O problema de perda de relevância de treinadores não é um problema só do Brasil entre as nações tradicionais do futebol. No cenário europeu, os técnicos franceses não gozam do mesmo prestígio que os portugueses, espanhóis, alemães e mesmo os argentinos, e Arsène Wenger vê uma série de motivos para isso, o principal sendo a falta de uma rede de contatos aos franceses.

Em entrevista ao jornal L’Équipe, o ex-treinador de Arsenal e Monaco e hoje dirigente da Fifa afirmou que os tempos mudaram e que hoje o futebol tem cada vez mais empresários no comando dos clubes. Pessoas não necessariamente experimentadas no futebol, cercadas por gente influente que ajuda a determinar quem consegue ou não empregos.

“Os presidentes se cercam de empresários influentes para recrutar jogadores e, ao mesmo tempo, um empresário influente pode sussurrar o nome de um treinador que ele acha ser certo para o projeto do clube: às vezes alguém que ele agencia. Trata-se de uma rede de contatos, e isso se tornou essencial. Se o agente for francês, ele vai dizer o nome de um técnico francês, mas este raramente é o caso. Hoje, existe uma grande força entre treinadores portugueses. Porque eles são bons é claro, e não quero descreditá-los, mas também porque eles têm contatos internacionais muito fortes”, analisou Wenger.

O ex-comandante dos Gunners acredita ainda que os técnicos franceses “não sabem vender muito bem seu peixe e não se cercam dos melhores empresários”. Em sua época, diz ele, chegou ao Arsenal em 1996 sem a ajuda de agentes, embora com ceticismo, mas esses tempos já passaram.

“É uma injustiça que tenha tão poucos franceses (nos grandes clubes). A estrutura do futebol internacional mudou, e eles estão pagando o preço. Hoje, muitos clubes estão nas mãos de financeiros.”

Assim como é o caso do Brasil, a língua também é uma barreira aos franceses. Na Europa, eles são conhecidos como um dos povos que menos procura aprender outro idioma, e Wenger vê isso como um fator, embora defenda que eles precisem ter iniciativa própria.

“Na França, há cursos em todos os lugares. Porém, não temos um bom ritmo (para aprender outros idiomas) e não temos os mesmos hábitos (de ir atrás de aprender outras línguas). Quando eu tinha 29 anos, fui viver na Inglaterra por um mês para aprender inglês, não conseguia me ver vivendo como treinador sem falar inglês”, afirmou.

O problema do declínio dos treinadores franceses passa ainda pela crescente falta de espaço na própria liga nacional, que hoje conta com nomes como André Villas-Boas (português), Thomas Tuchel (alemão), Luka Elsner (esloveno) e Paulo Sousa (português). Para Wenger, os clubes precisavam confiar mais nos treinadores franceses, mas “cada vez menos este é o caso”.

“Quando eu treinava na França, a estrutura dos clubes era local, e os treinadores, também. A atribuição de postos se faz hoje pela força da internacionalização do futebol e, neste ponto, partimos com uma desvantagem. É preciso aceitar esta evolução. Da mesma maneira que é preciso aceitar ser julgado pelos resultados. Mas não damos tempo suficiente aos treinadores franceses. É claro que o Villas-Boas é bom, muito bom na verdade. Mas o Laurent Blanc não é muito bom? É incrível que ele não tenha um clube. É uma injustiça e um mistério.”

Entre os colegas conterrâneos, Wenger destaca, além de Blanc, Galtier, Rudi Garcia e Julien Stéphan, do Rennes, que, segundo ele, “está indo muito bem”. Para o ex-técnico do Arsenal, a fase dos treinadores franceses “é ruim, mas pode melhorar”. Porém, os obstáculos se acumulam.

“Se os clubes franceses seguirem perdendo acionistas franceses, se nossos técnicos não estiverem conectados com pessoas influentes e se aqueles empregados não provarem seu valor, ficará complicado. O problema é que chegamos a um estágio em que os técnicos franceses não trabalham nem na França mais.”