A lesão de Neymar nos primeiros minutos do amistoso contra o Catar, na quarta-feira (6), criou nova preocupação para Tite, que já contava com uma lista extensa delas. Ele precisaria agora chamar outro jogador para o lugar do craque da Seleção. Diversos nomes foram debatidos por imprensa e torcedores, em prova de que as opções não eram escassas, e o técnico decidiu, nesta sexta-feira (7), ir com uma de que pouco se falava: Willian, do Chelsea, levará a camisa 10 às costas na Copa América.

O corte de Neymar da competição significava que Tite precisaria fazer uma escolha entre chamar alguém da característica do jogador do PSG, mantendo parte do planejamento tático, ou então outro nome para outra posição. Na noite de quinta-feira, o rumor com mais força era de que Renato Augusto seria o convocado, com Coutinho então sendo deslocado para a ponta esquerda, e o meio-campista do futebol chinês assumindo o posto deste no meio.

Torcida e imprensa torceram o nariz para a possibilidade, com muitos defendendo que Vinícius Júnior fosse convocado. O jogador teve uma temporada de estreia de destaque pelo Real Madrid, com três gols e 12 assistências em 31 jogos, mesmo com apenas 18 anos. Foi prejudicado por uma lesão na partida contra o Ajax, pelas oitavas de final da Champions League, mas o futebol apresentado até então foi suficiente para que pedissem o seu chamado.

Convocar Vinícius Júnior fazia sentido de diversas maneiras: joga na mesma posição que Neymar, é habilidoso e incomoda as defesas adversárias como poucos no elenco da Seleção, tem a aprovação do público e seria bom comercialmente. Afinal, o jogador esteve entre as estrelas utilizadas pela Nike para apresentar o novo uniforme da seleção brasileira. Sua exclusão da lista original foi bastante criticada. A lesão de Neymar era uma chance de Tite se redimir.

Vinícius Júnior em divulgação do novo uniforme branco do Brasil (Foto: divulgação/Nike)

Houve quem defendesse ainda nomes como Dudu, referência de um Palmeiras atual campeão brasileiro e que lidera o Brasileirão deste ano, apesar da pouca experiência internacional, ou então Lucas Moura, protagonista da classificação heroica do Tottenham à inédita final da Liga dos Campeões e cuja ausência da convocação inicial também desagradou muitos torcedores. Por fora, teve também quem defendeu que Tite levasse o garoto João Pedro, do Fluminense, de apenas 17 anos. O garoto tomou de assalto o futebol brasileiro, com nove gols em 14 partidas, incluindo tripleta internacional e gol de bicicleta. Entendo o ponto de quem pensou na promessa – e realidade, vai – do Flu para o lugar: daria experiência ao garoto, e ele está voando mesmo. Mas nunca esperaria que Tite desse essa chance.

Todos esses nomes listados acima – além de outros deixados de fora como Douglas Costa e Felipe Anderson – servem para provar que o que não faltava era alternativa para o comandante da Seleção. Jogadores interessantes e que há algum tempo pedem seu espaço. Atletas que se destacaram por seus respectivos clubes. Tudo isso para Tite levar Willian.

Apostava-se que o treinador levaria Renato Augusto por ser homem de confiança e conhecer bem o jogador. A premissa estava certa, errou-se apenas o nome. Willian é familiar para Tite, faz o que o técnico gosta: ajuda no campo de defesa para retomar a bola e vai ao ataque com velocidade e objetividade. Mas, aos 30 anos e sem ter tido uma campanha recente tão boa quanto as dos outros nomes ventilados, não deveria ter tanto espaço na Seleção.

Não entendam errado: Willian é um bom jogador, já provou seu valor em diferentes momentos com a amarelinha e tem, sim, o que acrescentar – apesar da fraca Copa do Mundo no ano passado. O problema é que Tite perde uma ótima oportunidade de renovar a Seleção. Willian vem com um carimbo de ciclo passado. Sem Neymar, a pressão por uma conquista de Copa América diminuiu. Era o momento ideal para o treinador ser criativo e, possivelmente, encontrar novas soluções à sua equipe.

Tite parece o tipo de pessoa que gosta que os outros gostem dele. Seu trato com a imprensa é educado, embora evasivo. Suas palavras são meticulosamente escolhidas para despertar certo tipo de sentimento nos torcedores. Seus comandados normalmente estão sempre muito fechados com o comandante, e o inverso é recíproco. O técnico nunca alcançará unanimidade na Seleção – quem conseguiria? É um trabalho ingrato, em que uma mesma decisão que vai agradar uma parcela irá antagonizar outra. Mas sua decisão foi, sim, recebida com unanimidade: ainda estou para ver quem gostou da convocação de Willian.