Hoje em dia, se você pensa em Jack Wilshere, é difícil dissociar sua imagem das lesões que sofreu. Durante anos, o meio-campista passou tempo significativo no departamento médico do Arsenal, antes de, enfim, na temporada passada, deixar o clube de vez, após empréstimo ao Bournemouth, e ir ao West Ham. Os problemas físicos do jogador chegaram a virar piada para os fãs de futebol, mas, por trás das cortinas, Wilshere estava travando uma batalha solitária e dura. Seu filho teve problemas sérios de saúde em certa altura de sua carreira, e isso comprometeu bastante a reabilitação de umas das lesões que o jogador sofrera.

Em um minidocumentário da Athete’s Stance, Jack Wilshere se abriu sobre suas questões pessoais, as pressões de virar profissional tão cedo e, sobretudo, a luta pela saúde do filho, Archie.

“Eu tive diferentes tipos de lesões, e tipos de lesões que me afetaram de formas diferentes mentalmente. E eu sempre penso em uma lesão, ela sempre vem na minha cabeça. Foi em 2016. Eu tinha sofrido uma contusão no treinamento, e foi difícil de aceitar, porque eu estava voltando para onde queria estar. De repente, retornei para casa, e o meu filho de quatro anos estava tendo convulsões no chão. Acontecia repetidamente, aconteceu todos os dias durante três ou quatro meses. Havia momentos em que, no meio da noite, eu estava correndo para o hospital. E eu e minha esposa, provavelmente, ficávamos acordados a maior parte das noites, porque na maior parte do tempo as convulsões ocorriam à noite. Então nós o colocávamos na cama, mas não conseguíamos dormir porque não sabíamos o que estava acontecendo com ele. Nós simplesmente ficávamos acordados. Eu esqueci do futebol (naquele momento), dizia para a minha mulher: ‘Não sei se consigo fazer mais isso (jogar)’.”

Wilshere revela que, à época, não conseguia se abrir. Poucas pessoas sabiam da batalha pessoal que ele estava travando. Uma dessas pessoas, Arsène Wenger, disse para o jogador: “Olha, cuida do seu filho, leve o tempo que for preciso”. “E é por isso que essa lesão levou tanto tempo.”

Esse é o tipo de momento em que a impessoalidade do futebol pode ser dolorosa. Enquanto passava por tudo isso, Wilshere via seu nome na boca dos torcedores e de parte da imprensa. As piadas e a cobrança em torno de sua dificuldade de se recuperar foram intensas e, em meio a seu drama familiar, sublinham como desumanizamos os jogadores e ignoramos aquilo por que eles podem estar passando.

“As pessoas não percebem. Elas pensam: ‘Ele está sempre machucado, sempre propenso a lesões, nunca vai estar em forma’. Mas elas não sabem o que se passa atrás de portas fechadas. Pelos primeiros quatro ou cinco meses daquela recuperação, eu não queria estar lá fazendo isso. Eu estava entrando e saindo de hospitais, não estava dormindo, e eu não me importava (com a recuperação), para ser sincero. Porque meu foco principal era meu filho. Eu meio que me desliguei do mundo exterior um pouco, e isso faz você mudar a maneira como pensa sobre a vida, porque tudo pode acontecer. Sim, eu sou jogador de futebol, e isso é ótimo, mas a família vem em primeiro lugar sempre. Tento ser o melhor pai que posso e passar o máximo de tempo possível com eles. Tudo que faço é por eles.”

O jogador do West Ham revela que, felizmente, agora seu filho está bem, graças ao trabalho dos especialistas que o acompanharam. Atualmente treinando duro para estar disponível para o técnico Manuel Pellegrini, depois de uma temporada em que duas lesões o tiraram de 30 partidas dos Hammers, Wilshere deseja retornar por seu filho, pela filhinha Delilah e também por Siena, recém-nascida, “que ainda não me viu jogar”, diz ele.

Pellegrini e Wilshere (Foto: Getty Images)

Durante o minidocumentário, Wilshere leva a equipe de produção a uma escolinha de futebol que ele inaugurou recentemente, para jovens entre 10 e 18 anos de idade. “Temos cerca de 100 crianças. A ideia é que elas recebam um treinamento de elite e tenham a chance de representar a Inglaterra na Gothia Cup, que é um dos maiores torneios, sediado na Suécia. É uma oportunidade, porque todos os olheiros do mundo estão por lá.”

Wilshere fala também de sua própria experiência em ser descoberto – e de como foi a pressão de jogar no Arsenal, estreando com apenas 16 anos, um recorde do clube na liga.

“Eu jogava por um time chamado Luton, estávamos jogando contra outro time local, e o árbitro era o olheiro. Ele veio até mim e meu pai, depois do jogo, e disse que queria que eu realizasse um teste, então organizaram um Luton x Arsenal. E, a partir dali, as coisas aconteceram. Eles disseram imediatamente após (o jogo): ‘Queremos contratá-lo’. Eu tinha apenas nove anos. Então, sete anos depois, estou fazendo minha estreia pelo time principal do Arsenal, o que tem suas pressões.”

O peso de estar em campo não vinha dos torcedores, da família ou da imprensa, diz o jogador, mas, sim, dele próprio. “Era mais eu tentando me provar para os companheiros de time. Estava jogando em uma equipe com superestrelas internacionais: Fàbregas, Van Persie, William Gallas, grandes jogadores que estavam no topo há anos. E então, de repente, um garoto de 16 anos é jogado ali, e cabe a você sobreviver naquele nível e triunfar”, pondera. Para ele, esse momento é crucial na carreira de um jogador. Alguns tentam apenas sobreviver, enquanto outros querem sempre se aprimorar. “E eu queria ir até o próximo nível. Eu era impaciente e queria jogar.”

Com as lesões que teve e a prematuridade com que foi jogado no futebol profissional, Wilshere teve sorte em ter pais que não o pressionavam, apenas o deixavam ir atrás do que queria. E é essa figura paterna que ele quer ser para seus filhos.

“Tento ensinar boas maneiras para meus filhos, distinguir o certo do errado, ensiná-los a fazer coisas boas. Mas quando eles ficarem mais velhos e quiserem fazer algo na vida, é preciso apoiá-los, porque eles são sua própria pessoa. Você quer que eles tenham sucesso no que quiserem fazer, em vez de forçá-los a algo que não querem fazer.”