Não era raro olhar para o banco de reservas do Monaco e ver o treinador com um cigarro na mão para aliviar a tensão. Hoje, é curioso pensar que o mesmo homem deu uma bronca pública em Jack Wilshere quando o jogador foi flagrado fumando. Era outra época. Além dos seus hábitos, muita coisa mudou entre 1987, quando Arsène Wenger ganhou sua primeira chance de ganhar títulos, e esta quarta-feira, dia do reencontro com o clube no qual se apresentou ao mundo do futebol.

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Apesar das recentes contestações da torcida, e das recém-nascidas hesitações dos especialistas, não mais tão confiantes no estilo administrativo de Wenger, o francês continua sendo um dos treinadores mais conceituados do mundo. Chegou a esse patamar pelos títulos conquistados no Arsenal, por uma filosofia de futebol leve e bonito, práticas inovadoras e um olho dos mais afiados para identificar futuras estrelas. Nenhuma surpresa para quem acompanhou o auge da carreira dele na França.

A primeira chance de Wenger como treinador surgiu no Nancy. Foram três temporadas, quase um teste, quando o mediano 12º lugar em 1984/85 foi motivo de comemoração, porque os anos que viriam pela frente seriam mais duros. O 18º lugar na edição seguinte do Campeonato Francês obrigou o clube a disputar o playoff do rebaixamento. Conseguiu a salvação por um triz, mas não teria a mesma sorte doze meses depois: ficou em 19º e caiu para a segunda divisão.

Nas entrevistas antes do jogo desta quarta-feira, Wenger disse que o Monaco foi “o clube maluco que o deu uma chance”. Impossível haver descrição mais precisa. O time do Principado ocupava a parte de cima da tabela, era um potencial candidato a título e havia escolhido um treinador rebaixado para comandá-lo. Quem bancou a aposta foi o presidente Jean-Louis Campora, que certamente viu alguma coisa naquele rapaz de 38 anos.

Wenger com Glenn Hoddle e Mark Hateley, algumas das suas primeiras contratações no Monaco
Wenger com Glenn Hoddle e Mark Hateley, algumas das suas primeiras contratações no Monaco

Wenger tratou de rapidamente mostrar ao público o que era. Tinha algumas ideias revolucionárias para a época: treinos táticos específicos, muita preparação com base em vídeos (segundo um ex-colega, o seu apartamento tinha apenas uma cama e uma televisão) e análises estatísticas. Alterou também alguns hábitos do elenco. Os jogadores fariam as refeições junto com a comissão técnica. Mais frango do que carne vermelha. Impôs mais disciplina – chegou a cancelar o Natal – e trouxe profissionais específicos, como fisioterapeutas, especialistas em peso, nutricionistas, e etc.

O trabalho com os jovens, sua principal marca também era visível. Promoveu Emmanuel Petit, aos 17 anos. Lilian Thuram e Thierry Henry, aos 18. Apostou também em um garoto liberiano que atuava em Camarões chamado George Weah e que receberia a Bola de Ouro, em 1995, o único africano a levar essa honraria e o primeiro não-europeu.

O impacto de Wenger foi imediato. O Monaco conquistou o Campeonato Francês de 1987/88 com seis pontos de vantagem para o Bordeaux. Seria o começo de um período de seis anos entre os três primeiros colocados da liga, mas houve um único título. O time de Wenger, depois do sucesso inicial, seria terceiro colocado em 1988/89 e 1989/90 e vice nos três anos seguintes, sempre do mesmo clube. Sempre do Olympique Marseille do presidente Bernard Tapie.

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Não é necessário interpretar muito as palavras de Wenger, até porque ele não fez questão de ser oblíquo, para perceber que o treinador do Arsenal considera os investimentos em Manchester City e Chelsea uma vantagem indevida e o motivo pelo qual ele não vence a Premier League desde 2004. Os milhões de euros de Abramovich e dos catarianos são uma longa discussão ética e subjetiva. Mas na França, ele lidou com um dirigente que tinha o péssimo hábito de subornar os adversários, prática muito menos cinza.

Tapie foi condenado e preso por pagar propina a três jogadores do Valenciennes, antes da final da Champions League de 1993. O seu clube perdeu o título francês daquela temporada, que não foi atribuído a ninguém, banido de disputar competições europeias e rebaixado à segunda divisão. Wenger tinha mais suspeitas em relação ao presidente do Marseille, inclusive suborno aos próprios jogadores do Monaco, mas nada foi comprovado. Ele não teve o apoio de Campora para investigar os outros campeonatos.

Foi quando a relação entre os dois começou a ficar mais arranhada, e o ápice do desentendimento foi em 1994. Antes da temporada começar, Wenger recebeu uma proposta para ser o treinador do Bayern de Munique e, fã da Bundesliga desde sempre, queria aceitar. O clube barrou, mas não teve vergonha nenhuma de demiti-lo meses depois por causa de alguns resultados ruins.

A sua passagem pelo Principado teve esse fim melancólico, e naturalmente ainda resta alguma mágoa, mas ele não esconde a gratidão de ter recebido uma chance tão boa, mesmo sem um currículo robusto dentro da pasta. O balanço foi excelente: além do título francês de 1988, conquistou a Copa da França de 1991 e foi semifinalista da Champions League. Somando os seus dois grandes trabalhos, dá para dizer que Wenger passou por tudo. Bom, quase tudo. Porque nesta quarta, verá dois clubes com um espaço especial no seu coração jogarem entre eles competitivamente pela primeira vez.