O Atlético de Madrid de Diego Simeone se consagrou como um time que marca como poucos no mundo. O time dá poucos espaços e conseguiu ser uma das melhores defesas do mundo, discutivelmente a melhor, nos últimos anos. Mas não é o caso desta temporada. O time vem mal em La Liga, cambaleante, sem conseguir mostrar a consistência defensiva de antes e nem o ataque mais criativo que se esperava. Só que nesta terça-feira, pela Champions League, o time pareceu renascido. Diante do atual campeão, Liverpool, venceu por 1 a 0 no Wanda Metropolitano em um jogo que o visitante sentiu como se estivesse com mãos e pés atados. E leva uma vantagem para Anfield, pequena, mas importante.

Foi um reencontro do Liverpool com o estádio Wanda Metropolitano, onde conquistou o título da Champions League na temporada passada. Dos 11 titulares, só um não estava em campo naquela decisão: Joe Gomez, que substituiu Joel Matip, que se machucou ao longo da temporada. Nesta terça-feira, o camaronês estava no banco. Gomez tem atuado bem e ganhou a vaga no time. Até por estar fisicamente mais inteiro.

Os gols mudam o jogo a qualquer momento que são marcados, mas neste jogo, particularmente, essa foi uma diferença muito grande, até por uma questão de estratégia. Logo no começo, aos quatro minutos, o Atlético de Madrid conseguiu algo importantíssimo: abrir o placar. Renan Lodi fez a jogada pela esquerda, entortou Alexander-Arnold, e conseguiu o escanteio. Depois de cobrança de escanteio de Koke, a bola resvalou em Fabinho, foi para trás e sobrou para Saúl Ñíguez, que tocou para o fundo da rede. Gol dos Colchoneros no Wanda Metropolitano.

O Atlético de Madrid chegava menos ao ataque, mas era mais perigoso. Em um dos ataques, lançamento por cima que Van Dijk afastou mal, Morata recebeu dentro da área, fintou Fabinho e chutou, para defesa do goleiro Alisson. Um lance de bastante perigo. Logo em seguida, a torcida do Atleti ficou com coração na mão. Oblak saiu jogando errado, tocou a bola no pé de Salah, que tocou para Firmino. O brasileiro, impedido, devolveu para Salah colocar na rede. A arbitragem anulou, um lance muito claro de impedimento.

O Liverpool mantinha a posse de bola, tocava bem, mas sentia dificuldades para quebrar as linhas defensivas do time da casa. E chegou a ter uma outra boa chance com jogada pela esquerda, que acabou em uma finalização de Salah, no meio da área. Ele chutou bem, mas Felipe, o zagueiro brasileiro, estava bem posicionado e tirou de cabeça, bloqueando o chute.

O primeiro tempo acabou com o Liverpool tendo 76% de posse de bola, 24% para o Atlético. Em chutes, se percebe que a posse da bola não significou muita coisa. Foram quatro chutes a gol do Atlético, com dois deles no alvo. O Liverpool só chutou três vezes e nenhum chute no gol. Mesmo tendo pouco a bola, os Colchoneros foram mais perigosos. Desde que Klopp chegou ao Liverpool, nunca houve um tempo que o Liverpool deu tão poucos chutes a gol.

Saúl comemora seu gol pelo Atlético de Madrid contra o Liverpool (Reprodução)

No intervalo, Simeone tirou Thomas Lemar e colocou Marcos Llorente. No Liverpool, Klopp tirou Sadio Mané e levou a campo Divock Origi. Llorente passou a jogar pela direita e Koke ficou aberto na esquerda. O desenho tático continuou sendo o 4-4-2.

Sabendo que precisava do gol, o Liverpool tentava encontrar espaço. Buscava tabela pelo meio, forçando as jogadas e tentando criar algo. Mas o espaço era mínimo. Encontrar espaço para finalizar era um desafio. O Atlético de Madrid defendia seu território de maneira voraz. Só que continuava sendo perigoso no ataque.

Aos 21 minutos, uma bola colocada nas costas de Alexander-Arnold para Renan Lodi. O brasileiro levantou a cabeça, viu bem o atacante Morata no meio da área e cruzou rasteiro. Morata armou o chute, mas escorregou. Perdeu a chance de uma finalização perigosíssima. O escorregão certamente será lamentado não só pelo camisa 9, mas por todo o estádio.

Logo depois, Simeone sacou Morata e colocou Vitolo. Assim, o ataque ficou com dois jogadores mais rápidos, com Ángel Correa ao lado de Vitolo. Em um jogo que tem muito menos a bola, normalmente em velocidade, parecia uma estratégia lógica.

O Liverpool conseguiu uma finalização perigosa aos 27 minutos da etapa final. Em jogada pela direita, a bola foi cruzada e Henderson chegou finalizando, sem muito espaço, mas tocando com perigo para fora. Sem conseguir furar na habilidade, Klopp mudou de novo. Saiu Salah para a entrada de Alex Oxlade-Chamberlain. No Atlético, pouco depois, Simeone trocou Ángel Correa por Diego Costa, que voltava de lesão.

Com 34 minutos, Henderson sofreu uma entrada dura e acabou substituído. Entrou James Milner. O Liverpool jogava da intermediária para frente, tocando a bola, buscando um espaço no bloqueio do Atlético, que parecia intransponível.

É difícil que o Liverpool passe um jogo todo sem fazer um gol. Mas e sem chutar uma vez no alvo? Isso ainda não tinha acontecido com Jürgen Klopp no comando do time. E isso não é uma coincidência. O time de Simeone parecia determinado a tornar a vida dos Reds muito complicada. Se você está desenhando uma retranca que o time é pressionado ou bombardeado, está enganado: o Atlético de Madrid foi o melhor time em campo, não só na defesa, mas no ataque também.

Curiosamente, os atacantes do Atlético não foram tão bem. Em compensação, Thomas Partey foi um monstro no meio-campo. Marcou muito, correu demais e foi capaz de tirar os espaços de todas as formas. Saúl Ñíguez, autor do gol, também fez boa partida. Nem Thomas Lemar, nem Koke conseguiram ter uma boa partida. Renan Lodi foi o melhor do jogo, dando muito trabalho para Trent Alexander-Arnold.

O Atlético de Madrid irá a Anfield Road para defender a vitória por 1 a 0. Poderá se classificar com qualquer empate e ainda leva para a Inglaterra a chance de poder fazer um gol e, assim, obrigar o Liverpool a fazer três, pela regra de gols fora de casa como desempate. Uma derrota dos Colchoneros por 2 a 1 no lendário estádio inglês ainda classificaria o time de Simeone. Até lá, é possível que Diego Costa esteja mais recuperado e ele pode fazer mais diferença que Morata.

O Liverpool sabe o que precisa fazer em casa e já fez mais do que o suficiente nesta temporada para provar que é capaz. Ainda assim, seria inocente por parte de Klopp e qualquer jogador do Liverpool achar que o Atlético de Madrid irá perder sem uma luta.

A distância percorrida pelos dois times, segundo o site da Uefa, mostra um pouco do trabalho do Atlético em campo. Foram 113,2 quilômetros do Atlético, 107,8 quilômetros pelo Liverpool. Uma diferença não tão grande, mas suficiente para mostrar que o time de Simeone come grama, se necessário for. E considera como banquete. Precisará fazer o mesmo fora de casa, o que tende a ser mais difícil. De qualquer forma, o time mostrou que não eram favas contadas.