A construção do Estádio Emirates custou ao Arsenal algumas temporadas de austeridade, discurso ao qual o clube se apegava para explicar as temporadas frustrantes desde a mudança para a nova casa em 2006. Quase uma década e meia depois, os Gunners ainda não conseguiram replicar o sucesso dos melhores anos de Arsène Wenger, e uma das razões para tal pode ser a falta de “alma” no estádio atual – um problema sobre o qual o próprio ex-treinador falou, em entrevista especial à Bein Sports televisionada no final de semana.

Participando de uma entrevista conjunta na emissora Bein Sports ao lado de Jürgen Klopp, Wenger afirmou que os Gunners “deixaram sua alma no Highbury” ao se mudarem para o Emirates, a apenas 500 metros de distância. Não só pela adaptação a uma nova casa pela primeira vez em 93 anos, mas também por questões técnicas do estádio.

“(O Anfield) É o melhor estádio na Inglaterra. É simples, porque as pessoas ficam bem próximas do campo, as pessoas de lá amam futebol. O Highbury era um pouco parecido com o Anfield. Não a mesma coisa, mas havia uma alma no estádio. E construímos o novo estádio, mas deixamos nossa alma no Highbury”, cravou Wenger.

O francês afirmou que o clube nunca conseguiu recriar a atmosfera do Highbury no Emirates por questões de segurança. “A distância do campo para as arquibancadas teve que ser maior, porque precisávamos de ambulâncias prontas para entrar (no campo). A inclinação das arquibancadas teve que ser menor. Com todas essas coisas combinadas, não conseguimos recriar a atmosfera”, avaliou Wenger.

A comparação do Liverpool atual com o Arsenal da primeira metade dos anos 2000 não parou por aí. Invictos após 22 jogos na temporada da Premier League, com 21 vitórias e um empate, o time de Jürgen Klopp está bem posicionado para, com alguma sorte, repetir a temporada dos Invincibles de Wenger, em 2003/04. E o ex-treinador ofereceu sua perspectiva sobre como é que se constrói uma fase tão pungente e duradoura em um clube.

“Eles são muito bons. Jogam um futebol inteligente, os jogadores tomam decisões inteligentes em campo. Minha experiência conta que, quando você joga toda a temporada invicto, você acumula a crença de que, contanto que você siga jogando, você irá vencer o jogo. Isso é muito difícil de conseguir em um time, porque você precisa de uma sequência especial de resultados para conseguir isso e para tirar do time o medo de perder. É algo muito importante, e eles têm isso no momento.”

Os próximos meses nos revelarão se os comandados de Klopp são capazes de replicar aquele sucesso estrondoso do Arsenal em 2003/04. O nível de futebol, ao menos, já indica que o sonho é possível. E, como aquela forte equipe de Henry, Ljungberg, Vieira e Bergkamp, os Reds contam hoje com um estádio que carrega uma mística de décadas em sua busca por um capítulo especial na história do futebol inglês.