Depois de ser campeão da Libertadores e do Mundial, Tite conduziu uma temporada fraca no Corinthians, insistindo em jogadores que haviam sido importantes nas conquistas, mas que estavam declínio. Houve desgaste e, ao fim daquele ano, seu contrato não foi renovado. Mano Menezes chegou para fazer o trabalho sujo que, naturalmente, Tite teria dificuldades para fazer: renovar o elenco, abrindo mão de jogadores vitoriosos, ídolos da torcida. Em 2015, Tite retornou e, com um time diferente, foi campeão brasileiro. O exemplo alvinegro ajuda a explicar o retorno de Zinedine Zidane ao Real Madrid.

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O treinador tricampeão europeu foi anunciado, nesta segunda, no lugar de Solari, a quem foi oferecido permanecer no Real Madrid, em outra função. O francês assinou contrato até 2022, e, agora, terá muito mais respaldo e legitimidade para fazer o que deveria ter sido feito um ano atrás: afastar medalhões que não estão rendendo ou se acomodaram, trazer novos líderes, enfim, montar um novo time. Inteligente, Zidane sabia que isso era necessário. “Posso errar ou que haja pessoas que pensam diferente, mas, se não vejo claramente que seguiremos vencendo… É uma decisão para o meu bem e pelo do elenco. Creio que seja necessária uma mudança para continuar vencendo”, afirmou, no dia da sua despedida.

Duas hipóteses podem tê-lo motivado a ir embora. A primeira é que a diretoria resistiu à ideia de revolucionar um elenco campeão, o que ganha respaldo na nota oficial que anunciou a saída de Lopetegui, praticamente isentando os jogadores de responsabilidade: “O Conselho de Administração entende que há uma grande desproporção entre a qualidade técnica do elenco, que tem oito jogadores nomeados para a próxima Bola de Ouro, algo inédito na história do clube, e os resultados obtidos até o momento”. O site Goal informa que Zidane, agora, terá “plenos poderes” na gestão esportiva da equipe principal. “Um dos motivos da despedida do francês, em junho, foi que, então, não poderia realizar as mudanças necessárias”, afirma a reportagem.

A segunda hipótese, e é perfeitamente possível que ambas sejam verdade, é a ciência de que não poderia ser ele a comandar a revolução, com as memórias dos três títulos da Champions League ainda tão frescas. O Marca, jornal muito próximo ao madridismo, escreveu em sua notícia sobre os bastidores das negociações entre técnico e Florentino Pérez que Zidane “volta sabendo que tem que fazer uma reconstrução que talvez sua presença teria evitado a realização de maneira tão radical quanto deve ser agora” e que sente que deve uma a Pérez, após sua saída “à francesa” (trocadilho provavelmente intencional). Que Zidane recebeu propostas de vários clubes, mas em todas elas faltava “o aspecto emocional do Real Madrid” e que bastaram duas conversas com Pérez para que ele aceitasse retornar.

Na entrevista coletiva em que se reapresentou, Zidane afirmou que as mudanças que o clube precisa não eram “o assunto do dia” e que voltou porque o presidente o chamou. “Há coisa que precisamos mudar para o próximo ano. Mas, agora, temos que pensar no que podemos fazer. Faltam onze jogos e queremos acabar bem”, afirmou. “Quero deixar isso claro. Quando fui embora, era o momento necessário para mim e para o vestiário e os jogadores. Era necessário, e não porque eu queria ir embora. Acreditava que depois de dois anos e meio ganhando quase tudo, algo precisava mudar. Sei como é este clube e que nem sempre é fácil, mas pensei que era a decisão que devia tomar, assim como acredito agora. Passaram nove meses, agora é outra situação.  O que tenho que fazer é explicar porque decidi voltar: porque o presidente me chamou. E como gosto dele, aqui estou”.

Não que esse tenha sempre sido o plano de Zidane: jogar um boi de piranha para tomar as decisões difíceis ou expor os desgastes do time para voltar como salvador da pátria. O Real Madrid poderia ter encontrado um novo caminho de sucesso com outro treinador e, nesse caso, Zidane simplesmente seguiria carreira em outro lugar. Mas o fato é que, do jeito como as coisas aconteceram, a tarefa agora é mais fácil para o francês, do ponto de vista de relacionamento, com elenco ou diretoria, e, principalmente, de percepção pública.

Caso tivesse permanecido, e convencido a diretoria a aprovar a reformulação, Zidane poderia muito bem ter adquirido a fama de traidor no vestiário se, por exemplo, barrasse Marcelo ou imediatamente decidisse vender Bale ou Modric ou Kroos. Seria visto como uma ingratidão aos jogadores que o ajudaram a gravar seu nome na história dos grandes técnicos europeus, especialmente se eles saíssem e começassem a jogar bem em outro lugar, enquanto o Real Madrid sofria. Por outro lado, se insistisse em jogadores tricampeões que não estavam mais rendendo, seria culpado de colocar seu senso de lealdade acima dos interesses do clube. Teria sua imagem associada aos fracassos desta temporada, e o mito do treinador que conquistou quase tudo que disputou seria desgastado. É contraditório, sim, mas o futebol às vezes é um ambiente muito complicado.

No entanto, a pior temporada do Real Madrid em muitos anos criou um consenso, entre torcida, imprensa, direção e mesmo parte do elenco, de que são necessárias mudanças drásticas, e não há as impressões digitais de Zidane nesse fracasso. Ele retorna ainda idolatrado pelos três títulos europeus e com autoridade para usar essas últimas semanas de campeonato como uma espécie de processo seletivo para a temporada seguinte e, quando tomar as decisões importantes, haverá poucas vozes divergentes.

O desafio, porém, é muito distinto ao que Zidane assumiu três anos atrás. Quando pegou as rédeas das mãos de Rafa Benítez, o Real Madrid tinha um time arrumado, com craques em todas as posições, que precisava de ajustes e de uma administração mais eficiente nos vestiários, duas tarefas nas quais o francês demonstrou excelência. Agora, ele terá que montar uma nova equipe, garimpando entre os medalhões que estão no clube e ainda podem render, jovens que podem crescer, coadjuvantes que podem ser úteis e, principalmente, atletas de outros clubes que podem ser contratados.

Zidane realizou negócios modestos em suas janelas de transferências, como Dani Ceballos e Theo Hernández. A maioria das novidades veio da ascensão de jogadores da base. Agora, espera-se, e, neste caso é realmente necessário, a contratação de estrelas e líderes que possam preencher o vácuo deixado pela saída de Cristiano Ronaldo e em torno dos quais um novo time campeão possa ser formado. Com a provável carta branca que terá no mercado, precisará provar que também tem olho apurado para bons negócios.

O retorno tão rápido de Zidane ao Bernabéu pegou muitos de surpresa e frustrou outros que gostariam de vê-lo testar suas habilidades longe do Real Madrid, no qual é ídolo como jogador e técnico. Quando há essa identificação tão forte, fica sempre a dúvida: trata-se realmente de um treinador de primeiro nível ou o seu sucesso foi auxiliado por um ambiente confortável e conhecido? Foi a mesma coisa com Pep Guardiola até o catalão brilhar também no Bayern de Munique e no Manchester City. Teremos parte da resposta porque Zidane terá que montar um time próprio a partir de agora. Mas não ela inteira.