A vibração de Joachin Löw após o jogo é sintomática. Mesmo com a goleada definida, o técnico da seleção alemã comemorou os gols de André Schürrle e Mario Götze, que decretaram a vitória por 6 a 2 de seus comandados sobre a Áustria. Mais do que o triunfo sobre um rival histórico que hoje está com o futebol em frangalhos, o resultado representou para o Nationalelf a classificação para a Eurocopa 2012 com duas rodadas de antecipação e um pé nas costas. Ainda mais do que isso, é uma vitória de uma aposta ousada na juventude, de uma filosofia de trabalho que nem sempre é bem-sucedida, mas que tem mostrado ótimos resultados nas mãos de Löw.

A campanha alemã no torneio fala por si só. Em oito jogos, foram oito vitórias, com 28 gols marcados e apenas cinco sofridos. No total, são 24 pontos conquistados contra 14 da Turquia, segunda colocada, e 12 da Bélgica, que ocupa a terceira posição. Dois adversários respeitáveis, qualificados e que derrubam a tese de que os alemães só enfrentaram “galinhas mortas” na chave. Esse papel coube apenas a Áustria, Azerbaijão e Cazaquistão, os três já eliminados da disputa.

O maior mérito de Löw, no entanto, não foi apenas vencer. No decorrer das partidas, o técnico foi comandando um processo de renovação que integrou jogadores outrora desconhecidos no país ao time, como os já citados Götze e Schürrle. Outros nomes qualificados, como Mats Hummels e Benedikt Höwedes, também começam a tomar conta da zaga, assim como Denis Aogo e Marcel Schmelzer já lutam por um lugar na lateral esquerda, que foi o principal problema do time na Copa do Mundo de 2010, uma espécie de “parque de diversões” dos adversários, onde a Sérvia criou a jogada de ataque do gol da vitória por 1 a 0 na primeira fase e a Espanha fez a festa em alguns momentos da semifinal.

Com a chegada desses jogadores ao time, a conclusão mais óbvia é a de que o elenco fica fortalecido em relação à Copa do Mundo. Basta lembrar que, quando Thomas Müller estava suspenso na supracitada partida contra a Espanha, pelas semifinais, todos no país entraram em pânico, pois o substituto natural era Piotr Trochowski. E tinham razão, pois Trochowski não jogou nada, não viu a cor da bola e praticamente encerrou sua história na seleção ali. Hoje, entraria André Schürrle, que corre o risco de ser até melhor do que o próprio Müller, ou poderia entrar Götze, que já é melhor do que ambos. Um grande progresso feito em apenas um ano.

No ataque, a diferença também é boa, mas não em função de jogadores. Hoje, Miroslav Klose perdeu o lugar para Mario Gómez, mas não para o troglodita apático da Copa do Mundo de um ano atrás, e sim para o atual artilheiro da Bundesliga, jogador que tromba com zagueiros e não cai, capaz de fazer grandes lambanças e grandes golaços. Mas, se a fase de Gómez mudou para melhor, o momento de Klose não muda na seleção alemã. Faça chuva ou sol, ele sempre faz seus golzinhos, como fez contra a Áustria, e o fato é que, se tinha apenas um atacante confiável, os alemães agora possuem uma opção confiável e outra em grande fase (exceto o jogo do Brasil, claro) para escalar.

Entre os goleiros, a fartura ainda é maior. Em coluna recente, falei sobre os oito sub-23 que são titulares em clubes alemães, e um deles, Ron-Robert Zieler, foi convocado com justiça por Löw para a partida contra a Áustria e para o amistoso contra a Polônia, que terminou empatado por 2 a 2 – jogo festivo, no qual a Alemanha jogou com os reservas -. Zieler, que renovou recentemente com o Hannover 96 e ganhou um bom aumento salarial, é apenas um deles. Outro que também foi recompensado com uma boa melhora no contracheque foi Marc-André ter Stegen, do Borussia Mönchengladbach, que tem apenas 19 anos e já esbanja talento e segurança.

Diante de todas essas boas opções, só há como concluir que um número ainda maior de jovens jogadores poderá ocupar esse espaço no Nationalelf, tamanha é a qualidade feito por lá. Opções “na fila” como Sebastian Rudy, Ilkay Gündogan, Marco Reus, Kevin Grosskreutz e Sidney Sam, só para citar os meias, indicam que os alemães não sofrerão com problemas para repor os já consagrados titulares do Nationalelf sem que o time perca em qualidade. E é bom a Espanha se cuidar, pois a hora da revanche se aproxima.

Magath x Schalke 04

Após as partidas entre seleções, a Bundesliga terá prosseguimento neste fim de semana com a quarta rodada. No domingo, na Volkswagen Arena, acontece o esperado confronto entre o Wolfsburg, de Felix Magath, e o Schalke 04, seu ex-time até o início de 2011. Mais precisamente, é o duelo de Magath contra Raúl, atacante que chegou aos azuis reais na temporada passada – Magath já o definiu como “a maior contratação de minha carreira” – e que quase saiu do clube na última janela, pois Ralf Rangnick parecia não fazer muita questão da presença dele no time.

Rangnick, no entanto, mudou de ideia e hoje vê Raúl como fundamental no esquema tático da equipe, que já soma nove pontos em três jogos e ocupa a vice-liderança da competição, atrás do Bayern Munique apenas no saldo de gols. Os Lobos, que somam apenas três pontos e ocupam a 15ª posição na tabela, passam por um momento conturbado e não reúnem muitas perspectivas de melhora, pois Magath não tem muitas opções confiáveis à disposição. Ou alguém realmente acha que Thomas Hitzlsperger e Alexander Hleb possam fazer a diferença em algum momento.

Caso Markus Miller

O goleiro Markus Miller, do Hannover 96, anunciou no início dessa semana que irá fazer um tratamento psicológico, alegando exaustão mental. O clube, que já passou pela experiência do suicídio de Robert Enke (que tinha depressão), afirmou que dará total apoio ao jogador, de 29 anos. O técnico da equipe, Mirko Slomka, classificou a decisão de Miller como “muito corajosa” e o debate sobre a necessidade de psicólogos nos clubes do país se intensificou bastante, sobretudo nos meios de comunicação.

Longe de se fazer qualquer julgamento sobre a necessidade ou não do tratamento, não vejo como não concordar com Slomka. De fato, foi uma decisão corajosa expor isso em público. E de fato não há como prescindir de um psicólogo em um ambiente tão competitivo como o futebol, no qual cobranças e sacrifícios físicos feitos diariamente podem levar de fato à exaustão mental. O debate, assim como o tratamento, é válido, e pode ajudar outros jogadores que venham a sofrer do mesmo problema.