Nesta semana, duas seleções cancelaram seus compromissos contra a África do Sul durante a Data Fifa. Depois da Zâmbia desistir do amistoso contra os Bafana Bafana, Madagascar também optou por não encarar os sul-africanos. A decisão de ambas as federações reforça as preocupações com o caos social vivido na África do Sul desde o início do mês. O país enfrenta uma onda de ataques xenofóbicos e outros distúrbios violentos em cidades importantes.

A Zâmbia deveria enfrentar a África do Sul neste sábado, em seu próprio território, na cidade de Lusaka. Entretanto, a federação declarou sua preocupação após vandalismos realizados contra lojas estrangeiras em Joanesburgo e Pretória. O receio era de que o jogo motivasse outros ataques a residentes zambianos na África do Sul. Mais de 90 mil imigrantes de Zâmbia vivem nas cidades sul-africanas.

Madagascar substituiria os zambianos, em partida remarcada para Joanesburgo. Sua federação também preferiu voltar atrás na ideia, depois de uma consulta a outros organismos nacionais. Segundo nota publicada pelos malgaxes, eles preferiram recusar o convite para preservar a segurança de sua delegação e também de sua população em território sul-africano.

Ao longo dos últimos anos, a África do Sul viveu outras ondas de violência contra estrangeiros. Os maiores ataques aconteceram em 2008, quando a revolta provocou mais de 60 mortes. A falta de melhores condições de emprego, consumo e moradia, bem como o sentimento de superioridade em relação a outra nações africanas foram apontadas pelo Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas da África do Sul como principais motivações àqueles ataques. Um sentimento de ódio que se renovou em outros atos desde então, provocando mais mortes.

Os atuais tumultos, iniciados no último domingo, deixaram ao menos sete pessoas mortas em Joanesburgo. Os ataques foram direcionados principalmente contra estrangeiros de outros países africanos, sobretudo da Nigéria e de Zâmbia. Cerca de 50 lojas de proprietários estrangeiros foram destruídas durante os incidentes, assim como uma mesquita acabou atacada. A polícia sul-africana prendeu 189 pessoas entre 1° e 3 de setembro. Há uma percepção de que o aumento de negócios conduzidos por estrangeiros tem levado à ruína os comércios locais.

Presidente da Associação de Futebol Sul-Africana (SAFA), Danny Jordaan pediu o fim da violência no país. O dirigente comparou os episódios recentes com os boicotes sofridos durante o Apartheid. “Os jogos contra Zâmbia e Madagascar foram cancelados como resultado da violência. Como uma federação, um país e um povo, precisamos enfrentar isso. Nunca devemos nos extrair do continente africano. Nosso destino e nosso futuro estão ligados à África”, apontou Jordaan.

A África do Sul deveria promover a estreia de Molefi Ntseki, seu novo treinador, durante a Data Fifa. Diante da inviabilidade, a primeira partida do comandante será adiada para outubro. “Os jogadores vieram dos clubes locais e de outros países. Estão treinando e precisam lidar com o senso de desapontamento por não podermos ver o time sob as ordens do novo treinador”, complementou o cartola. Neste momento, o futebol é um assunto secundário, dentro de preocupações bem maiores aos sul-africanos e aos estrangeiros residentes no país.