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A confederação africana admitiu uma nova seleção a suas competições: Zanzibar

O congresso da Confederação Africana de Futebol desta quinta-feira trouxe mudanças marcantes. Após 29 anos na chefia, Issa Hayatou perdeu as eleições presidenciais da entidade. O camaronês será substituído por Ahmad Ahmad, representante da federação de Madagascar, que ganhou o pleito por 34 votos a 20. Mas não é só no poder que há novidades no futebol africano. A partir de agora, a confederação conta com um novo membro integral: Zanzibar, arquipélago de 1,3 milhão de habitantes que faz parte da Tanzânia de maneira semi-autônoma. A própria federação tanzaniana solicitou a admissão, aprovada pelas demais associações da África. A “terra de Freddie Mercury” é o 55° filiado à CAF, cinco anos depois da inclusão do Sudão do Sul. Assim, os zanzibaritas poderão inscrever sua seleção nas eliminatórias da Copa Africana de Nações, assim como a equipe feminina e as de base nos torneios da entidade.

Embora não fosse “oficial”, a seleção de Zanzibar existe há tempos e ajuda a entender a geopolítica local. O antigo sultanato era uma importante rota na costa do Oceano Índico, principalmente por causa do comércio de escravos. Tornou-se um protetorado britânico em 1890, já depois que o Império forçou a abolição da escravatura. Na mesma época, o futebol chegou à região, através de funcionários da Eastern Telegraph Company, com a prática se popularizando-se especialmente nas praias. Território soberano, apesar da influência direta do Reino Unido em sua política, Zanzibar formou sua seleção de futebol em 1947. Estreou em contra a vizinha Tanganica (esta, de fato, uma colônia britânica), em torneio contra outras seleções do leste da África.

Zanzibar também fez parte da CAF nos primórdios da entidade, fundada em 1957, embora não tenha participado das primeiras edições da Copa Africana de Nações. Em 1963, o arquipélago deixou de ser um protetorado britânico. Já no ano seguinte, se uniu com Tanganica e passou a formar um novo país – a Tanzânia. Embora a federação tanzaniana tenha se filiado à CAF logo em 1964, os zanzibaritas mantiveram sua equipe paralelamente, disputando as competições regionais do leste da África. Já em 1980, foram admitidos como uma federação associada da CAF, sem plenos direitos, mas reconhecida em âmbito local – a exemplo do que acontece com as Ilhas Reunião, departamento ultramarino francês.

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O maior sucesso da história da seleção de Zanzibar veio em 1995. Pela primeira vez em 43 participações, a equipe conquistou a Copa Cecafa – o torneio mais antigo do continente, ligado ao Conselho para as Associações de Futebol do Leste e da África Central (Cecafa), uma organização regional da CAF. Naquela campanha, os zanzibaritas eliminaram a Etiópia nas semifinais, antes de baterem Uganda B na decisão. Além disso, desde a última década, Zanzibar se acostumou a disputar as competições organizadas pelas seleções não-filiadas à Fifa. Em 2006, perderam nos pênaltis a Copa do Mundo Fifi para o Chipre do Norte, algoz também na semifinal da Copa ELF. Já em 2012, terminaram na terceira colocação da Copa do Mundo Viva.

No âmbito local, Zanzibar mantém a sua própria liga nacional desde 1981. A competição corre paralelamente ao Campeonato Tanzaniano, que reúne apenas os clubes da porção continental do país. Durante alguns anos, os campeões de ambos os certames chegaram a disputar uma ‘supercopa’. Além disso, o status de membro associado da CAF já permitia, desde 2005, que o vencedor do Campeonato Zanzibarita disputasse a Liga dos Campeões da África. Na única vez que um representante local passou da primeira fase preliminar, em 2006, foi por causa do WO do adversário. Naquela ocasião, o Polisi acabou eliminado pelo Étoile du Sahel na etapa seguinte.

Em teoria, a admissão de Zanzibar na CAF não terá maiores impactos sobre o Campeonato Tanzaniano. A principal mudança será mesmo na elegibilidade dos jogadores. Exceção feita à Copa Cecafa, a seleção da Tanzânia continuava convocando os melhores jogadores zanzibaritas. Contudo, na iminência das transformações, o técnico Salum Mayanga já havia anunciado que os atletas nascidos no arquipélago teriam liberdade de escolha, só defendendo a equipe tanzaniana se assim entendessem. Além disso, a mudança de status reforça os anseios de Zanzibar em se tornar membro também da Fifa – o que foi rechaçado pela entidade internacional durante os últimos anos. Como ocorreu com Gibraltar e Kosovo, talvez a Copa do Mundo esteja um pouco mais próxima ao arquipélago.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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