O futebol precisará lidar com uma enorme crise após o fim da pandemia da COVID-19, doença causada pelo novo coronavírus. Assim como tantas outras áreas, o esporte precisará rever muitas coisas e uma delas é o desequilíbrio, seja financeiro, seja competitivo, até porque os dois estão ligados. Arsène Wenger é um dos nomes que está olhando para isso. Chefe de desenvolvimento do futebol na Fifa, o treinador olha para o impacto da crise e como o futebol precisa olhar questões como o Fair Play Financeiro e como manter a indústria de pé.

“Os fortes ficarão mais fortes, os fracos ficarão mais fracos. A diferença pode ser aumentada. Se você olhar para as previsões econômicas, parece que toda a produtividade irá cair de 8 a 10% pela Europa. O Banco Central da Europa já prevê que no próximo ano, estaremos no positivo novamente”, disse o ex-técnico do Arsenal, em entrevista ao The Athletic.

“Eu acho que não mudará muito economicamente para os grandes clubes. O que é terrível é que as divisões mais baixas irão sofrer muito. O problema real do jogo não é o nível mais alto. O problema real do jogo está nas divisõs mais baixas”, analisou Wenger.

Além da diferença entre grandes clubes e os menores e entre as ligas de cima com as inferiores, há também uma outra diferença entre continentes notada por Wenger em seu trabalho na Fifa. “Há muito trabalho à frente. Eu vejo isso agora na Fifa. A diferença entre a Europa e o resto do mundo se tornou cada vez maior, e há muita coisa necessária no desenvolvimento do futebol para conseguir competições regulares para as categorias de base, conseguir competições regulares para o futebol feminino”, afirmou Wenger.

“Duas coisas são vitais: criar fundos de urgência dentro das ligas para ajudar os clubes que precisem disso para sobreviver e também financiar o desenvolvimento de futebol das categorias de base”, disse ainda o ex-técnico francês.

“Futebol sem os torcedores não é real”

O futebol está voltando aos poucos e um dos aspectos mais falados é que não teremos a presença de público. Wenger está ansioso para ver novamente a Premier League, uma liga onde ele trabalhou por mais de 20 anos no Arsenal e criou uma ligação muito forte. Para ele, será na Inglaterra que a falta de público será mais sentida.

“O que torna especial na Inglaterra é o modo como as pessoas reagem ao jogo. É a melhor liga do mundo pelo modo que as pessoas respondem ao que está acontecendo em campo. É por isso que será o campeonato mais afetado por não ter torcida”, disse ainda Wenger. Para o treinador, outras ligas têm até mais apoio, mas é algo mais constante durante o jogo. Na Inglaterra, o que acontece em campo influencia muito na reação da arquibancada, segundo o treinador.

“Você percebe que o futebol sem os torcedores não é real. Você tem dois elementos nos jogos de futebol: os jogadores e os torcedores que vão para os estádios e as pessoas que assistem pela televisão. Você divide a primeira seção se os torcedores precisam ficar em casa. Apenas uma parte do espetáculo é dos jogadores. Você percebe o quanto você sente falta da outra parte”, opinou ainda o francês.

“Para o jogo em si, uma das primeiras coisas que eu percebi é que os times menores sem os torcedores têm uma diferença ainda maior para os times mais do alto. Na Alemanha, por exemplo, você pode ver que os jogos em casa contra os maiores adversários que há um elemento faltando – aquela tensão, aquela fé, aquela motivação estão vindo de fora do campo”, analisou ainda Wenger.

“Você vê que a motivação interna do clube não é grande o suficiente contra os grandes clubes. Os times maiores têm mais qualidade, então uma forma de reduzir a diferença entre os times é, claro, ter o apoio dos seus torcedores e colocar aquela intensidade no jogo. Não vamos esquecer da influência na arbitragem e no time adversário também”, continuou o treinador.

“Não estou convencido que um teto salarial funciona”

Um dos aspectos mais discutidos no futebol europeu – e mundial, até – é o da diferença entre os mais ricos e mais pobres no futebol. Na Europa, isso se tornou ainda mais frequente na última década, com poucos times dominando a Champions League. Mesmo em algumas ligas nacionais, o domínio de alguns clubes tem criado um desequilíbrio grande, como na França, Alemanha ou Itália.

O Fair Play Financeiro existe desde 2011, mas o debate sobre ele é intenso. Ele é justo? Ajuda a melhorar o cenário do futebol? Um ponto é que diminuiu o endividamento dos clubes. Por outro lado, porém, a competitividade acaba sendo afetada. Recentemente, o teto salarial ganhou as manchetes, inclusive na Fifa, com Gianni Infantino falando sobre o assunto.

“Eu lutei muito pelo Fair Play Financeiro. O que eu lamento é que quando eu lutava, os times tinham permissão para fazer o que queriam e esses times estão no poder agora, em posições fortes na liga. Eles são hoje em dia, é claro, apoiadores do Fair Play Financeiro porque convém a eles. Mas eles não querem que ninguém novo chegue e seja uma ameaça”, avalia o treinador.

“Talvez devêssemos abrir a porta e sermos muito cautelosos eticamente. Ao criar mais flexibilidade nos resultados, talvez nós tenhamos que abrir a porta ou garantir que todo mundo tenha os mesmos recursos. É tudo muito previsível agora. Por exemplo, na França, antes do campeonato começar, todo mundo pergunta ‘Quem será o segundo?’”, pontuou Wenger, sobre a dominância que o PSG se acostumou a exercer desde 2012 na Ligue 1.

O que pode ser feito, então, para mudar esse cenário? É possível fazer alguma coisa? “Sim, eu estou convencido que a Uefa está consciente disso. Embora eu não esteja completamente convencido de que um teto salarial funciona. As pessoas falam de teto salarial nos Estados Unidos, mas você tem no mesmo time um jogador que ganha US$ 5 milhões e outro que ganha US$ 50 mil. Isso também não funciona”, ponderou.

Pelo jeito, Wenger tem mesmo muito trabalho pela frente na Fifa. Os desafios serão grandes e Wenger tem muito a contribuir. Todos os problemas são grandes e as diferenças entre os mais ricos e mais pobres tendem a aumentar em uma crise como a que estamos vivendo, da pandemia do coronavírus. Se essa diferença já era grande antes, inclusive da Europa para os outros continentes, com a crise tudo se agrava. A Fifa, a Uefa e as entidades que cuidam do futebol precisam olhar para isso. Que pessoas como Wenger sejam ouvidos é positivo ao futebol. É preciso fazer mais do que isso.