A Hungria representa uma revolução na história do futebol. Foram as ideias dos magiares, e também os seus talentos, que transformaram a maneira de se praticar o esporte após a Segunda Guerra Mundial. Os húngaros eram os grandes símbolos de qualidade técnica no início da década de 1950. Ninguém duvidava que eram os melhores do mundo. E vencê-los representava exatamente isso: estar à frente de qualquer outra equipe do planeta.

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Os primeiros a conseguirem a façanha foram os alemães. O triunfo na decisão da Copa do Mundo de 1954 representa o grande resultado da história do Nationalelf. Uma surpresa que foi repetida meses depois, em dezembro daquele ano. O Wolverhampton superou o Honvéd, base da armada dos Mágicos Magiares. Para se proclamar também campeão do mundo, ao menos entre os clubes, e influenciar até mesmo a criação da Copa dos Campeões da Europa. Uma equipe que ficará eternizada, mesmo sem o título formal.

O surgimento de uma potência

O primeiro sinal de que o Wolverhampton poderia fazer história no Campeonato Inglês veio na primeira temporada completa após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946/47. Fundador da liga em 1888 e duas vezes campeão da Copa da Inglaterra, o clube ainda perseguia o principal título do país. E por pouco não conseguiu naquele ano de retorno: a derrota na última rodada para o Liverpool deixou a taça em Anfield. Aquela foi a despedida de Stan Cullis do clube. Um defensor fiel às cores dos Wolves, que se tornou ainda mais notável na história do futebol inglês como treinador.

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A passagem de Cullis pelo banco de reservas do Wolverhampton começou em 1948. E já com uma conquista marcante. Aos 31 anos, o novato comandou os aurinegros à conquista da Copa da Inglaterra pela terceira vez em sua história, encerrando o jejum que durava quatro décadas no clube. Na decisão, a equipe se impôs sobre o Leicester em Wembley, com a vitória por 3 a 1. E alguns dos jogadores que continuariam fazendo história pelos Wanderers na década seguinte já faziam parte da base de Cullis.

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O goleiro era Bert Williams, que havia chegado ao clube após a Segunda Guerra, durante a qual serviu a força aérea. O sistema defensivo contava com Roy Pritchard, Billy Crook e Bill Shorthouse, enquanto Johnny Hancocks e Jimmy Mullen se alinhavam no ataque. A grande referência do Wolverhampton, contudo, era mesmo o capitão Billy Wright. O defensor se profissionalizou no clube quando tinha apenas 15 anos, e permaneceu nos Wolves desde então. Um jogador conhecido por sua liderança, bem como pela forma como combinava força e técnica no setor central. As peças que serviram de espinha dorsal ao projeto de Cullis.

A ciência a serviço do futebol

O orgulho – que pode ser considerado também como soberba – ainda era profundo no futebol inglês durante a década de 1940. Os inventores do futebol se consideravam os melhores do mundo, isolados da Copa e de outras disputas que pudessem colocar em xeque a imaginada soberania. Um contexto que começou a se transformar a partir do Mundial de 1950. A derrota para os Estados Unidos em Belo Horizonte foi um baque enorme, mas não o único. Em 1953, a humilhação para a Hungria dentro de Wembley trouxe de vez a noção de como o futebol praticado no país tinha ficado para trás.

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Os 6 a 3 no placar ficaram até baratos pela forma como os húngaros se impuseram sobre a Inglaterra. Tudo bem que, pela frente, os Three Lions tinham Puskás e os Mágicos Magiares em jornada inspirada, mas a ferida era bem mais profunda. Havia uma revolução técnica e tática que não se repetia no Reino Unido. E a primeira derrota em casa para uma seleção de fora das Ilhas Britânicas se tornou ainda mais vexatória quando os ingleses pediram revanche em Budapeste e voltaram para casa com a goleada por 7 a 1. A solução era mudar ou mudar.

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Naquele momento, o trabalho de Cullis no Wolverhampton era visto como uma alternativa ao que poderia ser feito no futebol inglês. Durante seus tempos na aeronáutica, o técnico havia sido instrutor de treinos físicos, o que ajudou bastante em sua postura à beira do campo. Ele passou a intensificar uma visão mais científica do jogo, investindo justamente na capacidade física dos jogadores e em um estilo mais direto de jogo. Não houve grande revolução tática no WM comum entre os ingleses desde o Arsenal de Herbert Chapman, dos anos 1930. Contudo, o famoso “kick and rush” do futebol inglês, o famoso “corre e chuta”, viva o seu primeiro grande momento, e dando resultados.

Sobretudo, porque a capacidade física do Wolverhampton de Cullis fazia diferença. O jogo era extremamente rápido e de muita pressão defensiva, graças aos treinos intensos praticados pelo comandante. A verticalidade era a chave, especialmente através dos pontas, Hancocks e Mullen. Como um rolo compressor, o clube começou a acumular ótimos resultados no futebol local. Em 1949/50, foi vice-campeão inglês e, depois de duas temporadas na metade inferior a tabela, voltou a rondar o título em 1952/53. Até que o tabu finalmente fosse quebrado no ano seguinte.

Os melhores da Inglaterra

A campanha do Wolverhampton no Campeonato Inglês de 1953/54 foi imponente. O clube conquistou 25 vitórias em 42 rodadas, apresentando também o melhor ataque e a melhor defesa. A tão longa espera pelo título, enfim, se encerrava naquele momento. Em uma disputa intensa pelo topo da tabela com os rivais do West Bromwich, a vitória fora de casa no clássico de abril foi fundamental. Era, naquele momento, a grande prova de força dos Wolves, uma equipe de regularidade imensa, até pelo forte preparo que possuía.

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Alguns novos protagonistas começavam a surgir no time naquele momento. O artilheiro foi Dennis Wilshaw, autor de 25 gols na competição, enquanto Peter Broadbent começava a se tornar referência no meio-campo. A base que Stan Cullis havia aprimorado durante os seus cinco anos à frente da equipe se reforçava com as categorias inferiores, que recebiam totais atenções do treinador. O clube estava moldado para atender as necessidades da equipe principal, adaptado ao estilo de jogo que o técnico incentivava.

A boa fase deixava o Wolverhampton em evidência, assim como uma novidade no Estádio Molineux. O clube foi um dos primeiros na Inglaterra a instalar refletores em sua casa, permitindo jogos noturnos – que não eram sequer regulamentados no Campeonato Inglês. E os Wolves souberam aproveitar muito bem os holofotes, realizando uma série de amistosos para provar a sua força contra equipes de outras partes do mundo e, assim, arrecadar dinheiro com as bilheterias para bancar as instalações.

O desempenho iluminado dos Wolves

O primeiro grande jogo disputado à noite pelo Wolverhampton aconteceu em meio à campanha do título inglês, em setembro de 1953. Os aurinegros receberam um combinado da África do Sul e provaram a sua supremacia. Vitória por 3 a 1, em um dos primeiros jogos televisionados para o Reino Unido, através da BBC. Com a ajuda das transmissões, o time ganhava notoriedade, estimulado a desafiar outras equipes em amistosos.

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Na sequência, o Wolverhampton venceu Celtic, Maccabi Tel Aviv e Racing – que vinha de um tricampeonato argentino recente, treinado pelo mítico Guillermo Stábile. Além disso, empatou com West Brom, pela Supercopa da Inglaterra, e com o First Viena.  Uma invencibilidade que seria verdadeiramente testada nos dois desafios realizados no final de 1954. Em novembro, os ingleses teriam pela frente o Spartak Moscou, bicampeão soviético nos anos anteriores. E a goleada por 4 a 0 deixou os Wolves com o moral altíssimo. Tudo para o grande desafio: encarar o Honvéd, base da seleção húngara de 1954 e tido como o melhor time do mundo na época.

A badalação sobre a equipe estrelada por Puskás não era em vão. O Honvéd dividia a hegemonia local com o MTK Hungária, o que não diminuía os seus méritos. A qualidade do elenco era evidente, sobretudo no ataque, também municiado por Kocsis, Czibor e Budai. E dentro de campo, o mais comum era se esperar o show da equipe do exército nacional. As goleadas se acumulavam, com atuações mágicas dos magiares. Para muitos, a maior questão para o Wolverhampton era mesmo não tomar uma goleada tão humilhante quanto a da seleção inglesa um ano antes.

O jogo que mudou a história do futebol de clubes

Stan Cullis, no entanto, tinha um precedente sobre como vencer os húngaros. Afinal da Copa de 1954 havia mostrado que aqueles craques não eram imbatíveis. E por mais que a Inglaterra também não tenha empolgado no Mundial da Suíça, eliminada pelo Uruguai nas quartas de final, o técnico confiava em seu próprio elenco para surpreender. E também em alguns detalhes que iam muito além da bola rolando.

Antes da partida, a grande jogada de Cullis foi encharcar o gramado. Havia chovido pesadamente na região do Estádio Molineux às vésperas do amistoso e o treinador pediu para deixar o campo ainda mais encharcado. Uma tática que havia ajudado os alemães na final da Copa, especialmente por anular o toque de bola e a fluidez dos húngaros. E que poderia tornar ainda mais eficiente o seu jogo de bolas longas.

No dia 13 de dezembro de 1954, o duelo histórico. O Honvéd entrou em campo com força praticamente máxima, a exceção do goleiro Grosics, afastado por ser suspeito de espionagem e traição pelo governo comunista. Não foi a falta do camisa 1, porém, que atrapalhou os húngaros de se imporem logo no começo da partida, como era de praxe em suas exibições. Com apenas 14 minutos de bola rolando, dois gols dos visitantes. Kocsis fuzilou de cabeça, enquanto Machos ampliou em um contra-ataque. Puskás e Bozsik dominavam o jogo, com os magiares mostrando mais qualidade técnica e também mais agilidade.

O Wolverhampton precisou segurar a pressão na sequência do jogo, com o goleiro Bert Williams realizando defesa magnífica. Já no intervalo, Cullis passou a tranquilidade necessária para os seus comandados mudarem o jogo na segunda etapa. Depois de um pênalti controverso, Hancocks diminuiu a diferença. O jogo pelas pontas começou a se tornar uma constante quando Swinbourne diminuiu de cabeça, aos 31 minutos. E, já nos dez minutos finais, em uma pressão imensa dos Wolves, coube a Swinbourne decretar a vitória por 3 a 2. A história estava feita.

A semente da Copa dos Campeões

O resultado foi comemorado de maneira efusiva pelos ingleses. Era a restauração da altivez perdida pelas equipes locais, em um jogo de raça. Logo, Stan Cullis começou a proclamar o seu time como o melhor do mundo, algo que recebeu ressonância dos jornais ingleses. A manchete mais notável foi publicada pelo Daily Mail: “Viva aos Wolves, campeões do mundo agora”. Superar o Honvéd, naquele momento, significava vencer os melhores. E sem uma competição que reunisse os grandes esquadrões da época, era o feito suficiente para os ingleses se autoproclamarem.

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Obviamente, a façanha gerou repercussão no resto da Europa. A mais importante, no jornal francês L’Equipe, cujo editor estava no Estádio Molineux para assistir ao épico. Porém, discordando da intitulação que os ingleses haviam dado aos Wolves. “Antes que nós declaremos que o Wolverhampton é invencível, o deixe ir a Moscou e Budapeste. E há outros clubes renomados internacionalmente: Milan e Real Madrid, para falar de dois. Uma copa mundial de clubes, ou pelo menos uma Europeia – maior, mais significativa e mais prestigiosa que a Copa Mitropa e mais original que um torneio para seleções – precisa ser lançada”, escreveu Gabriel Hanot. Ele plantava as sementes da Copa dos Campeões, criada na temporada seguinte, em parceria do veículo francês com a Uefa.

O Wolverhampton, no entanto, não pôde defender a sua posição na primeira edição da Champions. O clube foi vice-campeão inglês em 1954/55, perdendo a vaga para o Chelsea. E, mesmo assim, os Blues não entraram em campo pelo torneio continental. Foram impedidos pela Football Association, que achava a competição uma mera distração para a sua liga nacional. Uma noção que mudaria apenas na temporada seguinte, quando o Manchester United disputou a taça e só caiu para o poderoso Real Madrid nas semifinais.

Os melhores do mundo caem por terra

Com a base montada por Stan Cullis, o Wolverhampton continuou sendo uma das forças do futebol inglês, mas passou duas temporadas em jejum. O título da Football League só voltou ao Estádio Molineux em 1957/58, superando o Manchester United – que, por sua vez, tinha sido prejudicado pelo desastre aéreo de Munique, que matou oito jogadores dos Red Devils e tirou outros tantos de ação. O carimbo para a primeira Copa dos Campeões dos aurinegros.

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Mesmo longe da competição continental, os Wolves continuaram disputando torneios internacionais no Estádio Molineux depois da vitória sobre o Honvéd. Entre os derrotados, Dynamo Moscou, Steaua Bucareste, Borussia Dortmund e Valencia. O jogo mais notável, entretanto, aconteceu contra o Real Madrid. Os merengues já eram campeões europeus em outubro de 1957, quando foram superados por 3 a 2 na visita à Inglaterra. A prova de que o time de Stan Cullis era um dos favoritos ao título da Champions.

No entanto, os planos do Wolverhampton foram frustrados logo no primeiro confronto a Copa dos Campeões de 1958/59, contra o Schalke 04, nas oitavas de final. Os Azuis Reais buscaram o empate por 2 a 2 no Molineux e se impuseram por 2 a 1 dentro da Alemanha contra os ingleses. Naquela mesma temporada, os Wolves conseguiram o bicampeonato nacional. O problema é que o tropeço na Champions 1959/60 foi ainda mais acachapante. Depois de eliminarem o Vorwärts Berlim e o Estrela Vermelha, os ingleses foram destroçados pelo Barcelona nas quartas de final. O time treinado pelo mítico Helenio Herrera fez 4 a 0 no Camp Nou e ainda enfiou 5 a 2 no Molineux. Kocsis, que conhecia tão bem aquele estádio, anotou três gols pelos catalães.

O Wolverhampton foi vice-campeão inglês e faturou a Copa da Inglaterra naquela temporada. Todavia, já era o canto do cisne daquele esquadrão. O elenco já estava bastante envelhecido e, pouco a pouco, ia perdendo as suas referências. Billy Wright, já aposentado, sequer viveu a tragédia. E o declínio ficava evidente a cada temporada. Em 1964/65, o rebaixamento no Campeonato Inglês e a demissão de Stan Cullis. Naquele momento, as glórias não eram mais do que passado. Do que um mero recorte de jornal.