* Por Bruno Rodrigues, de Montevidéu

Agustín Lucas tem 29 anos e é jogador profissional de futebol no Uruguai. Contudo, mesmo sem nunca ter vestido as camisas de Peñarol, Nacional ou da seleção uruguaia, o zagueiro do Liverpool-URU, atualmente na segunda divisão nacional, é um dos atletas mais influentes e engajados do esporte local. Suas pretensões de mudança, porém, transcendem as quatro linhas: Agustín quer ajudar a mudar a sociedade.

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No último mês de outubro, em que se votou via plebiscito pela redução da maioridade penal no país (de 18 para 16 anos), o defensor foi peça importante da “Comissão Nacional No a la Baja” (algo como Comissão Nacional do Não à Redução), grupo apartidário que se posicionou contra a medida e contribuiu para que o plebiscito não atingisse a porcentagem necessária de votos. O zagueiro colaborou ativamente para o marketing esportivo da campanha, que teve sucesso ao angariar o apoio de jogadores de Nacional e Peñarol, e até do técnico da Celeste, Óscar Tabárez.

“O jogador é mais um ator na cidade. Tem suas particularidades como o advogado, o mendigo e o taxista. Às vezes não se dá conta da força social que pode vir a ter, mas me parece que é uma questão de educação. Faltam docentes no futebol”, opina Agustín, que simpatiza com o governo de esquerda do presidente José Mujica e acredita no futebol como ferramenta essencial para melhorar a realidade do Uruguai. “Que o futebol não nos use, mas sim que usemos o futebol”.

Para o veterano, o fato de disputar hoje a segunda divisão não torna a sua participação política e social mais fácil em comparação com profissionais da elite, por exemplo. Ele constata que só não há um número maior de atletas se expressando sobre diversos assuntos por conta do medo. “Há um pouco de medo porque nos criamos em sociedades do medo. Em todos os ambientes de trabalho. Aquele que fala ou que se queixa fica mal visto. Sebastián Fernández e o “Japo” Rodríguez (de Nacional e Peñarol, respectivamente) deram a cara e participaram (da campanha contra o plebiscito). Essa geração que disse não à redução fez bem ao Uruguai. O jovem voltou a ter voz e voto, e com muita força. Esse é o caminho”.

E não é apenas pelo engajamento político que Agustín Lucas foge ao estereótipo do boleiro. Quando não está em campo defendendo seu clube, o zagueiro veste outra camisa: a da paixão pela literatura, especialmente pela poesia.

Escritor, poeta e ‘biógrafo’ de são-paulino

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A paixão de Agustín Lucas pela literatura, de acordo com ele, surgiu naturalmente. “É uma forma de viver, assim como jogar futebol também é. Uma pessoa é o que ela come, mas também o que ela lê”, afirma o jogador do Liverpool.

Em 2007, o zagueiro se lançou como escritor com o livro ‘No todos los dedos son prensiles’ e, desde então, já publicou mais de três obras. Entretanto, o futebol tem pouco protagonismo em seus livros, aparecendo majoritariamente nos escritos de seu blog, chamado Tapones de Fierro. “Talvez as questões cotidianas sejam um golpe de inspiração distinto ao do futebol. Pode ser que tenha me inspirado com o futebol depois que eu senti muita falta dele, em um momento no qual estive lesionado. Escrever sobre o cotidiano é também uma fuga, assim como o treinamento e o vestiário são uma fuga do cotidiano”, diz.

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Durante sua passagem pelo Comunicaciones, clube da terceira divisão argentina, Agustín iniciou estudos para se tornar jornalista. Hoje de volta ao Uruguai, o jogador não tem conseguido se dedicar à vida acadêmica, mas busca colaborar com veículos para manter a prática em dia. Outra vertente que agrada ao zagueiro é o cinema, campo que explorou na tentativa de dirigir uma biografia do amigo Álvaro Pereira, lateral-esquerdo do São Paulo e da seleção uruguaia.

Agustín e Álvaro começaram a carreira juntos no Miramar Misiones, onde compartilharam vestiário nas categorias de base e também no profissional. O projeto biográfico tem até trailer na internet e pode ser conferido no Youtube sob o título “El hermano de Pelé” (Pelé era como chamavam o irmão mais velho de Álvaro, Alejandro). Contudo, por falta de verba, o filme acabou ficando para trás, mas Agustín ainda sonha em finalizá-lo. “Fizemos as gestões para conseguir o dinheiro, mas não tivemos sorte. Quem sabe em algum momento retomamos. Qualquer momento será bom para contar a história do Palito”, pensa o amigo do lateral tricolor.

Um Paulo André ‘charrua’?

Não é só o fato de serem zagueiros que aproxima Agustín Lucas de Paulo André, ex-atleta do Corinthians – atualmente no Shanghai Shenhua, da China. Líder do Bom Senso FC, o brasileiro, assim como o uruguaio, sempre buscou se posicionar publicamente com relação a questões da estrutura do futebol e até mesmo da sociedade brasileira. Além disso, ambos usam a escrita para colocar, cada um em sua respectiva página na internet, alguns de seus pensamentos.

Agustín, porém, admite não conhecer o ex-Timão nem o Bom Senso, mas crê que a comparação entre ambos é válida e diz que irá buscar informação sobre o movimento dos jogadores brasileiros. “É necessário fazer algo desse tipo no Uruguai também”.

O sonho do uruguaio pelas mudanças esportivas e sociais caminha junto do desejo de vestir, um dia, a camisa do Nacional de Montevidéu, seu time de coração. Apesar de afirmar não ser uma obsessão, diz que pensar de vez em quando nessa possibilidade é algo que lhe “gera adrenalina”.

“O foco é estar bem e feliz. O problema é quando se perde esse foco. O resto, o futebol e a poesia, são os meios para essa felicidade”, conta Agustín Lucas, o poeta, escritor, jogador de futebol e cidadão uruguaio.