O futebol italiano tem sido palco de casos de racismo quase todas as semanas, mas, você que o assiste pela televisão, não precisa mais se preocupar.  O principal executivo da Serie A encontrou a solução: em nome de “um produto melhor”, Luigi de Siervo sugeriu que os microfones próximos às arquibancadas sejam desligados, em uma perfeita concretização da metáfora de retirar o sofá da sala.

Um áudio vazado flagrou De Siervo, em reunião com representantes de Atalanta, Internazionale, Milan e Udinese, sugerindo que fossem desligados os microfones próximos às Curvas, onde geralmente ficam os ultras dos clubes italianos, “para que as ofensas racistas não fossem ouvidas pela televisão”. Eles discutiam uma resposta a uma artigo do New York Times que destacou o preconceito no futebol italiano.

O jornal La Repubblica entrou em contato com De Siervo para verificar a veracidade do áudio. O dirigente confirmou a sua ideia, mas afirmou que o trecho foi retirado do contexto. “(Nele) Você ouve apenas uma fração do argumento, que era muito mais amplo. Estávamos falando sobre o produto da televisão. Partimos do pressuposto que não somos jornalistas em busca de notícias. Produzimos um espetáculo e o valorizamos”, explicou.

Segundo De Siervo, para “verificar a regularidade da competição e documentar para fins legais e esportivos” existem a polícia, os inspetores da liga, da federação e, principalmente, os árbitros. “Fazemos isso continuamente. A linha é evitar que nós nos fixemos nos episódios feios que acontecem todos os domingos”, continuou.

O dirigente contou que diretores de televisão foram suspensos por manter as câmeras focadas em torcedores do Cagliari “fazendo de tudo” durante 40 segundos, durante uma revisão do VAR, e em fãs da Internazionale que faziam homenagem a Fabrizio Pischitelli, o “Diabolik”, líder de um grupo de ultras de extrema-direita da Lazio que morreu em agosto.

“Não é censura. Estávamos falando em como valorizar o produto. Estávamos vindo de um artigo do New York Times que indicava a Itália como a nova fronteira do racismo no futebol. E eu sugeri gerenciar de maneira mais precisa o direcionamento dos microfones. Em casa, ouvem-se detalhes que no estádio não são nem percebidos”, disse.

No entanto, Lukaku e Balotelli, e antes deles Muntari, Moise Kean e muitos outros, perceberam, dentro dos estádios, as ofensas racistas de torcedores, e esses microfones De Siervo não parece tão interessado em desligar.