Raríssimos são os jogadores na história da Internazionale que resumem tão bem o sentimento ao redor do clube quanto Javier Zanetti. O argentino chegou aos nerazzurri em 1995 e, desde então, se firmou como uma entidade em Milão. Tornou-se um ponto de referência na equipe, encabeçou a retomada das conquistas, virou capitão na maior temporada da história interista. Já nos últimos anos, mesmo após pendurar as chuteiras em 2014, dá sua contribuição nos bastidores ao exercer o cargo de vice-presidente. Permanece como uma certeza à torcida.

Nesta segunda, Zanetti assinou uma carta dedicada à Inter, publicada no site do clube. Ao longo do texto, o ídolo relembra alguns momentos marcantes, bons ou ruins, que culminaram na conquista da Tríplice Coroa em 2010. Mais importante, descreve sentimentos e reconstrói a caminhada que o levou ao posto de dirigente. Abaixo, traduzimos o artigo na íntegra. Uma bela maneira de transmitir conforto e esperança aos torcedores nerazzurri.

*****

O quarto árbitro já tinha sinalizado os três minutos de acréscimos, quando Julio Cruz pegou a bola. Eu sabia que tínhamos conseguido. Comecei a chorar. A montanha-russa de emoções, de dificuldades, de memórias e sofrimentos, tudo finalmente chegava ao fim. Eu me virei e disse a Walter Samuel: ‘Nós vencemos, a taça é nossa’. Walter não piscou os olhos: ‘Ainda restam três minutos, jogue a partida’.

Tempo. Eu aprendi a medir isso, a pesar isso, a sentir dentro de mim. Três minutos. Três minutos ou 5.382 dias? Desde o Inter x Vicenza em 1995. O apito final fez com que o tempo esticasse, comprimisse junto e então explodisse. No meu coração e no coração de milhões de torcedores da Inter.

Seus esforços valem menos se você perder? Não.

Eu trabalhava menos nos treinamentos, com menos intensidade, se as vitórias não viessem? Não.

Eu falhei em colocar todo o meu esforço ou energia? Já recuei? Não.

Na noite do dérbi pela Champions League de 2003 contra o Milan, cheguei em casa com Paula e ela estava angustiada. Foram duas semanas de tensão indescritível. Em Appiano Gentile, em Milão, entre as pessoas na rua, com amigos, em todos os lugares: a única coisa em minha mente eram esses dois jogos. Dois empates, eliminação. Deixamos tudo em campo. Tudo. Já tínhamos experimentado grandes decepções, mas o sentimento de decepção naquela noite foi profundo e doloroso.

Mas sempre fui uma pessoa positiva, o tipo de capitão que tenta transmitir uma mensagem clara a todos os seus companheiros de equipe: trabalho duro é recompensado. E, nesses momentos difíceis, você precisa ir novamente. Não desistir. Treino depois de treino, corrida depois de corrida: perseverar, cair e melhorar. Dê tudo de si, sempre. É difícil lembrar disso nesses momentos? Não, sempre acreditei nisso. Firmemente.

Você conhece a frase ‘ganhar ajuda você a ganhar de novo’? Quando Iván Córdoba ergueu a Coppa Italia em 2005, era como o troféu da Champions para nós. Algo importante começou ali, uma conscientização: estávamos no caminho certo, que poderia durar por algum tempo – por temporadas, anos. Chega o dia em que você diz: ok, não queremos perder mais. E, na verdade, fomos a Turim e ganhamos a Supercopa Italiana, em um jogo que parecia nunca ter fim.

Os acréscimos sempre parecem mais lentos enquanto você está vencendo, enquanto eles voam como o vento quando você precisa reagir. Mas, se você continuar acreditando até o fim, até o menor dos instantes será suficiente. Contra a Sampdoria, conseguimos mudar tudo em menos de seis minutos. Gol, bola no círculo central. Gol, bola no círculo central. Gol. Nada é impossível.

E então o tempo para. Faltavam quatro minutos para o fim do jogo fora de casa contra o Siena em 16 de maio de 2010, e demorou menos de dois segundos para o cruzamento fechado de Alejandro Rossi sair de sua chuteira e passar pelo segundo pau, batendo nele antes de entrar. Eu calculei: um segundo e oito milésimos. Julio Cesar nem se mexeu, estávamos todos congelados. Eu me virei para Maicon e o vi sem vida. Ele colocou as mãos no rosto, meu coração começou a bater de novo. O lance era inválido.

Essa foi uma final também, como todos os jogos no último mês dessa temporada. Mesmo para chegar lá, tivemos que passar…

Kiev. Eu ainda posso ouvir as palavras de José no vestiário durante o intervalo: “Estamos fora da Champions”. Arriscamos tudo. Chivu saiu, Balotelli entrou. Cambiasso saiu, Thiago Motta entrou. E então Samuel saiu, para Muntari entrar. Terminamos o jogo com apenas dois jogadores na zaga: Lúcio e eu. Mas foi um sinal: éramos uma equipe pronta para correr riscos, pronta para tudo dar certo no final. Em um momento estávamos fora, no outro Mourinho saiu correndo para abraçar Julio.

Eu, entretanto, estava correndo para abraçar meus companheiros no banco depois dos gols. Sempre pensei que aqueles que jogam menos são os mais importantes no grupo, sempre prontos para ajudá-lo nos momentos de necessidade.

Quanto mais próximo chegava maio de 2010, mais nos sentíamos como pilotos de Fórmula 1: não podíamos errar uma única curva. Estávamos sempre jogando, o treino era uma chance de manter nosso foco alto. Sempre conseguia dormir nas noites anteriores aos jogos, mas outros como Cambiasso tinham muito mais dificuldade.

Tenho tantas lembranças instantâneas daquele jogo em Madri que minha face se ilumina, um pouco como quando ergui o troféu. Quando saímos para aquecer e vimos os torcedores da Inter, eu mal pude acreditar: não existiam lugares vazios no estádio. Eu disse a mim mesmo: eles estão aqui por nós, não podemos decepcioná-los. Eles me mostraram fotos de Milão na entrevista depois do jogo. A Piazza del Duomo estava cheia, as pessoas encheram as ruas e estavam loucas de alegria. Isso me emocionou, porque percebi que minha felicidade, a felicidade de todos os meus companheiros, era secundária à alegria de todo o povo nerazzurro.

Você já viu um estádio aberto e cheio de pessoas ao amanhecer? Acho que o San Siro foi o exemplo mais extraordinário na história. Aterrissamos em Milão e fomos levar o troféu direto ao Meazza. Os torcedores esperaram por nós até as seis da manhã. Ainda me dá arrepios, eles nunca vão embora. Era alegria pura: nada tangível, apenas um abraço genuíno. Apenas para ser capaz de dizer: sim, finalmente é nosso. Voltar para casa foi um esforço em si, com a multidão escoltando nossos carros.

Sempre admirei a resiliência da torcida nerazzurra, sua habilidade de estar perto dos jogadores. A empatia, desde que cheguei, foi natural. Os torcedores da Inter são especiais: sempre lá, empurrando você, com um sentimento profundo que é bem fora do comum. Foi também por isso que, quando rompi meu tendão de Aquiles em Palermo, enquanto estavam me levando aos vestiários, pensei: ok, passarei pela cirurgia dentro de alguns dias, então começarei minha recuperação e, em meses, estarei de volta ao campo. Devo isso a mim e aos torcedores, precisamos de um adeus adequado.

Tinha 39 anos. Muitas pessoas pensaram que minha carreira havia chegado ao fim naquele dia. Nunca sofri uma lesão tão forte, mas não estava com medo, não fiz qualquer drama. Voltei ao trabalho, passo a passo, todo o caminho até o Inter x Livorno, meu retorno ao campo menos de 200 dias depois da lesão. O rugido das arquibancadas que me deu boas-vindas naquele dia fez todos os meus esforços finais valerem a pena. Quando voltei aos vestiários, disse: ok, essa será minha última temporada.

Tempo e amor formaram os dois eixos e coordenadas que traçam o caminho da minha vida. Eu me casei com Paula, que conhecia desde quando ela jogava pelo time de basquete do meu bairro na infância. Amava o futebol antes disso, desde quando costumava perseguir a bola nesses campos de terra na Argentina, gritando as narrações dos meus sonhos: seleção, Serie A. Costumava fantasiar, mas também queria retribuir os sacrifícios que meus pais fizeram por mim. Consegui concretizar a lição da minha família com a Fundación Pupi, com Paula: uma tentativa de dar um futuro melhor a muitas crianças.

Tenho três filhos: Sol, Ignacio e Tomas. Em alguns desses dias, passamos as tardes juntos no sofá, assistindo aos jogos de 2010. Vimos a vitória por 2 a 0 no dérbi e disse a Tomy, que realmente nunca me viu jogar: ‘repare no que Milito está fazendo agora’ ou ‘preste atenção nesta falta de Pandev’. Então, todos nós nos abraçávamos. Ele tem oito anos, está estudando nossa história.

Isso é importante, fundamental. Carrego isso comigo todos os dias, em tudo o que faço. Cheguei em 1995, com minhas chuteiras em uma sacola de plástico, e agora sou o vice-presidente deste clube. É uma jornada extraordinária, mas traz uma grande responsabilidade. Estudei, coloquei meu coração nisso, usei minha experiência e conhecimento para lidar com tudo que passa sobre minha mesa. É mais complicado do que quando eu tinha que correr atrás de uma bola, mas é enorme: ainda tenho a chance de trabalhar na construção do futuro deste clube em primeira mão.

Eu tento fazer isso pensando no mais valioso: os torcedores nerazzurri, nossa história, nossa camisa, o sofrimento e a alegria que experimentamos. Estou focado no futuro e quero que seja bonito para nós, os torcedores da Inter.

Vamos continuar construindo juntos.

Javier Zanetti