Qual o grande fascínio ao redor do Ajax nesta Liga dos Campeões? A história que escreve a cada fase, desbancando outros gigantes, e a própria maneira como honra sua tradição, claro, provocam o encanto. A filosofia do Futebol Total, tão bem assimilada por esta horda garotos, também possui seu peso a fazer mais olhos brilharem. Porém, a hipnose não seria completa sem o estilo de jogo dos Godenzonen. Sem aquilo que se petrifica no fundo da retina e prova que, sim, todo o enredo por trás desta epopeia é real. A magia dentro de campo, mais que um meio rumo às semifinais, se torna um propósito e um horizonte a se perseguir.

As imagens que serão reexibidas ao longo de anos têm a bola como coprotagonista. A troca de passes arriscada, mas consciente, faz o time de Erik ten Hag amassar os adversários. O “domina e passa” é o grande condutor dos holandeses até Londres, encurtando o caminho ao fundo das redes. Se é uma equipe que gosta da posse, nem por isso os jogadores se tornam egoístas, encarregando-se de encontrar rapidamente a melhor opção à sequência da jogada e fazendo a engrenagem do carrossel funcionar. O drible é um requinte a mais, não a única maneira de romper as defesas. Pois esse desprendimento vai além e, em um futebol cada vez mais físico, ele depende de uma entrega enorme para recuperar a bola. A necessidade se une com a vontade, na intenção de sufocar os adversários. E o “yin-yang” entre o minimalismo requintado com a posse e o esforço máximo sem ela permite ao Ajax ser tão eficiente. Um equilíbrio encarnado por Hakim Ziyech nesta terça-feira, em triunfo tão fundamental à ambição do clube na Champions.

O Ajax ofereceu meia hora dominante de futebol contra o Tottenham. E não foi exatamente pelas chances que criou, pelas vezes que finalizou. De fato, a impressão só é ratificada pelo gol de Donny van de Beek, que assegurou a vitória por 1 a 0. Poderia até ser mais ampla, caso o meia não tivesse parado em Hugo Lloris no momento de aumentar a diferença. Ainda assim, dentro do “yin-yang” de Erik ten Hag, o equilíbrio não foi atingido por aquilo que se produziu com a bola. Ele aconteceu graças ao que os Ajacieden jogaram sem ela. E se qualquer treinador quiser ensinar à sua equipe como se portar de maneira agressiva mesmo na defesa, os 30 minutos iniciais em Londres são exemplares. Os holandeses progrediram inclusive quando os ingleses tentavam romper o seu enclausuramento. Atacaram os espaços.

A postura tão vigorosa do Ajax não depende de meros trabalhadores. Depende de estrelas que trabalham incessantemente em qualquer circunstância. Ten Hag possui vários talentos à sua disposição, nenhum deles satisfeito enquanto não espremer os oponentes até recuperar a posse. Inteligentes com a bola nos pés, mas, acima de tudo, também sem ela. É o que prega o Futebol Total, é o que o Ajax ensina desde cedo, é o que este time consegue elevar a uma nova potência ao longo da Champions. Dá gosto ver os Godenzonen jogar, não só porque tratam bem a pelota, mas porque a desejam a todo instante. Intensidade máxima, escancarada durante o primeiro tempo no novo White Hart Lane.

Ziyech é o cara de quem se espera um toque especial. Como se viu ao longo da Champions, é um meia que busca o jogo, que chama a responsabilidade, que finaliza bastante. Possui uma qualidade técnica acima da média e isso permitiu a vitória do Ajax sobre o Tottenham. Posicionou-se no lugar certo, ajudou a conduzir a jogada, deu um passo para trás em busca de maior liberdade. Seu domina e passa, da direita para a canhota, rendeu uma enfiada magistral para Donny van de Beek – o especialista em quebrar linhas de marcação. Este foi o atalho da vez rumo às redes. Contudo, o marroquino não primou apenas pelo lance decisivo. O destaque vale ainda mais pelo que produziu sem a bola.

Ziyech, Neres, Van de Beek e Tadic não sossegaram. Foram eles os principais motores do Ajax no primeiro tempo, pela maneira como prendiam o Tottenham em uma camisa de força. Neutralizaram a opção tática de Mauricio Pochettino, algo que só se aliviaria com a entrada de Moussa Sissoko. Apesar disso, os Spurs se viam limitados. A falta de repertório e os desfalques podiam ter a sua influência, mas não se nega a partidaça do Ajax nos combates pelo chão. Embora houvesse um certo temor no jogo aéreo, a porta trancada por terra valeu muito aos holandeses. Ziyech, o artista na frente, também foi um leão na marcação.

Nenhum outro jogador em campo realizou mais desarmes que Ziyech. Foram seis, superando até mesmo volantes e defensores. Era um esforço necessário para manter o sonho vivo. Era um esforço inerente deste futebol em que não se pode dar trégua. O meia não deu, em nenhum instante. Por isso, estava sempre caçando os calcanhares de seus oponentes, sempre voltando para ajudar os companheiros. E, desta maneira, quase possibilitou um novo gol. O replay não vai mostrar, mas a bola na trave de David Neres só aconteceu em um contragolpe possibilitado pela roubada do marroquino lá atrás. Era o sinal de uma noite completa. Enquanto Van de Beek foi outro excelente no primeiro tempo, até cair de nível pelo desgaste, o camisa 22 pareceu ter sempre uma energia guardada para o sprint a mais. Seguiu assim até os 42 do segundo tempo, quando saiu para a entrada de Klaas-Jan Huntelaar.

Os melhores momentos podem dar um retrato do jogo. E quem assistir aos recortes de Tottenham 0x1 Ajax, verá as chances mais claras surgirem aos holandeses, apesar da pressa dos ingleses no segundo tempo. Todavia, este acaba sendo um resumo pobre do que foi a excelente atuação dos Godenzonen. Eles não mostrarão a máquina funcionando em alta rotação sem a bola. Ziyech vive o mesmo problema. Quando elogiarem sua belíssima assistência, ainda assim não contemplarão o que foi o seu máximo. O Ajax ao menos sabe o quanto pode contar com os seus craques e, a partir disso, fica mais perto de ver a final se concretizar.