Por Igor Sternieri

Zvonimir Boban está dentro do seleto grupo de jogadores que atuaram com mais de uma camisa nacional, já que vestiu as cores da antiga Iugoslávia e da Croácia. E só não está no grupo de 5 atletas que disputaram duas Copas do Mundo por equipes distintas (Puskás por Hungria e Espanha; Mazzola por Brasil e Itália; Prosinecki Iugoslávia e Croácia; Monti por Argentina e Itália; Santamaria por Uruguai e Espanha) devido a uma punição da Federação Iugoslava de Futebol.

Em 13 de maio de 1990, pouco antes da Copa da Itália, Boban se envolveu em um incidente no duelo entre Dinamo Zagreb, seu clube na época, e Estrela Vermelha. Nesse jogo, houve uma grande confusão entre os dois grupos de torcedores (os sérvios do Estrela Vermelha e os croatas do Dinamo Zagreb) com cenas de vandalismo e invasão de campo. Antes do início do jogo, já havia um clima de guerra entre as torcidas organizadas dos clubes, que brigavam nas cercanias do Estádio Maksimir, em Zagreb. Os motivos logicamente não estavam relacionados apenas à rivalidade entre os times, mas também a aspectos políticos e étnicos, sobretudo ligados ao desejo de independência dos croatas.

Boban, capitão do Dinamo, ao ver um torcedor de sua equipe sendo atacado por um policial, avançou frente à autoridade e deu-lhe uma voadora. Pelo ataque, Boban foi considerado herói nacional na Croácia, no entanto foi suspenso por seis meses pela Federação Iugoslava de Futebol, além de sofrer processos criminais, que no final foram arquivados. Anos mais tarde, Boban comentou: “aqui estava eu, um cara público, preparado para arriscar minha vida, minha carreira, e tudo o que a fama poderia ter trazido, por causa de um ideal”.

O incidente ficou famoso por ocorrer semanas antes das primeiras eleições multipartidárias na Croácia nos últimos cinquenta anos. Nesse pleito, a maioria dos croatas votou pela independência do país.

Antes da independência croata, Boban atuou com a camisa da Iugoslávia em sete jogos, com um gol marcado. Não fosse o episódio no Estádio Maksimir provavelmente teria ido a Copa do Mundo da Itália, a sua primeira, no entanto o debute em mundiais de Boban, e da própria Croácia, guardou uma grata surpresa. Em 98 na França, a Croácia superou todas as expectativas e chegou ao honroso terceiro lugar, após ser eliminada nas semifinais para a futura campeã França.

Boban foi capitão da seleção, disputou seis partidas, ficando de fora apenas da vitória na fase de grupos sobre o Japão por 1 a 0. Com as cores da Croácia, o meia disputou 51 jogos com 12 gols marcados em mais de nove anos de convocações para a seleção nacional.

O início no Dinamo Zagreb

Além da sua forte postura política, Boban sabia o que fazer com a bola nos pés. Os primeiros passos no futebol se deram no ano de 1985, quando debutou com a camisa do Dinamo Zagreb aos 17 anos, mas apenas na segunda temporada que o jovem meio-campista pôde mostrar seu talento, seus passes refinados e sua visão de jogo. Em 86/87, Boban assumiu a titularidade no Dinamo disputando 28 jogos e assinalando oito gols. Até a temporada 90/91, quando saiu do clube croata rumo à Itália, o meia participou de 109 jogos pela Liga Iugoslava e marcou 45 gols.

No entanto, Boban não conseguiu levar o Dinamo Zagreb a conquistas enquanto vestiu a camisa do clube, muito em virtude da concorrência do Estrela Vermelha, que em 90/91 levantou o caneco da Copa dos Campeões, atual Champions League. O Estrela Vermelha contava na época com Mihajlovic, Prosinecki e Savicevic. As melhores campanhas do Dinamo foram nas temporadas 89/90 e 90/91, quando o time ficou em segundo, justamente atrás do Estrela Vermelha.

Na Itália, um grande sucesso

Em 1991, o Milan adquiriu o passe de Boban junto ao Dinamo Zagreb. Contudo os primeiros toques na bola no calcio se deram com a camisa do Bari, clube para o qual o croata foi emprestado em seu ano de estreia na Itália. Pelo Bari, foram 17 jogos, dois gols e a salvezza. O time terminou em décimo quinto na tabela, mas Fabio Capello, então técnico rossonero, pediu o retorno de Boban ao Milan.

Em San Ciro, Boban ganhou amplo destaque no cenário mundial. A estreia foi contra o Ternana e o placar não poderia ser melhor: 6 a 2 para os rossoneri. Embora o debute tenha sido em grande estilo, o meia teve poucas oportunidades na temporada 92/93, quando o Milan chegou à final da Champions League, perdendo para o Olympique de Marselha. Na série A foram 13 jogos e nenhum gol marcado, além de poucas chances no principal torneio europeu. Ainda assim, o primeiro caneco na Itália: o Milan sagrou-se campeão do calcio.

Na temporada seguinte, com a saída de Rijkaard, Boban conquistou a titularidade na equipe de Capello. Já nos onze inicial, o croata disputou 20 jogos da Série A do calcio com 4 gols marcados. De quebra fez parte do time rossonero que conquistou o pentacampeonato da Champions League ao bater o Barcelona de Cruyff por 4 a 0. Nessa campanha, Boban levantou mais três taças, já que foi campeão da Série A italiana, da Supercopa Italiana e da Supercopa Europeia.

Na temporada 94/95, Boban e Milan pararam na final da Champions, quando perderam para o Ajax por 1 a 0. O croata ainda levantaria o troféu máximo no calcio nas temporadas 1995/96 e 1998/99. Ao todo, Boban disputou 251 partidas com o Milan, anotando 30 gols. Depois de nove temporadas em Milão, Boban se mudou para o Celta em 2001/02 antes de encerrar sua carreira ao final da campanha.

Após a aposentadoria

Logo que se retirou do futebol, Boban trilhou um caminho diferente da maioria dos ex-atletas: foi fazer faculdade de História, na Universidade de Zagreb. Embora formado, ele não aderiu às salas de aula ou à pesquisa acadêmica, preferindo manter-se em contato com o futebol ao trabalhar como comentarista esportivo.

Quando a seleção da Croácia atua fora de seus domínios, Boban comenta os jogos para a televisão RTL. Além disso é comentarista fixo da Sky Itália e escreve para dois jornais: o italiano La Gazzetta dello Sport e o croata Sportske Novosti.