O gramado do Estádio An der Alten Försterei, tomado por uma multidão ensandecida, indica o final e o começo de uma história. É a coroação de um clube centenário com raízes populares, que se dividiu como Berlim durante a Guerra Fria e representou a resistência contra o autoritarismo, antes de abraçar suas origens após a unificação da Alemanha – sustentado por sua torcida e seus ideais progressistas. O Union Berlim, afinal, é daqueles times fascinantes não por suas glórias ou por seus craques, mas simplesmente por aquilo que simboliza. E o acesso inédito à primeira divisão do Campeonato Alemão significa demais, após o empate por 0 a 0 contra o Stuttgart nos playoffs. Pela primeira vez, uma equipe da Berlim Oriental irá figurar na Bundesliga, dando novas perspectivas ao futebol na cidade e nos entornos do país. Pela primeira vez, a apaixonada torcida dos Eisernen chega à elite, um prêmio à sua dedicação ao longo de décadas. A invasão enlouquecida é a apoteose desta belíssima história.

O Union Berlim encaminhou o seu acesso logo no primeiro jogo dos playoffs – que reúnem o antepenúltimo colocado da primeira divisão e o terceiro da segundona. Os berlinenses ficaram duas vezes em desvantagem no placar e buscaram o empate por 2 a 2. Inclusive, jogaram melhor que o Stuttgart na Mercedes-Benz Arena, só não conseguindo a virada por causa do goleiro Ron-Robert Zieler. Assim, os empates por 0 a 0 e 1 a 1 seriam vantajosos aos Eisernen no reencontro desta segunda, dentro do Estádio An der Alten Försterei. Diante do apoio incondicional e inflamado de sua torcida, o time da casa triunfaria em uma noite de luta.

O ambiente especial se viu desde a entrada dos times em campo, com um baita mosaico exibindo o “coração de ferro” do Union. No entanto, não seria uma partida tecnicamente agradável. O Stuttgart tinha a iniciativa e foi melhor durante o primeiro tempo, mas criou raras oportunidades de gol e parou no goleiro Rafal Gikiewicz, autor de duas ótimas defesas na etapa inicial. Além disso, quando os suábios balançaram as redes, tiveram o seu tento anulado. Dennis Aogo cobrou falta no canto do arqueiro, mas Nicolás González atrapalhou a visão do polonês e a arbitragem, com auxílio do VAR, assinalou o correto impedimento do argentino.

Durante o segundo tempo, o Union Berlim saiu mais para o jogo. Chegou a carimbar a trave duas vezes, ambas com Suleiman Abdullahi. De qualquer maneira, o goleiro Gikiewicz seria mesmo o herói do acesso – depois de ter marcado até gol de cabeça na temporada regular. O Stuttgart tentava pressionar, mas os berlinenses apresentavam uma solidez enorme na defesa e davam poucos espaços para os suábios finalizarem. No último suspiro dos visitantes, Benjamin Pavard acertou um chutaço de fora da área, mas Gikiewicz foi buscar no cantinho e espalmou para escanteio. Apesar dos contra-ataques desperdiçados, os Eisernen já comemorariam o empate. O apito final provocou uma explosão nas arquibancadas, em uma das cenas mais bonitas da temporada europeia. Do outro lado, os jogadores do Stuttgart deixavam o campo abalados, após o segundo rebaixamento nas últimas quatro temporadas.

A invasão para comemorar o acesso foi massiva. Centenas e centenas de torcedores entraram em campo, para abraçar os jogadores e festejar a promoção. O Estádio An der Alten Försterei, reformado a partir de um mutirão da própria torcida e que anualmente recebe belíssimas celebrações no Natal, desta vez realizou sua festa mais aguardada. Os sinalizadores, que queimaram durante quase todo o jogo, passaram a brilhar de maneira mais intensa. Enquanto isso, os atletas já enchiam a cara de cerveja e eram carregados nos braços pela massa. Uma façanha imensa ao Union e ao futebol de Berlim.

O Union é o quinto representante de Berlim na história da Bundesliga, após as participações efêmeras de Blau-Weiss 90, Tennis Borussia e Tasmania 1900, além da força do Hertha. Torna-se também a segunda equipe da capital a figurar na elite desde a queda do Muro de Berlim. Além disso, é o sexto time da antiga Alemanha Oriental a participar da primeira divisão desde a reunificação. Segue os passos de Dynamo Dresden, Hansa Rostock, Lokomotive Leipzig, Energie Cottbus e RB Leipzig.

Fundado em 1906, o Union Berlim nasceu em Oberschöeneweide, subúrbio industrial da metrópole. Chegou a ser vice-campeão alemão em 1923 e tinha forte ligação com os operários, sobretudo da indústria metalúrgica. Todavia, o fim da Segunda Guerra Mundial e a divisão da cidade reposicionaram os Eisernen. Diante da formação da Alemanha Oriental, a agremiação também sofreu uma cisão interna e muitos de seus membros foram ao lado ocidental. Porém, o surgimento do muro em 1961 impediu a massa de torcedores de acompanhar os jogos na Berlim Ocidental e o Union voltou a desfrutar sua popularidade, atraindo também a simpatia dos antigos seguidores do Hertha Berlim.

Por conta de seu caráter civil, em tempos nos quais o futebol era apadrinhado pelas instituições oficiais do regime comunista, o Union Berlim atraía bom público na antiga Oberliga. O clube passou por sucessivas refundações e fusões, até se restabelecer de maneira definitiva em 1966. Nunca superou a quinta colocação na liga nacional e possui como grande glória o título da Copa da Alemanha Oriental de 1968. Mesmo assim, era uma alternativa à população que não queria se curvar ao Dynamo Berlim, potência da capital apoiada pela Stasi – a polícia secreta da ditadura. Os Eisernen se transformaram em um símbolo contra o sistema, por mais que a agremiação não pudesse assumir a postura oficialmente. Tinha mais torcida que o Dynamo, inclusive durante o decacampeonato nacional dos rivais locais.

Até por sua estrutura, o Union Berlim conseguiu lidar melhor com o fim da Alemanha Oriental do que outros clubes bancados pelo regime. Seguiu como uma equipe calcada em suas raízes populares, mesmo mantendo as ambições modestas. Transitou inicialmente pela terceira divisão, antes subir à segundona na virada do século, quando também chegou à final da Copa da Alemanha. E nos momentos de maior provação, a torcida reergueu os Eisernen. Em 1997, quando a agremiação se aproximava da bancarrota, as manifestações nas ruas de Berlim atraíram patrocínios para evitar a falência. Sete anos depois, diante de dois rebaixamentos consecutivos, foi uma massiva doação de sangue que garantiu o dinheiro para bancar a licença na quarta divisão. Já em 2008, os torcedores se uniram em mutirão para reformar o Estádio An der Alten Försterei.

A ascensão recente do Union Berlim continuou confiando na torcida. O clube conquistou o acesso imediato na quarta divisão em 2006 e passaria três anos na terceirona, até retornar ao segundo nível. Foram dez temporadas consecutivas na segundona, naquele que pode ser considerável o período mais estável da história da agremiação. Aos poucos, deixou o meio da tabela para se postular ao acesso inédito à Bundesliga. Enquanto isso, a diretoria mantinha os laços com a torcida, realizando eventos populares no estádio e também assumindo seu posicionamento em questões sociais, com uma visão progressista. Com suas raízes locais cada vez mais aprofundadas, o Union ampliou suas ambições.

Os Eisernen lutaram pela promoção nas últimas três temporadas, mas perdiam fôlego na reta final da 2. Bundesliga. Na atual campanha, o filme se repetiu. Por mais que o Union tenha superado o Hamburgo, o final de campanha errante permitiu que o Paderborn descolasse o acesso direto. Ainda assim, a terceira colocação já valeu a inédita chance de disputar os playoffs. E contra o Stuttgart, os berlinenses encerraram um hiato de sete anos sem que o terceiro colocado da segundona triunfasse.

O Union tem um time pautado principalmente em sua força defensiva, liderada pelo goleiro Rafal Gikiewicz e pelo zagueiro Marvin Friedrich – que jogaram todos os 3240 minutos da campanha. Além disso, vale destacar Sebastian Andersson, Grischa Prömel, Sebastian Polter e Robert Zulj, protagonistas do meio para frente. Já o técnico é Urs Fischer, bicampeão suíço com o Basel, que chegou a Berlim nesta temporada. Um grupo modesto, mas que cresceu pouco a pouco em suas intenções, até arrebatar seu maior feito.

A chegada do Union Berlim à Bundesliga representa um desafio à sua própria identidade. Não será simples conciliar seu apego às raízes com as novas fronteiras econômicas proporcionadas pela primeira divisão. E, independentemente do quanto durar esta epopeia, ela já possui um simbolismo imenso. Uma das torcidas mais apaixonadas do país, enfim, ganha o seu reconhecimento na elite. O modelo de gestão seguro e calcado no público também termina premiado. Além do mais, Berlim tem sua história no futebol valorizada. O acesso significa o rompimento de várias barreiras, o que explica tamanha explosão no Estádio An der Alten Försterei.

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Teremos mais um especial, aprofundando-se na história do Union Berlim, a ser publicado nesta terça-feira. De antemão, vale conferir outra matéria de 2014: “O Union Berlim se dividiu como a Alemanha e ajudou a combater o autoritarismo no lado oriental”. Segue também a recomendação ao livro “À Sombra de Gigantes”, do jornalista Leandro Vignoli, com um capítulo dedicado aos Eisernen. E, por fim, ficam os parabéns ao colega e referência Gerd Wenzel, torcedor do Union. O “tchau tchau!” mais feliz virá na próxima temporada.