos, estará uma das grandes potências do continente – e talvez reforçada pelo extraordinário Eto’o. Restam 90 minutos para que Cabo Verde finalmente sinta o gostinho de figurar entre as melhores seleções da África – e desfrutar da projeção com a qual sempre sonhou.

Curtas

– A limitação técnica da seleção camaronesa, mesmo na ausência de Eto’o, é chocante. Um time sem brio, desorganizado taticamente e onde seu melhor jogador (Song) não atua na sua função. O estrago poderia ter sido muito, muito maior em Praia. Um dirigente da seleção, Robert Atah, acusa o grupo de estar repleto de “panelinhas” – jogadores contra jogadores e jogadores contra dirigentes.

– Em protesto, torcedores camaroneses ameaçaram saquear a sede da Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot) e rodearam o local. No entanto, as forças de segurança foram capazes de conter a multidão. “Um turista pode ter pensado que estávamos em guerra ou enfrentando uma invasão”, disse um morador próximo à sede da Fecafoot.

– 45 gols em 15 jogos, sendo que em 11 deles a seleção que jogava em casa venceu. Este é o balanço da rodada das eliminatórias para a CAN 2013, que teve a Argélia como a única equipe visitante que venceu o jogo de ida. E não tinha como o fator casa fazer a diferença nesse jogo, já que a Líbia mandou a partida em Casablanca (Marrocos), devido à instabilidade política no país. Os argelinos venceram por 1 a 0.

– Outra grande zebra da rodada foi Moçambique, que derrotou o Marrocos por 2 a 0. Mesmo com jogadores do calibre de Kharja, Belhanda, Taarabt e Barrada no time titular, a seleção marroquina não engrenou sob o comando de Eric Gerets. Ele foi demitido nesta segunda-feira, após a imprensa classificar o resultado como o “pior da história da seleção”. O resultado também manteve um tabu: nunca uma seleção do Norte da África marcou gols jogando em Moçambique.

– Angola também foi surpreendida pelo Zimbábue, que mesmo jogando sem seu principal jogador, Musona, venceu por 3 a 1. Guiné bateu Níger, que estreava o técnico Gernot Rohr, por 1 a 0.

– No confronto mais esperado da rodada das eliminatórias, Costa do Marfim bateu Senegal por 4 a 2. Parece muito clara a diferença entre as filosofias de Sabri Lamouchi e a do antigo técnico, François Zahoui: com Lamouchi, os marfinenses são mais agressivos ofensivamente, porém perderam a estabilidade na defesa, característica marcante do trabalho de Zahoui (os números não mentem: antes do jogo, os marfinenses só haviam sofrido dois gols em casa nos últimos SETE ANOS).

– A seleção que abriu maior vantagem para o jogo de volta foi a República Democrática do Congo, uma das equipes com o futebol mais envolvente na África, que goleou Guiné-Equatorial por 4 a 0. O presidente do Mazembe, Moses Katumbi, havia prometido ao grupo de jogadores nada menos que 50 mil dólares a cada gol marcado. Certamente serão 200 mil muito bem gastos pelo multimilionário.

– Mali também abriu ótima vantagem ao vencer a desmantelada Botsuana por 3 a 0. Gana não teve trabalho para vencer Malauí por 2 a 0, em boa atuação de Asamoah Gyan, que recuperou a faixa de capitão.

– O clássico do Leste Africano entre Sudão e Etiópia foi o melhor jogo da rodada: 5 a 3 para os sudaneses. De qualquer forma, a Etiópia, que não disputa uma fase final de CAN desde 1982, segue determinada a fazer história.

– Quem também está prestes a fazer história é a República Centro-Africana (cuja trajetória já foi contada nesta coluna), que venceu Burkina Faso por 1 a 0 e pode disputar sua primeira CAN. No retorno de Adebayor à seleção de Togo em jogos oficiais, o artilheiro do Tottenham marcou o gol de empate da equipe contra o Gabão, fora de casa.

– A atual campeã africana, Zâmbia, venceu Uganda por 1 a 0 e terá trabalho no jogo de volta. Os ugandeses não perdem jogando em casa há oito anos. Tunísia e Nigéria ficaram devendo e só empataram, respectivamente, com Serra Leoa e Libéria em 2 a 2.

– O início da temporada 2012-13 do Campeonato Egípcio, previsto para a próxima semana, foi adiado em um mês e só acontecerá no dia 17 de outubro.

– A decisão foi motivada pelos intensos protestos dos ‘Ultras’ do Al Ahly na última semana, que não permitem que a temporada seja iniciada enquanto não seja feita justiça aos mortos no massacre em Port Said.

– Atualmente 73 pessoas, entre elas torcedores do Al Masry e oficiais de segurança, enfrentam acusações por homicídio premeditado e negligência. Os Ultras, que invadiram a sede da Federação Egípcia na semana passada, também protestaram em um treino do próprio Ahly, exigindo que o clube recusasse disputar a Supercopa Egípcia, contra o ENPPI, no último domingo.

– Mohamed Aboutrika, ídolo da torcida, abraçou a causa e se recusou a entrar em campo (no dia seguinte ao jogo, foi multado e suspenso pelo clube por dois meses). Os Ultras ameaçaram provocar uma tragédia se o jogo fosse realizado, mas recuaram de última hora. A partida, disputada com portões fechados, teve o Ahly campeão: 2 a 1.

– A seleção egípcia também vive momento delicado. Além de não disputar jogos competitivos nesta data Fifa, os dois amistosos previstos para acontecerem nesta semana, contra Benin e Camarões, foram cancelados. Bob Bradley, que quer preparar o time para as eliminatórias da Copa de 2014, está furioso.

– A estreia do técnico Gordon Igesund como técnico da África do Sul foi bastante positiva. Mesmo desfalcada de Pienaar, Mphela e outros, a equipe fez jogo duro contra o Brasil e perdeu com um gol a 15 minutos do fim. Esperança de dias melhores para os Bafana Bafana.

– O Espérance entrou em um princípio de acordo pela contratação do ganês Emmanuel Clottey, artilheiro da Liga dos Campeões Africana pelo Berekum Chelsea com 13 gols. O atacante de 25 anos será comprado pela cifra de 1,5 milhão de dólares e substituirá o camaronês N’Djeng, que em janeiro vai para o Sion, da Suíça. Excelente reposição, como de costume do clube, que sempre faz ótimo mercado.

– Augusto Palacios se retirou do comando do Orlando Pirates. Segundo o presidente Irvin Khoza, a decisão foi motivada por problemas de saúde. Difícil acreditar, mas o fato é que o moçambicano Roger de Sá já foi nomeado como o seu substituto.

– O Kano Pillars é o novo campeão do Campeonato Nigeriano. A derrota por 2 a 1 para o Sunshine Stars não foi suficiente para impedir o segundo título nacional da equipe, que jogará a Liga dos Campeões 2013 – assim como o vice-campeão, Enugu Rangers.

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