Xavi: “Quero voltar ao Barcelona, mas não pode haver nada tóxico perto do vestiário”

Meio-campista, ídolo do Barcelona, foi sondado para substituir Valverde, mas clube acabou escolhendo o experiente Quique Sétien

Um dos grandes ídolos da história recente do Barcelona, o meio-campista Xavi é um conhecido defensor da escola barcelonista de jogar futebol. Depois de encerrar a carreira como jogador no Al Sadd, do Catar, se tornou treinador do clube. E continua sonhando em voltar ao Barcelona, agora como técnico, algo que ficou perto de acontecer no fim do ano, quando Ernesto Valverde foi demitido e representantes do clube foram sondar o ex-jogador. O próprio jogador disse na época que era cedo demais.

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Depois, outras informações chegaram e mostraram que a situação teve mais elementos. Xavi tinha condições para assumir o comando do clube. E isso incluía muito poder para tomar decisões no departamento de futebol. Isso os dirigentes não quiseram dar e isso foi um ponto crucial para que as partes não chegassem a um acordo. E uma entrevista ao Marca mostrou que o ex-jogador de fato queria ter poder para tomar decisões duras, o que os dirigentes atuais do Barcelona não pareciam estar dispostos – até porque Xavi ainda é um novato no cargo.

O atual técnico do Al Sadd conta que conversava com Johan Cruyff, que morreu em 2016, sobre uma possível volta ao clube da Catalunha. O catalão deixou o Barcelona ao final da temporada 2014/15, quando o time conquistou simplesmente todos os títulos, a chamada tríplice coroa: Copa do Rei, Campeonato Espanhol e Champions League. “Ele me dizia que viriam me buscar e me dava conselhos. Se o futebol é uma religião, ele foi seu deus”, disse o meio-campista que se tornou um símbolo da era Guardiola no clube.

Xavi deixou claro que quer voltar ao Barcelona como técnico, mas terá que ser nas suas condições. “Eu tenho claro que quero voltar ao Barcelona, estou muito empolgado. Anos atrás, poderiam ter um certo respeito, mas agora que me viram treinando, acredito que posso trazer coisas aos jogadores. Mas deixei claro a eles que eu me via em um projeto que começava do zero, e em que a tomada de decisão fosse minha”, disse em entrevista ao La Vanguardia.

As negociações frustradas para o seu retorno ao clube não deixaram Xavi incomodado. “Não tenho nenhum problema: não me escondo, nem me retrato. Eu gostaria de trabalhar junto com as pessoas em quem tenho confiança, com quem tem lealdade, e que são gente muito competentes. Não pode haver nada tóxico perto do vestiário”, disse o ex-jogador.

Xavi já tem claro alguns nomes com quem quer trabalhar, como Carles Puyol e Jordi Cruyff, que atualmente é técnico da seleção do Equador. “Sou muito de equipe; não quero decidir sozinho. Aqui, as decisões tomamos com a equipe. É uma estrutura horizontal, de consenso. Embora a última palavra seja minha”, descreveu.

“Eu gostaria de ter muita sintonia com todo mundo. No vestiário não pode ter nada negativo, tóxico, e o tema médico é importante… Tudo tem que se encaixar. Eu gostaria de entrar com gente do meu entorno para formar uma boa equipe”, contou Xavi.

Xavi ainda avaliou muitos jogadores do elenco e até outros que não estão, mas podem voltar. “Grande parte do elenco é extraordinário. Começando pelo goleiro, que me parece ser o melhor do mundo; Jordi Alba, para mim, é o melhor lateral esquerdo do mundo; Piqué, o melhor zagueiro do mundo; Sergio Busquets, melhor meio-campista do mundo; e Messi, o melhor jogador do mundo. E se somar a eles [Luis] Suárez, a [Frenkie] De Jong e Arthur, me parecem jogadores para triunfar mais 10 anos no Barcelona. A base é muito boa. Eu contrataria pontas, como Neymar – não sei se se encaixaria pelo tema social, mas futebolisticamente não tenho dúvidas que seria uma contratação espetacular; o Barcelona tem jogo por dentro… Mas faltam extremos, como o Bayern. Não precisa de muitos novos; Jadon Sancho, Serge Gnabry…”.

Um outro tema comentado pelo jogador foi a seleção espanhola. Catalão de nascimento, Xavi sempre foi uma pessoa que vocalizou as questões das Catalunha com o governo central da Espanha. Isso, porém, não o impediu de defender com afinco a camisa da seleção da Espanha. “O tema político e as injustiças me incomodam, mas não tem nada a ver. Por toda a vida eu quis ir para a seleção e com muita honra. Eu só me pronunciei a favor da liberdade das pessoas, não contra a Espanha. Me parece uma injustiça que as pessoas não tenham podido voltar em um referendo legal”, questiona Xavi.

Se as questões políticas na Catalunha parecem incomodar Xavi, quando se trata do país que ele vive atualmente, esse tipo de questão não parece ser um problema. “Há preconceito contra a cultura árabe. Não defendo uma ditadura. Para nada. Me criticam muito pela questão dos direitos humanos… Mas eles mesmos fazem uma autocrítica. Cada vez têm mais consciência de que certas coisas precisam ser suprimidas, mas precisam de tempo. Há temas indefensáveis, como a falta de liberdade de imprensa e o respeito à homossexualidade, mas tem muitas coisas muito positivas”, concluiu o ex-jogador.

Xavi é um seguidor de Cruyff e é um defensor do barcelonismo como um modo de jogar. O ex-jogador é até radical na sua maneira de ver o jogo. Será um desafio para Xavi, um ídolo, encarar o desafio de comandar o Barcelona. Isso parece inevitável que aconteça em algum momento. Não ter sido neste momento de fervura do Barcelona, em um time cheio de problemas, talvez tenha sido bom para os dois lados. Quando esse reencontro voltar a acontecer, talvez os dois lados estejam em condições melhores.