Africa

A negligência que custou uma vida na Guiné Equatorial

A saga de brasileiros e suas naturalizações obscuras em Guiné-Equatorial já foi amplamente discutida nesta coluna. O que ninguém poderia esperar é que essa aventura poderia resultar em uma fatalidade. O zagueiro paranaense Claudiney Rincón, que já havia marcado inclusive um gol pela seleção guinéu-equatoriana, contraiu malária em sua viagem ao país no mês passado e morreu na última segunda-feira, em Sorocaba. Outros dois brasileiros naturalizados também estão internados com diagnóstico de malária, um deles em estado grave – o goleiro Danilo, que disputou a Copa Africana de Nações de 2012, é um deles.

O caso de Rincón é semelhante ao da diplomata brasileira Milena Oliveira de Medeiros, que morreu após contrair a mesma doença durante viagem a trabalho em Guiné-Equatorial no fim de 2011. De acordo com informações do UOL, o zagueiro retornou ao Brasil no último dia 19 e apresentou dores de cabeça e náusea em um jogo do Campeonato Gaúcho, atuando pelo Avenida. Foi levado para o pronto socorro duas vezes, mas não comentou que esteve na África em junho. A suspeita de malária só veio quando seu companheiro de seleção, Danilo, foi diagnosticado com a doença em Natal. No entanto, já era tarde.

Danilo, aliás, chegou a estar em coma induzido, respirando com ajuda de aparelhos. Seu caso ainda é grave, mas de acordo com informações da família, o goleiro já está reagindo sem sedativos e a bactéria não consta mais nos últimos exames. Outro jogador internado é o meia Dio, que também esteve com a seleção em junho. Seu quadro é mais estável, com possibilidade de receber alta ainda nesta semana.

Prevenir-se contra a malária é uma recomendação básica para qualquer viajante que ingressa na Guiné-Equatorial. Não existe nenhuma vacina para combater a doença, mas de acordo com os jornalistas locais, os jogadores tomam uma pílula diária de Malarone para evitar o contágio. A própria página da Embaixada do Brasil na Guiné-Equatorial, através de sua página no Facebook, adverte que a malária contraída no país é diferente da que se encontra, por exemplo, na Amazônia brasileira. Ela é mais grave e se alastra rapidamente.

Aparentemente, na última viagem dos brasileiros com a seleção guinéu-equatoriana, que enfrentou Cabo Verde e Tunísia em junho, não houve prevenção. O caso configura negligência, sobretudo dos dirigentes locais. Aliás, a federação que rege o futebol guinéu-equatoriano, a Feguifut, ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso – tampouco o governo. O site oficial de entidade não é atualizado desde o dia 5 de maio. Segundo o Lancenet, a Feguifut realizou uma reunião extraordinária nesta terça-feira para discutir o assunto. Os jogadores que defenderam a seleção no último mês foram convocados para realizar exames, entre eles os brasileiros Jonatas Obina, Ricardinho e Judson.

É revoltante que dirigentes tão preocupados em burlar regras e comprar jogadores de diversos países não tenham se preocupado ao menos com a saúde nos atletas. A delegação não conta com médicos? Ainda faltam esclarecimentos. A decisão mais sensata dos mandatários guinéu-equatorianos seria pagar uma indenização para as famílias, mas nada pode confortar a perda de um parente, como no caso de Rincón.

O silêncio dos dirigentes locais e do Ministério do Esporte pode ser visto como uma tentativa de “abafar” o caso no país? Dificilmente. Os jogadores da seleção, através de suas redes sociais, já expressaram seus sentimentos pela morte de Rincón e pelo estado grave de Danilo. O futuro dos brasileiros em Guiné-Equatorial está ameaçado. Mais do que isso, alguém precisa ser responsabilizado por essa negligência.

Curtas

– A temporada do Campeonato Egípcio está ameaçada pelo segundo ano consecutivo. Em meio à turbulência política que culminou na destituição do presidente Mohamed Morsi, a competição foi suspensa por tempo indeterminado e os clubes foram convocados para uma reunião na próxima quinta, que deve decidir se há condições de dar prosseguimento ao torneio diante desse cenário.

– A Fifa decidiu suspender por tempo indeterminado a Federação Camaronesa de Futebol (Fecafoot), alegando interferência do governo na entidade. A suspensão pode impedir com que a seleção de Camarões enfrente a Líbia em setembro, num duelo decisivo pelas eliminatórias para a Copa de 2014.

– A suspensão só será revogada quando a Fecafoot permitir que um comitê de emergência da Fifa assuma o controle da entidade, revendo seu estatuto e convocando novas eleições até o dia 31 de março de 2014. As últimas eleições, canceladas pela Fifa pouco depois, foram marcadas por polêmicas. Iya Mohammed, presidente da Fecafoot desde 1998 e que havia sido reeleito, foi preso por acusação de desvio de fundos de uma empresa pública.

– De acordo com a BBC, o técnico da Nigéria, Stephen Keshi, não recebe salário há cinco meses. O treinador, no entanto, ainda não prestou nenhuma queixa, possivelmente por estar ciente da crise financeira da Federação Nigeriana de Futebol (NFF).

– Aliás, o ministro do Esporte da Nigéria, Bolaji Abdullahi, criou um comitê para investigar a divergência entre jogadores e dirigentes quanto a valores de premiações que por pouco não fez com que a Nigéria boicotasse a Copa das Confederações. O comitê terá que determinar a causa da crise, criar um “código de conduta” para os jogadores na seleção e fazer quaisquer outras recomendações necessárias.

– Bobley Anderson, um dos principais destaques do futebol marroquino atuando pelo Wydad Casablanca, transferiu-se para o Málaga, da Espanha. Oportunidade mais do que justa para o marfinense de 21 anos, um meio-campista driblador, voluntarioso e com faro de gol. Especula-se que o próximo alvo do Málaga no futebol africano é o ótimo meia Mohamed Ibrahim, do Zamalek.

– E falando em contratações, o Kaizer Chiefs, atual campeão sul-africano, anunciou um reforço importante: o atacante Knowledge Musona, que estava no futebol alemão e é o principal destaque da seleção de Zimbábue. Ao lado de Bernard Parker no ataque, o zimbabuano tem tudo para causar impacto no futebol sul-africano.

– O Kabuscorp é o campeão simbólico do 1º turno do Campeonato Angolano. O ex-time de Rivaldo empatou sem gols contra o Petro de Luanda e pulou para 37 pontos, mantendo sua invencibilidade. O vice-líder é o Primeiro de Agosto, com 30.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).

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