Xabi Alonso está de volta à sua casa. O ex-jogador, revelado pela Real Sociedad, retornou ao time basco após o fim de sua carreira como atleta para ser treinador da equipe B. Esta é apenas sua segunda temporada como técnico, com a primeira experiência acontecendo à frente do Sub-13 do Real Madrid. Sem pressa, o espanhol vai dando seus passos na nova carreira e aproveitando a caminhada. A maneira como ele fala sobre a profissão de treinador e as visões que têm sobre o ofício nos fazem querer acompanhar o desenvolvimento desta empreitada.

O agora técnico Xabi Alonso concedeu entrevista ao L’Équipe, publicada nesta quinta-feira (28), e falou sobre o que acha ser o protótipo ideal de um treinador, comentou como vê sua relação com os atletas, a diferença entre treinar adolescentes e adultos e projetou como deseja percorrer seu caminho.

“Não quero ter um rótulo”, diz o ex-meio-campista. Para ele, pouco importa virar a referência em algum estilo ou outro. O mais importante é que, qualquer que seja sua ideia, ela consiga ser transmitida aos atletas.

“O importante é como meus jogadores se sentem. É isso que eu digo a eles. Se eu sinto algo, mas os meus jogadores não, as minhas ideias não servem a nada, eu preciso mudar, estar a serviço deles. Meu objetivo, hoje, é que não seja um esforço para eles estarem bem preparados, mas que eles estejam educados para estar prontos naturalmente. Sobre o plano de jogo, somos uma equipe que gosta de ter a iniciativa, uma equipe ativa, não reativa”, comenta sobre sua Real Sociedad B.

Para Alonso, o treinador ideal precisa combinar duas características: bom conhecimento do jogo e gestão de pessoas. E um nome atual é capaz de fazer isso. “Hoje em dia, quem tem os dois é o Jürgen Klopp. E não digo isso só porque joguei no Liverpool. Ele tem carisma. Você vê isso no fim dos jogos, na relação que ele tem com seus jogadores”, comenta.

“A ligação emocional bastante forte que ele tem com os jogadores vem também do vínculo que ele soube criar com o clube. Ter isso é ouro para um treinador. O Pep (Guardiola) também sabe fazer isso, assim como o Rafa (Benítez) e outros. O Mourinho me marcou por sua capacidade de ler as partidas e sua sabedoria de reagir quando o momento da partida exigia.”

A capacidade de se conectar com os comandados é algo que ele, Xabi Alonso, hoje como treinador, busca no dia a dia. “Eu gosto de estar próximo dos jogadores. É preciso gerir o grupo, mas também cada indivíduo, sabendo que com alguns você tem que falar muito e com outros, não muito.”

A experiência inicial no comando dos garotos do Sub-13 do Real Madrid serviu muito ao espanhol. Para ele, treinar crianças não é tão diferente de treinar adultos. Trata-se, sobretudo, de saber transmitir o conhecimento.

“Você simplesmente precisa tentar se colocar no nível deles e se comunicar de uma outra maneira. (…) Sejam eles de 15 ou 25 anos, você precisa ganhar credibilidade com eles. O grupo é inteligente. Ele te testa, acredita ou não no que você diz. Sua carreira como jogador só te traz algum crédito por uma ou duas semanas”, explica.

Não demorou muito para Xabi Alonso confirmar que o caminho como técnico era o que ele deveria mesmo percorrer. “É uma ânsia, você não larga mais, você diz pra si mesmo: ‘Caralho, como eu amo isso!’ Você vê que dia após dia, com a repetição, a explicação, as correções, tudo que você diz a eles, que eles entendem pouco a pouco. Ser treinador é isso.”

A vontade inicial, no entanto, vem de muito tempo atrás. Xabi Alonso já sabia que ser treinador seria algo que lhe agradaria. Enquanto jogador, tentava entender e analisar o que fazia em campo, “antes, durante e depois das partidas”. Anotava tudo em cadernos, especialmente coisas que eram ditas por seus técnicos e que lhe pareciam importantes de se lembrar. “Mas foi só depois de me aposentar que eu soube realmente que eu daria esse passo, foi aí que acreditei na frase do Johan Cruyff: ‘A coisa mais bela é jogar futebol; a segunda coisa mais bela é treinar’”, completa.

Xabi Alonso não sabe destacar uma coisa em particular de sua carreira como jogador que mais lhe ajuda hoje como treinador. “Tudo me serve. Aprendi muito dos grandes parceiros que tive. Se treino um jogador com o perfil próximo do Luka Modric, eu lhe digo: ‘O Luka Modric não se posiciona aí para receber a bola, ele espera ali.’ Não digo a ele que ele é o Luka Modric, mas que, ao se posicionar ali e não aqui, ele será mais decisivo.”

Tenta trazer também aos seus comandados algo em que era mestre em seus tempos de atleta: interpretar o ritmo da partida. “Uma partida não tem só um ritmo, mas vários. E cada fase tem seu momento diferente. Os jogadores precisam entender quando acelerar e quando fazer uma pausa, quando tocar duas vezes na bola e quando tocar cinco”, ilustra.

Não é surpresa então que, para ele, é a cabeça que faz a diferença entre duas equipes em um confronto no futebol atual.

“O físico é claramente importante, mas a cabeça… O controle emocional, a motivação, mas também a inteligência no momento de tomada de decisão. Quanto mais você tiver jogadores bons nisso, melhor será a sua equipe. Quando a cabeça quer, as pernas querem. Mas se a cabeça não quer, as pernas não vão seguir. Já joguei partidas com 48 horas de intervalo e, como minha cabeça estava bem, fui bem. E já joguei outras tendo uma semana inteira de preparação, mas me senti cansado, porque minha cabeça não estava bem.”