África

A redenção de Benni

“Calar os críticos”. Uma das expressões mais inseparáveis dos boleiros do nosso país, mas que também sintetiza o momento de um dos maiores atacantes da história do futebol sul-africano. Talvez na que tenha sido a contratação que mais mobilizou o continente na temporada, a chegada de Benni McCarthy ao Orlando Pirates dividiu opiniões. Para a maioria, um jogador descompromissado, fora de forma, em baixa no futebol europeu e, principalmente, muito caro. Irwin Khoza, presidente dos Bucs, certamente sabia disso, mas bancou sua contratação. E ao menos até aqui, tem sido um grande acerto.

De fato, as últimas temporadas de McCarthy no futebol europeu foram motivo de piadas. Após ser chutado do Blackburn, o sul-africano ainda conseguiu o inacreditável feito de atuar apenas 14 vezes (11 delas como substituto) e não marcar nenhum gol com a camisa do West Ham – e só não pode se dizer que não foi notado devido a sua forma física à lá Perdigão, ex-Inter. O vice-presidente dos Hammers, Karren Brady, classificou sua contratação como um ‘grande erro’ e resumiu sua passagem por Londres: “em vez de ser o super artilheiro que esperávamos, nós adquirimos um jogador mais dedicado em encher a barriga do que encher as redes”.

Mas o retorno ao país de origem soava interessante no que diz respeito ao ‘rejuvenescimento’ de sua carreira. E nada melhor do que voltar para um clube da importância do Pirates, que conquistou três dos quatro títulos que disputou em 2010-11. Não obstante, só nesta temporada já foram mais dois canecos conquistados: a MTN 8, em setembro, e a Nedbank Cup, inédita na história dos Bucs, e na qual Benni foi eleito o melhor atacante da competição e teve um papel decisivo na final.

Mais do que recuperar seu futebol, McCarthy resgatou sua mentalidade vencedora. Foram seis temporadas sem um título sequer, mas não se pode desprezar a experiência de quem é o maior artilheiro da história da seleção sul-africana e possui uma Champions League no currículo. Sua capacidade de decisão foi valorizada inclusive pelo técnico Júlio Cesar Leal, que também contribuiu bastante para sua recuperação. Seus números estão longe de serem assustadores – foram seis gols desde sua chegada -, mas sua importância para o time está neste nível. Taticamente, inclusive, pois como vários marcadores acompanham seus passos, Benni abre espaço para outros companheiros e se apresenta muito bem na grande área.

Inspirado no lendário rapper Notorious B.I.G. (sem trocadilhos com a forma física de McCarthy), o atacante define seu atual momento como “vida após a morte”. A morte, no caso, seria a sua carreira no futebol, e de acordo com o próprio, o Pirates lhe deu a chance de recuperar sua forma. A final da Nedbank Cup contra o Bidvest Wits (que, por sinal, possui metade de um time titular que custa o preço de um McCarthy) foi sua consagração, com um gol marcado e situações com as quais o atacante havia se desacostumado, como levantar um trofeu e atuar durante 90 minutos por duas vezes em duas semanas.

Acima de tudo, Benni também é um personagem folclórico. Premiado como melhor atacante do torneio, o atacante usou todo o dinheiro que recebeu para fazer uma ‘festa de Natal’ com os companheiros de clube. Não mais inusitado do que Myeni, do vice-campeão Bidvest Wits, que recebeu a mesma quantia por ter sido eleito o melhor meio-campista e entregou tudo para a mãe.

Aos poucos, McCarthy começa a deixar pra trás as desconfianças que cercaram sua chegada, além dos apelidos como “Benni McDonalds” e as teorias maldosas como o “salário pago por quilo”. Bernard Parker, mais jovem, antigo companheiro de Benni nos ‘Bafana Bafana’ e contratado pelo rival Kaizer Chiefs também neste ano, tem rendido muito menos. Não há dúvidas de que, com McCarthy em forma, o Orlando Pirates é postulante ao título da Liga dos Campeões Africana, que o clube só conquistou uma vez na história. E para não perder a chance de alfinetar os críticos, McCarthy disparou: “para quem tem dúvidas sobre o meu peso, ou independente do que me chamam, boa sorte aos invejosos”.

Curtas

– Gana foi a primeira – e única até aqui – seleção a anunciar a pré-convocatória para a CAN 2012. Foram selecionados 25 jogadores, mas dois ainda serão cortados até janeiro. Essien, lesionado, e Kevin-Prince Boateng, retirado da seleção, são as grandes ausências.

– O goleiro Kingson, o meia Owusu-Abeyie e o jovem atacante Adiyiah também foram ignorados. Os irmãos Ayew do Marseille, Andre e Jordan, estão na lista. A surpresa fica por conta da inclusão do atacante Emmanuel Baffour, do modesto New Edubiase e atual artilheiro do Campeonato Ganês com 11 gols.

– Punido com 15 jogos de gancho pela seleção camaronesa após “liderar” um boicote que gerou o cancelamento de um amistoso contra a Argélia, Samuel Eto’o não recorrerá da suspensão imposta pela Fecafoot. Eyong Enoh, do Ajax, e Assou-Ekotto, do Tottenham, também foram alvos de punições.

– Antes imbatível, o SuperSport United perdeu em casa para o Mamelodi Sundowns por 3 a 1 e deixou escapar a liderança da Premier Soccer League para o próprio Sundowns. Já o Orlando Pirates perdeu para o Bloemfontein Celtic por 1 a 0 e está a sete pontos da primeira colocação.

– Na Premier League ganesa, o Asante Kotoko perdeu para o Wa All Stars por 1 a 0, mas segue na liderança. Tudo porque Hearts Of Oak e Berekum Chelsea, seus adversários diretos, também tropeçaram na rodada.

– Com o Al Ahly de folga e o Zamalek com partida adiada, a Premier League egípcia teve rodada no último fim de semana. Quem se deu bem foi o surpreendente Haras El-Hedood, que venceu o El-Shorta por 2 a 0 e abriu quatro pontos na liderança para o não menos imprevisível Misr El-Makasa.

– Na Argélia, o USM Alger retomou a ponta da Ligue 1 ao vencer o Chlef por 1 a 0. O ES Setif, que ocupava a primeira colocação, perdeu para o CS Constantine por 3 a 2. Na Tunísia, o Bizertin bateu o Hammam-Lif por 1 a 0 e já soma 19 pontos em 21 disputados, líder isolado do campeonato nacional.

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