Wes Morgan, o garoto que custou alguns uniformes antes de erguer a taça da Premier League

Dono de uma grande história de superação, o zagueiro não conteve a emoção ao levantar o troféu ao lado de Claudio Ranieri

Para a maioria dos jovens, o sonho de se tornar jogador profissional se encerra durante a adolescência. E este parecia ser o destino de Wes Morgan. O garoto cresceu na periferia de Nottingham, em uma região marcada pela violência. Viu amigos se envolverem com o crime, mas se agarrou no futebol. Jogava na vizinhança sempre que tinha tempo livre e logo ingressou no Meadow Colts, um clube do bairro. A ponto de ganhar uma chance na base do Notts County, tradicional clube da cidade. No entanto, a oportunidade durou semanas. Aos 16 anos, descendente de jamaicanos, filho de uma enfermeira, acabou dispensado. Precisou tomar as rédeas de seu próprio destino. Mas o empenho fez a sorte se transformar.

Ao deixar o Notts County, Morgan iniciou a faculdade de administração – porque “sabia o quanto dinheiro era bom e não era tão ruim em matemática”. Ainda assim, não conseguiu abandonar a paixão. Ele se dedicava ao futebol nos finais de semana, meio-campista amador do modesto Dunkirk. E seu talento não passou despercebido. Por indicação do técnico da faculdade, ganhou a chance no Nottingham Forest. O teste de uma semana superou um mês, até que os alvirrubros fossem sinceros: o jovem teria que perder peso para ser aprovado. Então, trabalhou duro. Fez dieta e correu dezenas de quilômetros em torno do estádio do clube após os treinos, até que ganhasse o sim. Pelo negócio, o Forest deu um jogo de uniformes ao Dunkirk. Ninharia pelo rapaz que, dezesseis anos depois, se consagraria como capitão do Leicester, taça da Premier League nas mãos.

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Morgan não escondeu a emoção durante a festa do título. Ao receber o troféu, junto com Claudio Ranieri, o zagueiro inclinou a cabeça para trás e respirou fundo. Suspiro de quem atravessou uma longa caminhada para estar ali. De quem se aliviava pelo grande momento que, enfim, se tornava palpável. Ergueu a taça, gritou, não conteve as lágrimas. E pôde falar a todos como um verdadeiro líder. O homem que, além de garantir a solidez defensiva, participou da conquista com dois gols decisivos – inclusive o da partida derradeira antes da confirmação da façanha, no empate por 1 a 1 contra o Manchester United.

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“Estou esgotado emocionalmente. É uma sensação incrível finalmente ter o troféu em minhas mãos. Subindo ao pódio, eu me emocionei. Tive que segurar as lágrimas. Ter a taça nas mãos e ergue-la é a melhor sensação do mundo. Não há sensação melhor do que saber que você é campeão da Inglaterra, é algo para relembrar para o resto de sua vida”, afirmou Morgan, ainda em campo, durante entrevista transmitida para todo o país.

O garoto que custou alguns pares de uniformes superou mais outros obstáculos no Forest. Aos 19 anos, diante das boas atuações com a equipe reserva, acabou emprestado ao Kidderminster Harriers, da quarta divisão. Para meses depois, em 2003/04, estrear entre os profissionais alvirrubros e não sair mais. Foram oito temporadas e meia como titular, entre a Championship e a League One. Tornou-se um dos 12 jogadores na história do clube a superar as 400 partidas. Em 2011, virou capitão do time com o qual conviveu desde infância, dono do estádio separado de sua vizinhança humilde por um rio.

A saída de Wes Morgan do City Ground foi a contragosto de ambas as partes, mas sem escolhas. Diante da crise financeira, o Nottingham Forest precisava fazer caixa e aliviar sua folha de pagamentos. Optou por vender o ídolo ao Leicester em janeiro de 2012, por £1 milhão. A partir de então, as Raposas ganhavam um líder. Em sua segunda temporada, o zagueiro recebeu a braçadeira. No ano seguinte, levantou a taça da Championship e foi eleito um dos melhores do campeonato. Estreou na primeira divisão apenas em 2014/15, aos 30 anos. Para, enfim, viver a glória da conquista inédita nesta temporada.

Wes Morgan (Zagueiro, 32 anos) – Descendente de jamaicanos, o capitão do Leicester nasceu em Nottingham e cresceu na base do Forest. Tornou-se um emblema dos alvirrubros, acumulando nove temporadas como titular e ganhando a braçadeira. Após 352 jogos nas divisões de acesso, chegou aos rivais regionais por £ 844 mil, em 2011/12.

“É inacreditável. O melhor, o melhor, o melhor momento da minha vida. É difícil de descrever, eu não consigo colocar em palavras. É como um sonho, mas que agora se tornou realidade. Eu só quero aproveitar cada minuto disso”, prosseguiu, na cerimônia de premiação. “Nós sempre acreditamos, as pessoas ao nosso redor é que não estavam realmente convencidas. Mas nós sabíamos das nossas capacidades. Jogamos com todos os times e sabíamos que, em nosso dia, éramos tão bons ou até melhores que os jogos. Foi só atuar semana a semana, concentrar, ignorar os comentários e fazer nosso trabalho. É a união dos rapazes, fazemos tudo juntos e não temos egos. Ninguém está acima da equipe”.

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Sem dúvidas, a influência de Morgan ajudou a dar coesão ao grupo. A voz de Claudio Ranieri em campo é comparada pelo técnico com Baloo, o urso amigo de Mogli no romance (e no filme) O Livro da Selva. “Ele é um urso gentil, que cuida de todos os rapazes. Ele não fala muito, mas todo mundo escuta quando fala. É o capitão perfeito. Eu não sabia nada sobre ele antes de chegar ao clube. Mas assisti aos jogos e vi o quão sólido, forte e inteligente ele era. Seu comportamento é importante para o resto do elenco. Ele estava doente contra o Southampton, mas ainda jogou e marcou um gol fundamental para a vitória. Isso diz muito sobre ele. É um dos melhores defensores da Premier League”, disse o italiano, em entrevista ao The Telegraph.

Sem querer despertar do sonho, Morgan segue em frente capitaneando o Leicester. Seu desejo agora é disputar a Liga dos Campeões. “Eu não sei como vou me sentir na Champions, mas sei que vou aproveitar o momento”, declarou. Certamente. Enquanto isso, tem todo o direito de desfrutar da celebração com as Raposas. Sua camisa azul hoje figura na parede da sede do Dunkirk, ao lado de uma de seus tempos no Nottingham Forest. Mais valiosas do que aquelas que bancaram sua transferência há 16 anos.