O ex-técnico Arsène Wenger, chefe de desenvolvimento global da Fifa, quer propor uma mudança na regra do impedimento. Na Inglaterra, se discute muito os impedimentos marcados pelo VAR, por centímetros, o que faz muita gente questionar como melhorar isso. O francês teve uma ideia, mas que só inverte a lógica e só irá criar um problema na outra ponta. Wenger quer que o jogador seja considerado em posição legal se qualquer parte do seu corpo que possa marcar gols esteja atrás ou na mesma linha do penúltimo defensor.

A medida tem como objetivo diminuir a insatisfação com os impedimentos marcados por centímetros na Premier League, depois de consulta ao VAR. O gol de Olivier Giroud, do Chelsea, contra o Manchester United, foi anulado por poucos centímetros por estar com um pé à frente. Houve diversos outros gols anulados em situações similares.

“A questão mais importante que as pessoas têm com o VAR é com a regra do impedimento”, afirmou Wenger no prêmio Laureus, acontecido em Berlim. “Temos muitos impedimentos por uma fração de centímetro, literalmente por um nariz. É tempo de fazer isso rapidamente”, continuou o francês. “Isto resolverá o problema e não teremos mais decisões sobre milímetros e uma fração do atacante à frente da linha defensiva”.

O problema é que Wenger não parece considerar que as coisas só se inverteriam. Em vez de gols anulados por milímetros, veremos gols que darão a clara impressão de impedimento que acabarão validados também por poucos centímetros. Imagine um jogador que dá a clara sensação de impedimento, mas está com um pedaço do pé na mesma linha do penúltimo defensor. Esse gol será validado e dará uma sensação similar à que existe hoje, só que de forma invertida. Em vez de um gol anulado, será uma sensação de impedimento, mas validado por “um nariz”, como o próprio Wenger falou.

Como dito por Leonardo Bertozzi, nosso companheiro e comentarista da ESPN, a mudança defendida por Wenger não acabaria com os lances milimétricos e ainda faria com que os times defendessem mais atrás para diminuir a nova vantagem que ganha o atacante.

Como citado por Miguel Delaney no tuíte de Bertozzi, é uma ideia pensada para atacar um problema que tem sido constante na Premier League, mais do que em qualquer outra liga, e que passa longe de resolver a questão. Mudanças nas regras do impedimento precisam ser muito bem pensadas, porque elas impactam enormemente o jogo.

Uma regra como essa significa uma mudança que basicamente adiciona mais de três metros a mais para os atacantes se posicionarem. Assim, os times não poderiam manter as linhas altas da mesma forma e seu posicionamento defensivo precisaria ser bastante diferente. Um jogador que está impedido, ao dar um peixinho para cabecear a bola, pode ficar em posição legal, porque seu pé pode ficar na mesma linha do defensor de referência. É uma mudança bastante drástica que parece não ter sido pensada o suficiente.

Há também um outro impacto no jogo, que seria nos próprios árbitros. Seria necessário um treinamento para uma reeducação da percepção. Como o conceito seria invertido, ou seja, estar um pouco à frente não seria suficiente, qualquer parte do corpo já tornaria a posição do atacante legal, perceber isso seria mais difícil. Em torneios sem VAR, isso seria ainda pior. Ainda mais porque a adaptação dos times provavelmente seria se posicionando dando mais passos para trás, de forma a defender mais a própria área e marcar menos à frente para correr menos riscos.

A mudança é tão brutal que precisaria de testes, como já fizeram em nas temporadas 1973/74 e 1974/75 na Escócia, com o impedimento só a partir da grande área (o que foi um fracasso, mudou demais o jogo para pior). Por isso mesmo, é importante fazer análises técnicas e de futebol também, antes até de começar a fazer testes em campeonatos menores.

A mudança parece um pouco brusca demais e não só não resolve o problema do impedimento milimétrico, como ainda tem um impacto enorme em toda a estratégia. Parece inocente achar que isso ocasionaria mais gols, porque isso é olhar para o futebol atual com a regra aplicada. Uma vez aprovada, a regra muda os times, os posicionamentos, e provavelmente os times se colocariam mais atrás. É possível até que saísse menos gols, não mais, como se imagina.

IFAB: “Nós temos que nos afastar da margem de erro”

A proposta precisará ser aprovada pelo International Football Association Board (IFAB), que é quem cuida das regras do jogo. Chegou a se falar sobre a mudança da regra já para a Eurocopa 2020 e para a temporada que vem, mas o processo não é tão rápido assim. A ESPN do Reino Unido procurou Lukas Brud, secretário-geral da IFAB, que disse ser “impossível” que as mudanças, mesmo se forem imediatamente aprovadas, sejam aplicadas já na Eurocopa e na próxima temporada.

A IFAB terá a sua reunião anual no próximo dia 29 de fevereiro, em Belfast. Foi especulado que uma aprovação implicaria na aplicação a partir do dia 1º de julho, mas isso foi descartado por Brud. Segundo ele, a ideia sequer foi discutida em nível técnico e não haverá qualquer mudança na lei do impedimento para a próxima temporada.

“Isso não está na pauta para ser alterado nas regras do jogo”, disse Brud. “Temos um procedimento muito rigoroso que introduzimos há alguns anos de que qualquer proposta precisa ser submetida normalmente até o dia 1º de novembro do ano anterior para que possamos discutir em detalhes com os órgãos relevantes, como os painéis consultivos, de futebol e o técnico. O Conselho de Administração toma uma decisão sobre quais propostas serão aprovadas para aprovação na Reunião Geral Anual”.

“Eu não estou julgando a proposta, ela pode ser boa, mas isso não está na pauta para aprovação ou votação como proposta concreta para entrar nas regras do jogo, é impossível”, disse ainda Brud. “A reunião também é para discutir futebol e algumas ideias e a Reunião Geral Anual pode dizer ok, isso pode ser algo que queremos discutir mais, ou entregar para os painéis consultivos para darem seus pontos de vista ou talvez até algum teste. Nada pode ser usado sem estar nas Leis do Jogo e isso definitivamente não estará nas Leis do Jogo na próxima temporada”.

“Arsène Wenger é um especialista e conhecedor de futebol altamente experiente, então certamente aceitamos suas ideias, mas ainda não discutimos isso e simplesmente não podemos aprovar nada que não tenha sido discutido em nenhum nível agora”, declarou ainda o dirigente da IFAB.

Segundo Brud, não há qualquer proposta na pauta para ser discutida sobre mudanças em relação ao impedimento. “É algo que nós iremos discutir, mas não há uma proposta concreta na pauta”, afirmou. “Nós precisamos encontrar uma solução para a falta de aceitação para tomar decisões que são muito precisas, mesmo que elas pareçam muito forenses. Mas a margem de erro sugere que você dê uma distância específica – e se forem 11 centímetros em vez de 10?”, questionou o dirigente.

“Nós temos que nos afastar da margem de erro, nós temos que encontrar uma instrução ou entendimento de quanto a lei do impedimento se aplica com o VAR. Se a prova não estiver clara, e você pode usualmente ver rapidamente se está claramente impedido ou não, então a decisão original se mantém”, explicou Brud. “Nós geralmente não vemos isso como um problema global em outros países, então é muito difícil constantemente reagir à questão do impedimento. Se a imagem do vídeo claramente mostra que o jogador está em uma posição de impedimento, e o árbitro não deu o impedimento, a decisão deve mudar”.

Por que se usam as linhas para determinar impedimento no VAR?

“Você precisa das linhas por uma razão simples. As câmeras não são estáticas, a imagem que você está vendo não está sempre alinhada com o ângulo do impedimento. Nós sabemos pela tecnologia na linha do gol que quando a bola está na linha [e no ar], ela parece ter cruzado a linha. Quando você olha para ela de cima, a bola ainda está na linha. Nós temos o mesmo problema aqui”, analisou ainda o dirigente.

“Eles [VAR] usam ferramentas para manualmente desenhar uma linha que está calibrada e que está realmente mostrando a verdade, e não o vídeo sozinho. Apenas com as imagens de vídeo, você não pode tomar a decisão. A ferramenta está ajudando o árbitro a tomar decisões precisas. Este, para mim, é o ponto de referência, esta para mim é a decisão final, acabou. Com a margem de erro, onde ela começa e onde ela termina?”, continuou.

“Os níveis de calibração e de precisão melhoraram muito de onde estava há alguns anos. Nós precisamos olhar para isso, e nós estamos constantemente olhando para isso. Não me entenda mal, não é como se estivéssemos ignorando o que a Premier League ou a Uefa estão dizendo, mas há muitas coisas que têm um papel neste debate”, declarou ainda Brud.