Como a Copa Africana de Nações nos oferece uma aula sobre globalização e fluxos migratórios
Quando Éderzito Antonio Macedo Lopes acertou aquele chute na prorrogação em Saint-Denis, o barulho estrondoso da comemoração não ecoou apenas na França e em Portugal. Em Guiné-Bissau, certamente, muitos de seus conterrâneos vibraram tanto quanto se fosse o país deles. E, de certa maneira, era. O atacante simbolizava o imigrante que deu a volta por cima na antiga metrópole. Nascido na capital, Bissau, ele se mudou para Portugal ainda na infância. Sem condições de ser criado pelos pais, cresceu em um orfanato. Teve no futebol sua redenção.
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Curiosamente, a alegria dos guineenses com Éder veio pouco mais de um mês depois do maior orgulho nacional no futebol. Em junho, pela primeira vez na história, Guiné-Bissau conquistou a classificação à Copa Africana de Nações, superando a favorita Zâmbia. Um feito que também serve de alento, considerando a instabilidade política com a qual o país convive, palco de dois golpes de estado desde a virada do século. A seleção, como em tantos outros exemplos no futebol, garante uma ponta de esperança. E o próprio Éderzito, não fosse sua persistência e o seu sentimento, talvez pudesse fazer parte deste momento especial na competição continental.
Há cinco anos, quando despontava como artilheiro da Acadêmica de Coimbra, o atacante recebeu uma proposta para defender a seleção de seu país natal. Na época, Éder só tinha uma convocação pela seleção sub-21 de Portugal. Mesmo assim, reiterou que seu sonho era defender a Seleção das Quinas. Decisão oposta à tomada pelo outro herói do futebol guineense. O meio-campista Toni Silva também nasceu em Bissau e também se mudou para Portugal quando criança. Jogou nas categorias de base de clubes como Benfica, Chelsea e Liverpool, além de defender as seleções portuguesas sub-17 e sub-18. Porém, sem estourar tanto quanto prometia, defendendo o União da Ilha da Madeira, resolveu aceitar o chamado de Guiné-Bissau em maio. No mês seguinte, justo em sua estreia, marcou o gol da vitória por 3 a 2 sobre a Zâmbia, que ratificou a classificação da equipe à CAN 2017.
Assim como Éder e Toni Silva, há tantas outras histórias cruzadas na Copa Africana de Nações. Somente em Guiné-Bissau, outros seis jogadores defenderam as seleções portuguesas de base. O meio-campista Saná era o camisa 10 dos Tugas na final do Mundial Sub-20 de 2011, derrotado pelo Brasil de Philippe Coutinho, Casemiro, Oscar, Willian e outros nomes tarimbados. Além disso, outros tantos são africanos de nascimento, mas acabaram prospectados por filiais de clubes portugueses na terra-natal e iniciaram o trabalho de base na Europa. E há três convocados que nasceram ao norte do Mediterrâneo, dois em Portugal e um na França, mas optaram pelo país de seus ascendentes.
Se as origens da Copa Africana de Nações estão diretamente ligadas a um forte contexto geopolítico, de afirmação nacional em meio ao processo de descolonização, o torneio não deixou de refletir a atualidade do continente muito além do futebol. Em via contrária ao que aconteceu na Eurocopa, as seleções africanas simbolizam também a globalização. Tantos imigrantes que se mudaram aos países mais ricos em busca de uma oportunidade, mas mantêm laços com sua terra ancestral. Cada vez mais, os atletas se inserem neste trânsito intenso de pessoas e nessa identidade local mais diluída. Muitos não deixam de se sentir europeus, mas também sabem da importância de valorizar as origens africanas. O rompimento, que marcou tanto os primórdios da CAN diante das guerras de independência e é fundamental para se entender aquele panorama, foi perdendo sentido com o passar das décadas. Ainda que, hoje, a competição não deixe de ser uma maneira de botar em evidência a cultura africana.
A legião francesa

Dos 16 países da Copa Africana de Nações 2017, 10 foram colônias francesas em algum momento do século passado. Natural, então, que esta ligação se faça presente nas seleções – como por outro lado acontece nos Bleus, que contaram com três atletas nascidos na África e outros sete filhos de africanos na Eurocopa. Além disso, por ser um país desenvolvido, a França ainda se tornou destino de diversos imigrantes africanos. Não à toa, 71 franceses de nascimento disputarão a CAN, distribuídos por 13 equipes diferentes.
O caso mais emblemático é o da Argélia. Os argelinos representam o contingente de imigrantes mais significativo da demografia francesa. Entre a geração que se mudou à antiga metrópole e os seus filhos, são mais de 1,7 milhões de argelinos no país. E muitos destes retornam às origens através do futebol. Nada menos que 14 jogadores das Raposas do Deserto para a Copa Africana nasceram em território francês. Muitos deles, destaques do time, como Riyad Mahrez e Yacine Brahimi. Destes, metade passou pelas seleções de base dos Bleus.
O recrutamento de franco-argelinos, aliás, se tornou uma estratégia comum para a federação da Argélia. O nível de desenvolvimento dos clubes locais está abaixo dos vizinhos do norte da África. Assim, aproveitar os jovens que defenderam a França na base, mas acabaram sem espaço no nível principal, ajudou a fortalecer as Raposas nos últimos anos. São jogadores que têm à disposição uma estrutura melhor para evoluir no esporte e, por isso, deslancham de maneira muito mais fácil na carreira. Estão mais preparados do que, por exemplo, um Islam Slimani, que precisou penar nas ligas locais até chegar à elite do futebol. Cabe dizer, no entanto, que nem todos os franco-argelinos que optam pela seleção africana fazem isso por falta de espaço nos Bleus. Há também uma relação de orgulho e identificação.
Além disso, o próprio aparato da federação francesa para desenvolver jovens talentos para a seleção nacional contribuiu para esses números. Poucas equipes nacionais possuem um trabalho tão qualificado quanto o desenvolvido em Clairefontaine, a sede dos Bleus. As estruturas disponibilizadas para os juvenis receberam forte investimento a partir dos anos 1990. O reflexo não é à toa. Ao todo, 35 atletas da CAN defenderam as seleções menores da França. Alguns deles, mesmo imigrando na juventude, como Mario Lemina, meio-campista nascido no Gabão. Os dois jogadores mais badalados dos anfitriões, aliás, se beneficiaram deste caminho. Pierre-Emerick Aubameyang disputou um amistoso com o sub-21 francês antes da decisão final.
Auba ainda faz parte de outro grupo de franceses na Copa Africana: os filhos de ex-jogadores. Diante da ampla presença de atletas africanos nos clubes da Ligue 1 e de suas divisões inferiores, há também um reflexo em outras gerações. O gabonês, por exemplo, nasceu enquanto o seu pai defendia o Laval. Da mesma maneira, André e Jordan Ayew são franceses de nascimento, graças à marcante carreira de Abedi Pelé no país. Porém, nunca tiveram dúvidas quanto à opção por Gana – antiga colônia dos britânicos.
No mais, dos 71 franceses, 29 defendem as seleções do Magrebe: além dos 14 argelinos, são 11 marroquinos e cinco tunisianos. Mais ao sul do continente, a presença de franceses de nascimento nas antigas colônias é menos numerosa, com destaque para os nove malineses e os seis senegaleses.
A mudança aos países mais ricos

Não são apenas os laços coloniais, entretanto, que marcam a ‘globalização’ da Copa Africana de Nações. A maioria dos imigrantes saiu em busca de oportunidades. E não se mudou necessariamente às antigas metrópoles, apesar das vantagens em relação ao idioma e às colônias de conterrâneos já presentes. Assim, o contingente estrangeiro entre os convocados à CAN 2017 se diversifica bastante.
O Gabão conta com Serge-Junior Martinsson Ngouali, filho de pai gabonês e mãe sueca. O meio-campista nasceu na Escandinávia e fez toda a sua carreira na Suécia, inclusive passando pelas seleções de base. Terá a oportunidade de estrear pela seleção gabonesa justamente na competição continental. Em Senegal, o caso de Keita Baldé é emblemático. Filho de senegaleses, o atacante da Lazio nasceu na Espanha e atuou na base do Barcelona por sete anos. Em 2015, chegou mesmo a defender a seleção da Catalunha, que possui permissão especial da Fifa para jogar uma vez por ano com atletas de outras equipes nacionais. Mas, no nível oficial, ele optou pelos Leões de Teranga.
E ainda há Wilfried Zaha, que gerou uma queda de braço em nível internacional. O ponta nasceu na Costa do Marfim e se mudou aos quatro anos para a Inglaterra. Destaque desde cedo no Crystal Palace, disputou 15 partidas com as seleções de base da Inglaterra. Inclusive, jogou dois amistosos com a equipe principal, sob as ordens de Roy Hodgson, entre 2012 e 2013. Como não eram partidas oficiais, o jovem tinha a possibilidade de mudar de opção. Passou a defender a Costa do Marfim justamente pensando na Copa Africana, apesar das tentativas do técnico Gareth Southgate de convencê-lo que seria chamado em breve pelos Three Lions. Um reforço e tanto aos Elefantes, em troca que não terá mais volta se Zaha entrar em campo na CAN.
Os caldeirões culturais de Marrocos e RD Congo

É interessante observar também como dois países em especial se destacam como verdadeiros caldeirões multinacionais. A República Democrática do Congo possui oito jogadores nascidos fora de seu território, em três países distintos, enquanto 11 atuaram em seleções de base europeias, quatro diferentes. Já no Marrocos, a legião estrangeira é ainda maior. Apenas cinco são marroquinos de nascimento.
Embora tenha sido colonizada pela Bélgica, a República Democrática do Congo possui seis jogadores franceses, como Cédric Bakambu, o que enfatiza essa relação ampla de migração além da metrópole. A língua francesa facilita a adaptação e ajuda a explicar o contingente, que se intensificou a partir dos anos 1990, graças às facilidades na obtenção do visto e nas oportunidades de mercado. Além disso, o vizinho Congo-Brazzaville foi colônia francesa até os anos 1960. Curiosamente, o único belga de nascimento entre os Leopardos é o goleiro Mulopo Kudimbana, que jogou nas seleções de base. Ainda há o suíço Joël Kiassumbua e Jordan Botaka, que defendeu a seleção holandesa sub-19.
No elenco marroquino, como já citado, quase metade dos jogadores é de origem francesa, 11 no total. Algo plenamente presumível, diante da ligação histórica entre metrópole e colônia. A Espanha, que também teve posses no atual território de Marrocos, além da proximidade geográfica, é o local de nascimento do goleiro Munir Mohand. Destino de um fluxo migratório expressivo de marroquinos, Benelux conta com seus representantes. Três atletas nasceram na Bélgica e dois, na Holanda. Segundo estimativas, cerca de um milhão de pessoas com ascendência marroquina vive atualmente nos dois países. Por fim, o goleiro Yassine Bounou nasceu no Canadá, antes de retornar ainda na infância para a terra de seus pais.
O Marrocos, em especial, guarda outros dois personagens bastante simbólicos em relação a essa globalização. Manuel da Costa, como o nome de batismo diz, possui origens portuguesas. Não à toa, ele jogou na base da Seleção das Quinas. Contudo, nasceu na França, mais um entre tantos imigrantes lusitanos no país. E é filho de uma marroquina, que influenciou em sua escolha pelos Leões do Atlas. Já Mehdi Carcela-González nasceu na Bélgica, de pai espanhol e mãe marroquina. Chegou mesmo a defender a seleção belga em dois amistosos, mas optou definitivamente pelo Marrocos em 2010.
Os ‘estrangeiros’ dentro da própria África

E os fluxos migratórios na Copa Africana de Nações não acontecem apenas em relação à Europa, mas também existem entre os próprios países africanos. São seis marfinenses e três senegaleses em outras seleções. Conflitos locais e guerras civis ajudam a explicar os movimentos internos na África, mas não apenas isso. Em um continente no qual as fronteiras muitas vezes foram forjadas, há relações de pertencimento mais diluídas. O desenvolvimento interno também influencia. Existem migrantes procurando melhores condições de vida em nações vizinhas, seja por oportunidades de emprego nas cidades ou até por condições de agricultura. Ou mesmo a própria estruturação do futebol, com países mais estruturados que outros.
O exemplo mais claro disso está entre Costa do Marfim e Burkina Faso. Cerca de dois milhões de burquinenses vivem no país ao sudoeste de seu território. Em sua seleção, quatro jogadores são marfinenses de nascimento, enquanto três atuam no ASEC Mimosas, tradicional clube de Abidjan. Da Costa do Marfim, também vêm dois atletas de Mali, com quem faz fronteira. Já no caso de Senegal, a relação é com o vizinho Guiné-Bissau, com dois senegaleses de nascimento na equipe guineense. Há ainda um em Camarões, país igualmente colonizado pela França em parte do Século XX.
Os bastiões nacionais

Diante de tamanha influência das migrações, apenas três elencos permanecem “puros” na Copa Africana de Nações, pensando no nascimento de seus jogadores: Egito, Uganda e Zimbábue. Na seleção egípcia, a compreensão dessa realidade distinta engloba tanto fatores históricos quanto esportivos. Afinal, apesar das instabilidades políticas recentes, o Egito iniciou seu processo de independência antes da maioria dos países africanos e possui uma república sólida há décadas. A diáspora egípcia também é um pouco menos significativa, especialmente porque os fluxos mais fortes foram a nações árabes ou aos Estados Unidos. Além disso, o futebol local é bem mais estruturado e mais rico que o restante do continente. Com uma boa base local, a seleção fica menos dependente de talentos que tenham sido lapidados na Europa. Não à toa, os 23 convocados pelos Faraós foram formados em clubes locais.
Já Uganda e Zimbábue acabam como exceções dentro da Copa Africana. Ex-colônias britânicas, os dois países até possuem grupos de imigrantes razoáveis no Reino Unido. Segundo as estatísticas oficiais, são 50 mil ugandenses e 110 mil zimbabuenses. Ainda assim, é uma massa menos determinante se comparada com outras nações africanas. E justamente em duas localidades com tradições mais escassas no futebol.
Em Zimbábue, a influência maior é da vizinha África do Sul, potência econômica da região e que também contribuiu futebolisticamente. Oito convocados atuam no Campeonato Sul-Africano. Uganda, por sua vez, mesmo revelando a maioria absoluta de seu elenco no futebol local, possui seus convocados espalhados por clubes de 14 países diferentes, incluindo até mesmo Islândia, Finlândia, Tanzânia, Etiópia, Líbano, Iraque e Vietnã. A globalização, no caso, serviu para que tantos ugandenses dispersos pelo planeta conseguissem formar uma equipe competitiva, a ponto de voltarem à fase final da CAN depois de 39 anos.
Um outro retrato da globalização

Por fim, é preciso ressaltar um processo distinto ao qual o futebol africano vem sendo submetido nas últimas décadas. Não são apenas as oportunidades de emprego e de uma vida melhor, em âmbito geral, que promovem esse trânsito de atletas. Afinal, o futebol também é um elemento dentro deste contexto. E, em distâncias cada vez mais encurtadas, muitos jovens africanos vão buscar uma chance através das propostas que recebem.
Se no passado, alguns clubes tinham a prática de instalar filiais nas colônias, com o exemplo principal dos grandes portugueses, atualmente as redes de olheiros das equipes europeias possuem uma penetração maior no continente africano. Em uma corrida intensa pelo talento, vale buscá-los para desenvolvê-los cada vez mais precocemente. Da mesma maneira, outra realidade que se tornou corriqueira, expandida especialmente a partir da virada do século, foi a das academias de futebol para meninos africanos. O negócio tornou-se lucrativo e serviu para revelar diversas promessas. Na CAN 2017, Sadio Mané é o mais famoso entre estes. Começou a ganhar destaque depois de passar por uma peneira do projeto Génération Foot, em Dakar, antes de ser pinçado pelo Metz.
E, de qualquer maneira, com o dinheiro jorrando no futebol europeu, é natural que os principais jogadores adultos acabem atravessando o Mediterrâneo quando começam a estourar. O Egito é a prova. Que 12 convocados ainda atuem na liga local, a maioria dos destaques rumou a clubes europeus por volta dos 20 anos, como Mohamed Salah. Podem até segurar por mais tempo as promessas e ter capacidade para formá-las até o profissional, mas fica difícil de mantê-los quando chegam à elite. Assim, molda-se outro aspecto da globalização na CAN, que pode causar ainda mais impacto nas gerações futuras nascidas fora do continente africano. E que, por outros caminhos, oferece também material humano às seleções europeias.



