Africano campeão em 2010? Improvável

Sabe aquele papo de que os africanos, enfim, poderiam conquistar sua primeira Copa do Mundo? Pois é, esqueça. As bolinhas do sorteio não foram nada generosas com as seleções do continente. Costa do Marfim e Gana, as principais esperanças de título, que o digam. Terão que superar mais uma vez times tradicionais se quiserem seguir adiante no torneio.
No caso das Estrelas Negras, considerando a experiência na Alemanha, não chega a ser um grande problema. Em 2006, a equipe não se assustou com Itália, República Tcheca e Estados Unidos e avançou para as oitavas de final. Os marfinenses, por outro lado, não resistiram ao chamado grupo da morte e sucumbiram diante de Argentina, Sérvia e Holanda.
Desta feita, o desafio que aguarda Drogba e companhia não é menos provocador. Ou melhor, é. Ninguém leva a sério a Coreia do Norte, convenhamos. Sobrariam, então, Brasil e Portugal. O fato de os Elefantes já cogitarem a briga pelo segundo lugar do grupo diz um pouco sobre o seu espírito para a competição. Com certeza, não é o de uma equipe que pode trazer para a África o seu tão sonhado título.
Mais confiante, Gana precisará comprovar a sua força contra Alemanha, Austrália e Gana. Superar as crises internas e a falta de prestígio que persegue o seu treinador é um primeiro passo nesse sentido. O potencial existe e a conquista do Mundial Sub-20, meses atrás, mostra isso.
Correndo por fora, Camarões e Nigéria foram premiadas com chaves mais acessíveis, o que não significa que chegarão à África do Sul prontas para representar bem o continente. Sabe aquele futebol alegre que costumava acompanhar a dupla em campo? Esqueça. De novo. Não dá para apostar em um time que tem Mikel como principal armador e outro que possui Meyong e Webó como alternativas para o ataque.
Se em Camarões e Nigéria impressiona a mecanização de suas seleções, na Argélia e na África do Sul o mesmo não ocorre. Pode parecer exagero, mas os dois países praticam hoje um futebol mais interessante do que a velha guarda. A margem de crescimento é clara e, no caso do time de Carlos Alberto Parreira, pôde ser conferida no Mundial Sub-20. Mesmo com todas as dificuldades de estrutura, os sul-africanos apresentaram bons nomes. É uma questão, nos dois casos, de encontrar a melhor formação.
Para derrubar o palpite deste colunista, descrente em um título africano em 2010, o sexteto terá que se apoiar em alguns pontos ou corrigir falhas que, ainda que menores nesse momento, podem atrapalhar no futuro. Veja abaixo um breve panorama de cada país.
África do Sul: questão de identidade
Um dos comentários feitos na África do Sul após o anúncio do retorno de Parreira era de que o país precisava cair na real e enxergar que não é o Brasil. Nada a contestar. Mas o ponto não é exatamente é esse. Afinal de contas, não será com Joel Santana ou Parreira que os Bafana Bafana começarão a jogar como o Brasil. Na verdade, a questão toda passa pela compreensão dos sul-africanos do limite de sua equipe. Só assim os treinadores conseguirão trabalhar com tranquilidade no país. Por enquanto, a impressão que se tem é a de que os anfitriões creem ser melhores que o próprio Brasil.
Nigéria: mais do mesmo
Entre idas e vindas, foram 29 jogos no comando da seleção, com apenas uma derrota. O primeiro e único revés veio contra aquele time de Senegal que tinha Diouf (relevem) como principal nome. Ainda assim, há quem peça a demissão de Shaibu Amodu do comando da Nigéria. E, acredite, não são poucas pessoas. Mais uma vez, surge o pensamento de que o que vem de fora é melhor. As Super Águias parecem não compreender que ter Odemwingie no time, por si só, já é um grande complicador. Se querem dificultar ainda mais, que tragam o Berti Vogts de volta de uma vez por todas.
Gana: estrelas na berlinda
Disciplina, acima de tudo! Esse é o lema da torcida ganense. As ausências de Gyan, Essien e Muntari na apresentação para o amistoso contra Angola, no último mês, desencadeou no país um movimento pela punição ao trio de jogadores. Qual medida deveria ser tomada pelo técnico Miroslav Rajevac? Para alguns, nunca mais convocá-los. A garotada campeã mundial sub-20 que já começa a ganhar espaço daria conta do recado. Appiah como líder dessa turma? Difícil saber. Após ficar fora de combate por um longo tempo, o volante voltou a se contundir e corre o risco de perder a CAN mais uma vez. Seria a quarta (2002, 2006 e 2008).
Costa do Marfim: nove é demais
Uns com tão pouco e outros com tanto. A Costa do Marfim tem opções de sobra em seu ataque – Gervinho, Cissé, Dindane, Keita, Bakari Koné, Kalou, Drogba, Sanogo e Arouna Koné. O número de alternativas para o setor é positivo, obviamente, mas requer uma boa dose de tato na administração do ego dos atletas. Com Drogba como referência na frente, fica apenas uma vaga em aberto para disputa. Tamanha briga por um lugar pode gerar insatisfação, comprometendo o ambiente do time. Uma saída para aliviar esse problema é escalar alguns dos atacantes em outras funções, vindo de trás, como já foi feito.
Camarões: o mecenas
Ok, o time de Camarões não chega a ser uma tragédia. Tem um bom goleiro (Kameni), dois defensores razoáveis (Bassong e Assou-Ekotto), um meio-campista que, pela seleção, vai bem (Alexander Song) e um atacante que dispensa comentários (Eto’o). Ainda assim, vamos falar dele, sobre quem passa o futuro dos Leões Indomáveis na Copa. Não só por conta de seus gols, mas pelos incentivos que ele distribui aos seus companheiros. Pela classificação para o Mundial, Eto’o deu aos seus colegas relógios que valem 29 mil libras. Nada mal, não? Principalmente quando se levam em conta as circunstâncias que rodeiam a equipe, com as constantes brigas entre cartolas e ingerências de políticos.
Argélia: um revolucionário
Depois de um longo período afastada, a Argélia está de volta à Copa. O retorno das Raposas do Deserto se deu através de um gol do zagueiro Antor Yahia. Mais do que salvador da pátria, o jogador do Bochum pode ser considerado um revolucionário. Recolocou a pátria de seus ancestrais no Mundial, desencadeou uma crise diplomática com o seu feito e reforçou o seu nome na história. Isto porque, antes de eliminar os rivais egípcios das Eliminatórias, Yahia já havia chamado a atenção como o primeiro atleta a usufruir da lei da Fifa que permite a um jovem atuar por uma seleção na base e escolher outra entre os profissionais.



