Estar no lugar certo e na hora certa, para alguns, pode depender de uma pitada de sorte. No futebol, porém, muitas vezes é questão de fazer acontecer. De ter qualidade para jogar entre os grandes, ou então, ser o líder de um azarão que acaba surpreendendo a todos. Zé Carlos, por duas vezes, encontrou-se com a história nos gramados. E não há como se dizer que o meio-campista dependeu de qualquer sorte, longe disso. Havia muito talento, muita competência, muita dedicação. O passado do veterano fala por si. Ao longo de mais de uma década, envergou a camisa do Cruzeiro, honrando o manto celeste como poucos. Era parte fundamental dos grandes esquadrões da Raposa. Despediu-se da torcida já veterano, recordista em jogos pelo clube, em marca que se sustentaria até anos atrás. Quem imaginava que sua carreira entraria em declínio quando se mudou ao Guarani, contudo, quebrou a cara. Em Campinas, Zé eternizou um pouco mais seu nome, referência no time campeão brasileiro. Um gigante do nosso futebol, amado por duas torcidas apaixonadas. E que deixa saudades, ao falecer nesta terça, aos 73 anos.

José Carlos Bernardo nasceu em Juiz de Fora. A vida humilde no interior o levou a trabalhar desde cedo. Cotidiano duro que compartilhava com o futebol, sua alegria. Começou jogando em um pequeno time local até se juntar às categorias de base do Sport Club de Juiz de Fora. Era a oportunidade para se projetar nas competições do futebol local. O meio-campista chamava atenção e o Fluminense tentou levá-lo ao Rio de Janeiro, em negócio que não vingou. Teria, então, uma chance de se mudar ao Cruzeiro, a pedido do presidente Felício Brandi. Aos 21 anos, chegava a Belo Horizonte.

Zé Carlos juntava-se a um time jovem do Cruzeiro, mas que começou a demonstrar seu potencial a partir da conquista do Campeonato Mineiro de 1965. O novato ainda não era titular absoluto, entrando por vezes no meio-campo recheado por Piazza, Dirceu Lopes e Tostão, entre outros craques. Mas, graças ao seu talento, teria a “sorte” de já fazer parte de uma conquista histórica, a Taça Brasil de 1966, quando a Raposa desancou o Santos de Pelé na decisão. Zé Carlos não estava em campo no triunfo por 6 a 2, embora tenha participado da campanha e marcado seus gols. O protagonismo aumentaria a partir dos anos seguintes, em meio ao pentacampeonato mineiro.

A fase de Zé Carlos era tão boa que, a partir de 1968, ele começou a ser convocado para a seleção brasileira. Era escalado por Aimoré Moreira e fez parte das ‘Feras de Saldanha’ em março de 1970. O meio-campista se tornava um candidato claro à Copa do Mundo. Incansável, ajudava a preencher a faixa central com muito fôlego e classe, excelente na ligação entre defesa e ataque. Tinha boa colocação e trabalhava incansavelmente sua técnica, sobretudo o domínio e os passes. Além disso, apesar da maneira simples de atuar, tinha sua qualidade nos lançamentos e acumulava seus gols. E poderia se valer do entrosamento não apenas com Piazza e Tostão, mas também com Dirceu Lopes, que seguia convocado. Era o quadrado que embalava a massa celeste no Mineirão, mas se transformou em apenas uma aresta quando Zagallo não chamou Dirceu e Zé. Tinham nível para o tri no México, apesar do esquecimento. Em compensação, tiveram o Cruzeiro.

Zé Carlos ganhou praticamente tudo com o Cruzeiro nos anos 1970, frustrações e reclamações no Campeonato Brasileiro à parte. Foi tetracampeão mineiro mais uma vez. Voltou a ser convocado para a Seleção em 1975 participando da Copa América com Osvaldo Brandão – apesar de uma lesão recente que atrapalhou sua sequência. Já em 1976, viveu o ápice da carreira. A América do Sul ficou pequena para a Raposa, que conquistou a Libertadores pela primeira vez. Zé Carlos chegou a perder a posição em parte da campanha, mas retornou ao time e esteve em campo nos três jogos da decisão contra o River Plate, com a conquista consumada no duelo extra marcado em Santiago. Era um elenco coeso, principalmente pela maneira como superou a morte do companheiro Roberto Batata, em acidente automobilístico, durante o torneio.

O ápice, todavia, era o começo do fim para Zé Carlos. De fato, o meio-campista perderia espaço nos meses seguintes, sem exibir o vigor físico de outrora. Em 1978, encerrou sua passagem pelo Cruzeiro. Somou 633 partidas pelo clube, marca que o tornava um recordista até então, superada apenas pelo goleiro Fábio, e também 83 gols. Seu destino? Com o passe livre, escolheu o Guarani, que tinha certas dificuldades em montar a sua equipe e confiava no veterano como um dos pilares de novos tempos, sob as ordens de um treinador sem tanta experiência, Carlos Alberto Silva.

Quando o Guarani começou o Brasileirão de 1978, tinha apenas 15 jogadores profissionais. Precisou recorrer a garotos para completar o elenco. E dentro da realidade, Zé Carlos seria uma referência. Se o meio-campista não exibia o mesmo fôlego, a sua categoria permanecia intacta. Transmitia a tranquilidade ao restante dos companheiros, diante da façanha que se concretizava fase a fase. A tarimba do volante foi fundamental para os bugrinos peitarem tantos gigantes na campanha histórica. Compunha um trio excelente com Zenon e Renato, mais na contenção, permitindo as chegadas dos companheiros à frente. Ainda assim, os lançamentos do veterano valeram bastante aos campineiros, gerando vários gols para Careca. Aos 33 anos, o mineiro levantou a taça do Brasileirão.

Após deixar o Guarani, Zé Carlos rodou ainda por outros clubes. Defendeu Botafogo, Bahia, Blumenau, Maringá, Uberaba e Villa Nova. No próprio Bugre, iniciou a carreira como técnico nos anos 1980. E também teve sucesso na nova função, em especial no Criciúma. O ex-volante treinou o Tigre em seu segundo título estadual, o primeiro desde que deixou a alcunha de Comerciário. Mais do que triunfar no Catarinense de 1986, Zé interrompeu a sequência de oito títulos consecutivos do Joinville.

Entre o carinho do Guarani e a veneração do Cruzeiro, Zé Carlos seguiu sempre homenageado. Mas os últimos anos foram difíceis, enfrentando as sequelas de um acidente vascular cerebral. Nesta terça, aos 73 anos, faleceu. Fica a memória de alguém que sempre esteve pronto a fazer história. A categoria não se esquecerá.