“Frustrante” e “doloroso” foram as palavras escolhidas por Granit Xhaka para descrever o momento em que seu número apareceu na placa eletrônica do quarto árbitro, no empate por 2 a 2 contra o Crystal Palace, no final de outubro, e a própria torcida do Arsenal comemorou. O volante suíço reagiu, colocou ironicamente a mão na orelha, tirou a camisa e saiu direto para os vestiários. Desde então, recebeu ofensas pessoais e perdeu o posto de capitão do time.

Prestes a defender a Suíça contra Georgia e Gibraltar, Xhakha deu sua primeira entrevista após o incidente – havia se manifestado apenas por meio de uma nota oficial -, ao jornal suíço Sonntags Blick, e afirmou que, apesar de tudo, e das especulações de que pode sair do Arsenal em janeiro, está preparado para lutar e provar que pode ser importante para o time de Unai Emery. Xhakha ainda não voltou a campo desde a partida contra o Crystal Palace.

“Eu não consigo entender uma reação como aquela mesmo agora, especialmente a veemência dela e a extrema hostilidade dirigida a mim”,  disse. “Quando o quarto árbitro levantou a placar, e os meus próprios torcedores entraram em um alegre júbilo, foi muito doloroso e frustrante. Desde que eu me conheço por gente, os torcedores são parte do meu esporte. E desde o começo, sempre respeitei os torcedores e as dificuldades pelas quais eles passam para nos apoiar. A crítica, quando é justa, faz com que você cresça como atleta”.

“E o poder e a energia que eles contribuem para o jogo faz com que cada atleta ame o futebol mais ainda. Eu me sinto parte da grande família do futebol. Mas, em um momento em que você já está enfrentando muita hostilidade, e sua própria família do futebol o insulta, machuca muito. Não quero dizer que não aceito críticas. Se o time e eu não estivermos jogando bem, temos que ouvir e trabalhar nisso. Mas insultar e xingar o seu próprio capitão causará chateações e uma atmosfera ruim para o time que você deveria estar apoiando. Isso não faz sentido para mim e enfraquece o espírito da equipe”.

“Depois de um começo difícil no Arsenal, eu passei a jogar bastante e, no geral, tenho tido uma ótima passagem por aqui. Minha família e eu nos sentimos muito bem na cidade de Londres. Os eventos daquela semana não mudam isso. Eu continuarei mantendo uma postura positiva, dar o meu melhor e provarei que sou uma parte importante deste grande time. Você pode ter certeza que continuarei lutando e me esforçando em cada sessão de treino. Eu sinto que semana passada (o incidente ocorreu em 27 de outubro) ficou para trás e estou pronto”, completou.

Quando há um caso como este, com fortes insultos a jogadores de futebol, que atingiram até a esposa e a filha de Xhakha, uma reação comum é afirmar que, pelo alto salário que ganham, eles deveriam tolerar as reações exageradas dos torcedores.

“Para mim, as duas coisas são completamente diferentes. E não é uma permissão para insultar. Todo mundo deveria praticar respeito e decência em relação aos seres humanos e usar a crítica corretamente, independentemente do status ou da renda. Como membro de um time, eu sempre tive consciência da minha responsabilidade ao clube e aos torcedores e sempre tratei todos os torcedores em Londres com educação, reservando tempo a todos eles”, disse.

“Não haverá outra versão em relação a isso e sempre me comportei dessa forma desde que me coloquei na opinião pública. E, se eu receber críticas construtivas, ou mesmo mais insultos veementes, tentarei lidar com eles com calma e objetividade. Como eu disse: se eu jogar mal, tenho que lidar com isso. Eu sei disso muito bem, da época de Basel e do Monchengladbach. Mas o que aconteceu aqui foi anormal e excessivo e não há justificativa”, disse.

Xhakha acredita que as redes sociais podem ser uma boa plataforma para se conectar com os torcedores, mas que também funcionam como uma faca de dois gumes. “O que começou como uma espécie de boletim entre amigos está se tornando um fórum para as pessoas que querem insultar as outras. Sem nenhuma consequência, você pode difundir ódio contra pessoas privadas ou pessoas da esfera pública, como músicos, atores e também atletas, se eles tiverem uma opinião ou um desempenho que você não goste”, disse.

“As regras comuns de decência e respeito obviamente não são mais válidas para muita pessoas. Para mim, as plataformas oferecem uma chance de permitir que os torcedores sejam parte da minha carreira atlética e da minha vida privada, que eles me sigam, na acepção da palavra. O que costumava ser cartas de torcedores agora é muito mais atualizado e próximo da nossa vida, graças ao Instagram e todo o resto”.

“Acho que isso é ótimo, mas esta oportunidade é uma faca de dois gumes, como aprendi agora. Realmente há pessoas que têm como hobby insultar os outros todos os dias. Isso chega a acontecer com coisas que você nem fez. As pessoas estão me xingando por como eu joguei no último fim de semana, mas eu nem estava em campo. É uma loucura”, encerrou.