A bola procura o craque. Uma metáfora frequentemente usada para explicar o acaso ou um bom posicionamento, mas às vezes parece que ela realmente pensa, com um cérebro entre os gomos e as fibras, como se tivesse vontade própria. Porque foi absolutamente racional que caísse aos pés do camisa 8 antes de alterar o placar a favor da Espanha pela milésima vez na história. Fez todo sentido porque esse gol – meramente simbólico – apareceu exatamente no momento em que a seleção dava os primeiros passos de uma caminhada maravilhosa e inesquecível, e ninguém a representa melhor que Xavi Hernández, que anunciou sua aposentadoria do futebol internacional nesta terça-feira.

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Ninguém sabia que daria tão certo. Era uma época em que a Espanha ainda fazia coisas espetaculares ao avesso, como perder para a Irlanda do Norte, vítima do milésimo gol da seleção espanhola e o primeiro de Xavi com a camisa vermelha em partidas oficiais. Luis Aragonés tentava mudar o rumo, depois da eliminação para a França nas oitavas de final da Copa do Mundo, apenas a última decepção da longa lista de um time que despertava tanta expectativa e sempre entregava tão pouco.

A estratégia seria intensificar uma filosofia que já estava presente no inconsciente dos jogadores e da seleção. O termo tiki-taka existia, antes de Pep Guardiola o consagrar em clubes e Aragonés em seleções, mas precisava ser lapidado. O próprio gol de Xavi contra a Irlanda do Norte não teve nada de posse de bola e toques curtos. Saiu de um lançamento, uma passagem do lateral e um cruzamento. Nada a ver com o estilo pelo qual a Espanha seria conhecida nos anos seguintes.

O irônico é que a carreira de Xavi pela seleção demorou para engrenar. Começou em 2000, em um amistoso contra a Holanda, mas ele foi reserva na Copa do Mundo de 2002 e sequer entrou em campo na Eurocopa de dois anos depois. Passou a ser visto como titular a partir de 2004 e se tornou essencial para os seus conterrâneos porque ninguém personificou melhor o tiki-taka do que ele. E não pode ser coincidência que o estilo comece a ser contestado exatamente no momento em que os pés de Xavi não conseguem mais correr por tanto tempo e pensar tão rápido quanto antes.

Ele comandou o meio-campo, setor vital do tiki-taka, com a criatividade de um artista e o melhor passe curto e médio da sua geração, dominando a bola com a autoridade de um domador de leões. Enquanto teve físico, aparecia em todo o lugar, inclusive nos vestiários para mediar as inevitáveis richas entre jogadores do Barcelona e do Real Madrid. Foi também muito importante para apagar os incêndios e unir a equipe, ao lado do capitão Iker Casillas, e não por acaso os dois receberam o prêmio Príncipe das Astúrias, em 2012, cedido apenas aos que realizam contribuições notáveis nas suas áreas. Poucas coisas poderiam ser mais notáveis que fazer blaugranas e madrilenos serem amigos.

Mas a melhor forma de avaliar a importância de um homem é observar os efeitos da sua ausência no coletivo. A Espanha não teve o Xavi com o qual se acostumou na Copa do Mundo de 2014 e sofreu como se ainda fossem os tempos em que uma derrota para a Irlanda do Norte não surpreendia tanta gente. Foi o ponto mais baixo de uma temporada que fez o jogador de 34 anos duvidar até mesmo da sua permanência no Barcelona. Não tinha o físico necessário para dar ritmo à sua orquestra, estava em má fase técnica e sabia que talvez pudesse atrapalhar mais do que ajudar.

Sua vontade era se aposentar da seleção depois da Eurocopa de 2012, mas foi convencido a mudar de ideia por Vicente Del Bosque. E assistiu sentado entre os reservas à partida decisiva contra o Chile, porque o mesmo treinador que bancou sua ida ao Brasil enfim percebeu a inutilidade de lutar contra o tempo. Del Bosque tem mais dois anos de contrato para encontrar o jogador que vestirá a camisa de Xavi, e não se trata da uma dúvida literal. Precisa encontrar alguém para assumir essa posição de líder, dos vestiários e da filosofia. Ou ter coragem para adaptar o tiki-taka a uma nova realidade.

Xavi merecia que o livro sobre a época em que defendeu as cores do seu país pelos campos de futebol do mundo terminasse com um capítulo menos melancólico. Não seria absurdo classificá-lo como o maior jogador da história da seleção espanhola, já que o time dos anos 1930 foi atrapalhado por questões políticas, Di Stéfano e Puskas tiveram passagens curtas – e, afinal, nem espanhóis são – e a geração anterior à dele precisa lidar com muitos fracassos. Curiosamente, a principal ameaça também foi o seu maior parceiro. Iniesta, aos 30 anos, continua na seleção e ainda pode alcançá-lo.

Mas por enquanto apenas Xavi foi o líder de um período que reverteu uma lógica que abalava a auto-estima dos espanhóis. Transformou a “Fúria” em “Roja”. Processo que começou depois do Mundial da Alemanha, mas se consolidou com o título da Eurocopa de 2008. Na final, o gol decisivo foi marcado por Fernando Torres, e fez todo sentido que o passe partisse dos pés de Xavi, o líder e o arquiteto do que a seleção se tornaria a partir daquela partida, porque a bola às vezes raciocina e procura o craque. E naquele dia, em Viena, o maior craque em campo vestia a camisa 8.

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