Xavi foi o melhor tradutor de uma linguagem que encantou e dominou o futebol

Ninguém expressou tão bem as ideias de Cruyff e Guardiola em campo quanto o próximo treinador do Al Sadd

Guardiola Confidencial compara o processo de compreensão da maneira como Guardiola pensa futebol a aprender um idioma, o “método que permitirá expressar a ideia no campo de jogo”. A ideia é a de Cruyff: ter a bola. Sempre ter a bola. No Barcelona, todos nascem falando essa língua, ao contrário de, por exemplo, no Bayern de Munique, clube no centro do relato da obra de Martí Perarnau. E se o guardiolismo é uma linguagem, ninguém soube traduzi-la melhor do que Xavi Hernández.

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A trajetória de Xavi no futebol, encerrada nesta segunda-feira com a derrota do Al Sadd para o Persepolis, pela Champions League da Ásia, foi revolucionada pela ascensão de Pep Guardiola como técnico do Barcelona. Era um jogador importante e identificado com o clube, que compensava as ausências de atributos físicos e habilidades particularmente especiais, além do excepcional passe, com muita inteligência, mas ainda não havia aparecido alguém que soubesse potencializar ao máximo o que ele era capaz de fazer.

Em uma entrevista ao Marca, em 2015, Xavi contou que os questionamentos ao seu futebol foram muito duros no começo da sua carreira. “Não acreditavam em mim, nem na filosofia do Barça. Pensava que mais cedo ou mais tarde precisaria deixar o clube porque ninguém acreditava em mim”, contou. As coisas melhoraram a partir de meados de 2003, mas o verão europeu de 2008 apresentou-lhe uma encruzilhada.

A temporada não havia sido das melhores para ele e nem para o Barcelona. Enquanto preparava-se para disputar a Eurocopa, ponderava se deveria deixar o clube em que nasceu para respirar novos ares. Eis que duas coisas aconteceram quase ao mesmo tempo e mudaram os rumos de sua vida: a Espanha foi campeã europeia, com um estilo de jogo que guarda algumas semelhanças com o barcelonismo, embora fosse mais vertical e direto, mas que se transformaria em um tiki-taka ainda mais extremo uma vez que Del Bosque assumisse. E Guardiola foi nomeado treinador do Barça.

“Na Euro de 2008, chegou a mim a informação de que o Barcelona queria me vender. O Real Madrid ganhava e nós não. Fui para a seleção sabendo que, se chegasse uma boa oferta por mim, o clube me venderia. Falei com meu agente, que me contou de uma proposta do Bayern. Mas aí promoveram Guardiola e conseguimos uma grande Eurocopa. Pep me disse para não ir embora, que não imaginava a equipe sem mim e que eu iria gostar. Aquilo me conquistou”, disse.

O casamento foi perfeito. O sucesso de Guardiola talvez demorasse mais se ele não tivesse imediatamente em mãos um jogador tão bem versado na sua ideia de futebol quanto Xavi, não apenas alguém que dominava aquela linguagem, mas que também se tornaria o mais intransigente defensor de que a única maneira de expressar o futebol é por meio dela. Em Xavi, Guardiola encontrou sua própria imagem: embora com características levemente diferentes, foram dois jogadores que precisaram do cérebro para compensar o físico. E as condições coletivas construídas pelo treinador permitiram que Xavi fosse alçado ao primeiro degrau dos craques mundiais, três vezes seguidas no pódio do prêmio de Melhor do Mundo da Fifa.

“Na minha carreira, Pep tem sido referência em praticamente todos os sentidos. Falamos a mesma linguagem do futebol porque fomos criados na mesma casa e entendemos o jogo da mesma maneira”, afirmou, nesta entrevista à Efe. Sem nenhuma dúvida, será o mesmo estilo que tentará imprimir como treinador, inicialmente no próprio Al Sadd e, no futuro, se possuir metade do talento com a prancheta como teve com a bola, à frente do Barcelona.

Goste ou não, o estilo assumiu o protagonismo do futebol, com o bicampeonato europeu do Barcelona de Guardiola, suas aplicações ajustadas no Bayern de Munique e no Manchester City e os títulos, inclusive da Copa do Mundo, conquistados pela Espanha. Em linhas gerais, o cenário passou a ser um contraste entre quem tenta impor essa dinâmica, ninguém com mais sucesso do que Gardiola, e os que buscam antídotos, com muito sucesso, como Simeone e Klopp, ou nem tanto, como Mourinho. “O primeiro ano de Pep começou uma revolução no futebol. Fizemos história. Não apenas pelas vitórias, mas pela maneira como jogamos”, disse Xavi.

E se Guardiola liderou a revolução, Xavi foi o seu principal general. Entendeu como ninguém todos os elementos da língua que seu treinador queria falar e os traduziu para o campo, sempre aberto para receber o passe, sempre fazendo a bola continuar girando, mostrando o quanto a simplicidade pode ser genial. Comandou um jogo plasticamente bonito e competitivo, e, no processo, tornou-se o gigante que os seus 1,68 metros quase o impediram de ser.