A justiça tarda… E falha

Seis semanas se passaram e as providências relacionadas ao massacre em Port Said ainda eram um grande mistério no Egito. Durante todo esse tempo, a Federação Egípcia de Futebol se viu em uma encruzilhada: como punir os verdadeiros responsáveis pela tragédia sem que uma nova onda de protestos fosse gerada? (leia-se: como não enfurecer os torcedores do Al Masry, responsabilizados pelos crimes, mas também não deixar impunes os apelos de justiça por parte dos ultras do Al Ahly). A demora para assumir uma posição indica muito bem o resultado do “veredicto” da EFA: não satisfez nenhum dos lados. E o pior: não atingiu nenhum dos verdadeiros responsáveis pelo incidente.
Após analisar os conflitos que resultaram na morte de 74 pessoas e outros 248 feridos, a EFA optou por suspender o Al Masry por duas temporadas e fechar o estádio de Port Said até 2014. Acreditem, não passou disso. Além de ser um desrespeito às famílias que perderam entes queridos no massacre (e aos próprios torcedores e jogadores do Al Ahly, os grandes alvos dos criminosos), a punição não teve coerência alguma. Existe uma enorme suspeita de a tragédia ter sido orquestrada por pessoas ligadas ao antigo regime, portanto, que nada tem a ver com os torcedores do Masry (apesar de, disfarçadamente, estarem entre eles). E o que um fechamento de um estádio pode confortar a dor de quem perdeu alguém naquela data ou sofreu um enorme abalo psicológico?
O que há de concreto naquele dia é a negligência das autoridades de Port Said, que permitiram a entrada de pessoas com explosivos e armas brancas no estádio. O chefe de segurança da cidade, que sempre se faz presente em clássicos, sequer apareceu. A promotoria egípcia indiciou 75 pessoas (66 civis e nove oficiais da polícia) por envolvimento na tragédia, mas dificilmente alguém será culpado. Claro que essa pode nem ser a esfera da EFA, mas que pelo menos se investigasse o que está por trás de todo esse episódio. Como se não bastasse, a própria federação vive uma crise interna, com o presidente Samir Zaher cedendo à pressão e dando lugar ao “tapa-buraco” Anwar Saleh, sem autonomia nenhuma para tomar decisões.
Obviamente, a punição ao Masry gerou revolta das duas partes. Tanto dos torcedores do clube, que afirmam inocência no episódio e que estão sendo usados como bode expiatório, quanto do Al Ahly, que não se conforma com tamanha impunidade. A situação acabou desencadeando uma rivalidade entre Port Said e Cairo, o que de alguma forma acaba desviando a responsabilidade do Conselho Supremo das Forças Armadas, que controla o país desde a derrocada do ditador Hosni Mubarak. No último fim de semana, um menino de 13 anos foi morto durante um conflito dos torcedores do Al Masry com a junta militar.
Os ultras do Al Ahly (também tidos como massa revolucionária voltada contra o antigo e o atual regime) surpreendentemente mantiveram-se pacíficos enquanto nenhuma decisão foi tomada, mas agora prometem retaliação. Até mesmo os jogadores se voltaram contra as punições, ao ponto do site do clube divulgar uma nota oficial criticando as penalizações ao técnico Manuel José, ao volante Hossam Ghaly e os quatro mandos de campo que o time não poderá cumprir. Mas nada supera a insatisfação de ver o rival Masry suspenso por apenas duas temporadas – o que, na prática, será apenas uma, já que a EFA incluiu a cancelada temporada 2011-12 na sanção. A Martyrys Cup, que seria criada com o intuito de não deixar o futebol local parado e ajudar as famílias das vítimas de Port Said, deverá ser cancelada em breve.
O debate sobre as consequências do massacre estão incluídos na agenda do comitê executivo da FIFA para os dias 29 e 30 de março. Espera-se que alguma providência seja tomada, mas é de se lamentar a demora em uma definição. Um exemplo de eficiência foi a UEFA em 1985, na tragédia do Estádio de Heysel, onde a entidade imediatamente decretou uma punição de cinco anos aos clubes ingleses em competições continentais. Com tempo suficiente para organizar uma defesa, não surpreenderia se o Masry conseguisse revogar a suspensão. Se a justiça tarda, mas não falha, provavelmente ainda teremos de esperar um bom tempo até que algo seja feito.
Curtas
– Também é de se lamentar o golpe militar em Mali, responsável pela derrocada do presidente Amadou Toumani Touré. O norte do país vive uma profunda crise há algum tempo, em virtude dos combates de uma rebelião separatista tuaregue com as tropas do governo.
– Com o fechamento das fronteiras e do espaço aéreo no país, existe uma tensão quanto à realização do jogo de Mali, que recentemente ficou entre as três melhores seleções da CAN, contra a Argélia, em partida válida pelas eliminatórias da Copa, além da participação dos malineses na Liga dos Campeões continental. Claro que, nesse momento delicadíssimo, o futebol fica em segundo plano. Portanto, que a paz seja restabelecida neste importante país africano.
– A primeira fase da Liga dos Campeões africana começou no último fim de semana. Entre 32 equipes, nenhuma conseguiu roubar o protagonismo do Berekum Chelsea. O atual campeão ganês não tomou conhecimento do Raja Casablanca e goleou por 5 a 0. Emmanuel Clottey, artilheiro do último campeonato nacional, anotou um hat-trick.
– Mesmo afetadas pelas tensões políticas, as equipes egípcias também fizeram um bom papel. O Zamalek bateu o Africa Sports, da Costa do Marfim, por 1 a 0, gol de Omotoyossi. Já o Al Ahly viajou para a Etiópia e ficou no 0 a 0 com o Ethiopian Coffee.
– Nos outros jogos, o atual campeão angolano, Recreativo do Libolo, atropelou o Sunshine Stars: 4 a 1. O Al Hilal (Sudão), semifinalista continental em 2011, fez 3 a 0 no DFC8 fora de casa. Já o atual campeão, Espérance, ficou no 1 a 1 com o Brikama United, de Gâmbia. O Dolphins, da Nigéria, bateu o Coton Sport por 2 a 1.
– O treinador belga Paul Put foi anunciado como o novo técnico de Burkina Faso. A seleção era comandada pelo português Paulo Duarte, demitido após a fraca campanha na CAN 2012.
– Put tem no currículo uma suspensão por três anos imposta pela federação belga em 2007, após envolvimento em combinação de resultados. Sua estreia oficial no comando dos burquinenses será no dia 1 de junho, contra o Congo, pela primeira rodada das eliminatórias para a Copa do Mundo.
– Passadas quatro rodadas do Girabola, o Campeonato Angolano, apenas quatro equipes seguem invictas: Sagrada Esperança, Primeiro de Agosto, Petro de Luanda e Recreativo do Libolo (um jogo a menos), respectivamente os quatro primeiros. O Kabuscorp, time de Rivaldo, visitou o Onze Bravos e conquistou sua segunda vitória seguida: 1 a 0.
– No Marrocos, o líder FUS Rabat tropeçou novamente: 0 a 0 com o CR Hoceima. A equipe abriu três pontos de vantagem para o segundo colocado, Moghreb Tetouan, e seis para o Raja Casablanca, terceiro, mas com um jogo a mais que ambos.
– Na Premier League ganesa, o Asante Kotoko bateu o Ebusua Dwarfs por 2 a 0 e abriu dez pontos de vantagem na ponta com nove rodadas a serem disputadas. O vice-líder é o Ashanti Gold, que fez 2 a 0 no tradicional Hearts of Oak e ultrapassou o rival.



