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No momento há apenas três times da Premier League que estão invictos há pelo menos cinco rodadas. Um deles é obviamente o Liverpool, que caminha para quebrar o seu jejum de títulos ingleses com estilo. E, se alguns meses atrás você dissesse que os outros dois seriam Watford e Southampton, seria certamente tachado de louco.

Basta olhar ao que estava acontecendo no começo da temporada, especificamente no final de setembro e outubro. Primeiro, o Watford visitou o Estádio Etihad, levou 8 a 0 e voltou para casa até mais ou menos aliviado por não ter sofrido a maior goleada da história da Premier League.

O recorde era (e continua sendo) o 9 a 0 do Manchester United sobre o Ipswich, em 1995, e, aproximadamente um mês depois, o Southampton falou “segure minha cerveja” e foi derrotado pelo Leicester por esse placar. Acabou sendo uma humilhação até mais pesada por ter sido diante dos seus próprios torcedores, no Estádio St. Mary’s, onde os Saints têm um péssimo histórico para um time que está há tanto tempo na elite inglesa.

Até 14 de dezembro, quando perdeu do Liverpool apesar de ter feito uma boa partida, o Watford tinha apenas uma vitória em 17 rodadas da Premier League, e o Southampton, um pouquinho melhor, havia somado quatro. Agora, com suas séries invictas, os Hornets, enfim, aparecem fora da zona de rebaixamento, e os Saints têm até uma vantagem confortável de sete pontos.

Como isso aconteceu? Os casos são diferentes.

No caso do Southampton, a goleada serviu para galvanizar o time e levar o treinador Ralph Hasenhüttl, que espiava treinos na Alemanha com bicicleta e binóculos e toca piano nas horas vagas, a um momento de auto-reflexão. “Eu também tive que fazer uma auto-crítica e ver que eu estava no caminho errado. Não era a maneira que eu queria jogar normalmente. Quando você perde o seu caminho, é que nem com um jogador – precisa ser crítico e honesto consigo mesmo”, disse o treinador de 52 anos.

A conclusão a que Hasenhüttl chegou é que não estava dando certo recuar cada vez mais quando as coisas davam errado e que era necessário voltar a tomar a iniciativa. Para isso, abandonou os três zagueiros que haviam funcionado para escapar do rebaixamento na temporada passada e resgatou o esquema 4-2-2-2 que havia impulsionado sua carreira com o RB Leipzig na Bundesliga.

A nova fórmula estreou na Premier League com um empate contra o Arsenal, no final de novembro, e desde então produziu seis vitórias, um empate e apenas duas derrotas (Newcastle e West Ham). Importante também é que três dos triunfos aconteceram no Estádio St. Mary’s, onde, pela Premier League, o retrospecto era terrível: desde o fim de dezembro de 2016, apenas 11 vezes o clube havia terminado uma rodada da liga inglesa em casa com os três pontos, em 55 tentativas. E apenas uma vez nesse período conseguiu duas vitórias consecutivas – Fulham e Tottenham ano passado – como o fez diante de Watford e Norwich.

O jogo mais emblemático da recuperação do Southampton, porém, foi o último. Desde a goleada, o Leicester projetou-se como um candidato ao título, se o Liverpool permitisse haver uma briga por ele, mas pelo menos como um possível segundo colocado, o que já seria um resultado admirável.

E o Southampton venceu o Leicester no Estádio King Power, por 2 a 1, placar baixo para ser realmente classificado como uma vingança, mas que pelo menos serviu para reconstruir um pouco da auto-estima do seu torcedor. Danny Ings fez um dos gols e se confirmou como o grande nome da retomada, com dez tentos nas últimas 11 rodadas.

“Foi uma decisão corajosa – quando alguém tem que ser corajoso, o primeiro a fazer isso é o treinador. E os jogadores podem seguir. Mas se você não for corajoso, como eles o seguirão? É importante mostrar o caminho certo novamente”, disse. “Eu tive uma entrevista com um jornal alemão e eles me perguntaram se eu tive medo de ser demitido depois daquele jogo. Eu disse: ‘Se você perde por 9 a 0 e ainda está vivo, perde todo o medo que tem’. É exatamente o momento em que estamos. Eu sinto que o clube me apoia, consegue ver nossa filosofia e estou feliz que o time está mostrando que podemos ser mais bem sucedidos”.

Enquanto isso, o Watford usou a milenar estratégia da tentativa e erro. Javi Gracia havia comandado uma ótima temporada para suas possibilidades, que terminou com o clube em 11º lugar da Premier League e na final da Copa da Inglaterra. Perder para o Manchester City em Wembley era esperado, mas por 6 a 0, sem nem esboçar chance de conquistar o título, não pegou tão bem, e sempre houve no ar uma dúvida sobre o que, depois de superar as expectativas, o Watford poderia fazer na próxima campanha. A resposta mais natural seria decepcionar.

Gracia foi demitido rapidinho pelos donos do Watford, italianos que se livram rapidinho de treinadores, ainda em setembro. Quique Sánchez Flores foi chamado para reassumir o clube que havia comandado em 2016, com a capacidade de formar grandes defesas como seu principal trunfo. Essa tese foi seriamente testada pelos oito gols marcados pelo Manchester City e, no momento da sua demissão, no começo de dezembro, ele havia conseguido apenas uma vitória em dez rodadas da Premier League.

Foi quando chegou Nigel Pearson, um daqueles treinadores ingleses que são muitas vezes subestimados por não serem sofisticados taticamente, mas que conseguem imprimir uma boa organização e falam a real com os jogadores. Atributos que, se não são suficientes para o mais alto nível, poderiam servir bem ao Watford, que, entre seus problemas, passava por uma crise de confiança. As estatísticas sugeriam que o rendimento estava muito distante das chances criadas durante as partidas.

Isso ficou muito claro contra o Liverpool, quando o Watford teve oportunidades claríssimas de marcar, não conseguiu e acabou derrotado por 2 a 0. Parte do mérito de Pearson tem sido devolver um pouco a confiança ao vestiário, o que foi reconhecido por Troy Deeney e Ben Foster. A outra foi trocar os três zagueiros de Sánchez Flores por um esquema que tira o melhor dos seus atacantes, com Deeney, convenientemente recuperado de lesão, preparando as jogadas para os pontas Deulofeu e Ismaila Sarr.

Os resultados são impressionantes. Nessas cinco rodadas de invencibilidade, houve vitórias contra o Manchester United e o Wolverhampton, um empate contra o perigoso Sheffield United, fora de casa, e passeios contra Aston Villa e Bournemouth, ambos por 3 a 0. Nessa sequência, foram marcados 11 gols, o que é bastante considerando que, nas 17 rodadas anteriores, os Hornets haviam conseguido fazer apenas nove. E agora o rebaixamento certo transformou-se em esperança de que é possível continuar na primeira divisão inglesa por mais algum tempo.

Kick and rush

Eddie Howe, técnico do Bournemouth (Foto: Getty Images)

– Muito preocupante o momento do Bournemouth. Por mais que o Watford esteja em ascensão, levar 3 a 0 em casa com tanta naturalidade foi um alerta vermelho em meio a uma sequência horrível de resultados. O time que já foi sétimo colocado está na vice-lanterna, com apenas uma vitória nas últimas 11 rodadas, e muitos outros exemplos de derrotas acachapantes. Coloca em xeque até mesmo o futuro de Eddie Howe, considerado o mais promissor treinador inglês. Uma encruzilhada: mostrar lealdade ao homem que praticamente salvou o clube da extinção, mesmo que isso signifique o rebaixamento, ou tentar o doping anímico de uma troca de comando para escapar da queda?

– Sergio Agüero bateu recordes durante o fim de semana. Com os três gols diante do abalado Aston Villa, chegou a 177 pela Premier League, superando Thierry Henry como o estrangeiro mais artilheiro da era moderna do Campeonato Inglês. Foi também seu 12º hat-trick, superando os 11 de Alan Shearer. O mais fenomenal dos números do argentino é o quão maiores eles seriam se ele não tivesse sofrido tantas lesões em sua passagem pela Inglaterra.

– Temos uma certa tendência de achar que algumas coisas do futebol, como a jabuticaba, são exclusivamente brasileiras, ignorando que uma das poucas coisas realmente globalizadas é a capacidade do ser humano de ser levemente estúpido. Entre coisas que “só acontecem por aqui”, o diretor de futebol do Everton teve que apaziguar os ânimos de torcedores que foram protestar durante um treino do clube e o executivo do Manchester United, Ed Woodward, recebeu ameaças de morte das arquibancadas.