Atual diretor de desenvolvimento mundial do futebol pela Fifa, Arsène Wenger vê com preocupação a tendência francesa de compra dos clubes por parte de investidores sem projeto esportivo definido. O ex-treinador do Arsenal critica o “objetivo principal de obter ganho financeiro” desses empresários e propõe a solução: criar uma comissão de ética.

Em entrevista à emissora BeIN Sports, Wenger afirmou que as equipes na França estão cada vez mais sendo comandadas por pessoas que não pensam no futuro das instituições que controlam.

“Os clubes franceses caem, pouco a pouco, nas mãos de pessoas que não são verdadeiros construtores do futuro dos clubes, mas, sim, investidores que buscam ganhar dinheiro muito rápido com eles. Podemos ver hoje na França que há muitos problemas nesse sentido. Os torcedores sentem que o objetivo principal não é construir uma grande equipe, mas, sim, obter um ganho de capital financeiro”, observou.

Sem citar a Bundesliga como exemplo, mas descrevendo um modelo parecido com o que é visto na Alemanha, Wenger indicou o caminho para um maior controle sobre quem adquire os clubes nacionais: “Era preciso talvez criar uma comissão de ética para a compra dos clubes, para ver quais são as verdadeiras intenções das pessoas que compram nossos clubes. Não podemos lapidar a cultura de futebol de um país apenas por questões financeiras.”

A preocupação de Wenger certamente ecoa entre algumas torcidas da França. Mais notavelmente, hoje os ultras do Bordeaux estão em pé de guerra com o fundo de investimentos que administra o clube, King Street, pela falta de uma definição de projeto esportivo ou de demonstrações de ambição dentro de campo.

A situação do futebol francês não foi o único tema da entrevista de Wenger. À BeIN Sports, ele reconheceu ter ficado feliz com a queda da invencibilidade do Liverpool diante do Watford, no fim de fevereiro, antes da suspensão da Premier League devido à pandemia do novo Coronavírus.

“Eu não festejei com um charuto e uma boa taça de vinho, mas sempre gostamos de ser os únicos a ter realizado alguma coisa, então, sim, foi uma forma de satisfação (ver o fim da invencibilidade).”

Wenger acredita que o fim do sonho da temporada invicta dos Reds reforça o feito que ele conseguiu como técnico do Arsenal, na temporada 2003/04, quando se sagrou campeão da Premier League sem sofrer derrotas.

“Isso mostra que é difícil, porque o Liverpool realmente domina o futebol inglês há dois anos, mesmo no ano passado eles perderam apenas uma partida. Se existe uma equipe que poderia ir até o fim sem perder, essa equipe é a deles. De qualquer maneira, naquele dia eu recebi muitas mensagens de torcedores do Arsenal.”